Quando a obsessão de Werner Herzog atravessou a fronteira
entre aquilo que estava diante da câmera e aquilo que acontecia atrás dela
Poucos filmes permitem observar de maneira tão perturbadora
a distância entre uma obra de arte e as condições necessárias para que ela
exista quanto Fitzcarraldo. Lançado em 1982, o filme de Werner Herzog
tornou-se célebre por uma imagem que, isoladamente, já parece saída de uma
alucinação: um enorme navio a vapor sendo transportado por uma montanha no
interior da Amazônia. O que transformou essa sequência em parte da história do
cinema, entretanto, não foi apenas aquilo que aparece na tela, mas a decisão do
diretor de realizá-la sem miniaturas ou qualquer recurso que substituísse
fisicamente o acontecimento. Herzog queria que um navio atravessasse uma
montanha e, para filmar essa imagem, decidiu que um navio realmente deveria
atravessar uma montanha.
Antes do navio, havia uma obsessão
Herzog encontrou parte da inspiração na história de Carlos Fermín Fitzcarrald, empresário peruano ligado à exploração da borracha no final do século XIX. Fitzcarrald havia realizado o transporte terrestre de uma embarcação para estabelecer uma ligação entre sistemas fluviais amazônicos, mas o episódio histórico era consideravelmente menos espetacular do que aquele imaginado pelo cineasta. A embarcação era menor e pôde ser desmontada para facilitar o deslocamento. Herzog fez justamente o contrário. Retirou da história a solução prática e preservou o impossível.
Seu personagem, Brian Sweeney Fitzgerald, conhecido como
Fitzcarraldo, tornou-se um europeu apaixonado por ópera que sonha construir um
grande teatro em Iquitos e levar Enrico Caruso à Amazônia. Como precisa
financiar o projeto, pretende enriquecer com a exploração da borracha em uma
área de difícil acesso. Para alcançá-la, concebe um plano delirante: navegar
por um rio e transportar o navio por terra até outro curso d'água, evitando
assim corredeiras praticamente intransponíveis.
Desde a concepção do projeto, portanto, o barco sobre a montanha não era um detalhe espetacular, mas a imagem em torno da qual o filme se organizava. Seria perfeitamente possível simulá-la com os recursos disponíveis na época, utilizando miniaturas, montagem e efeitos mecânicos. Herzog, porém, acreditava que a materialidade do acontecimento produziria algo que a ilusão cinematográfica não poderia oferecer. O espectador deveria perceber, ainda que intuitivamente, o peso daquele objeto, a resistência do terreno e a desproporção entre a vontade humana e a paisagem.
A questão que acompanharia Fitzcarraldo até o fim
nasceu dessa decisão. A busca por uma imagem mais verdadeira justificaria
tornar verdadeiro também o perigo necessário para produzi-la?
Um filme que precisou começar novamente
Antes que Herzog pudesse responder a essa pergunta na
prática, a produção quase terminou por razões muito mais convencionais. Jason
Robards havia sido escolhido para interpretar Fitzcarraldo, enquanto Mick
Jagger fazia parte do elenco como seu assistente. Depois de meses de filmagem
na Amazônia, Robards contraiu disenteria amebiana, deixou a região para receber
tratamento e foi impedido pelos médicos de retornar. Como consequência, grande
parte do material já realizado perdeu sua utilidade.
A substituição modificou profundamente o personagem. O
Fitzcarraldo de Kinski carrega uma intensidade que parece sempre próxima da
exasperação e que, retrospectivamente, combina de maneira inquietante com o
ambiente em que o filme estava sendo produzido. Os acessos de fúria do ator
tornaram-se frequentes, e o episódio segundo o qual indígenas envolvidos na
produção teriam se oferecido para matá-lo, posteriormente relatado pelo próprio
Herzog, passou a integrar a mitologia que cercaria a parceria entre os dois.
Mais importante do que a anedota, entretanto, é aquilo que ela revela sobre um
set que havia se afastado bastante da ideia de uma produção cinematográfica
convencional.
A saída de Robards poderia ter encerrado Fitzcarraldo.
Para Herzog, abandonar o projeto parecia significar algo maior do que
reconhecer o fracasso de um filme. Àquela altura, a realização começava a
adquirir a mesma lógica de seu personagem: quanto maiores os obstáculos, mais
necessária parecia a tentativa de superá-los.
Quando o cinema deixa de representar
O centro material dessa obsessão era uma embarcação de
aproximadamente 320 toneladas. Herzog pretendia deslocá-la por uma encosta
amazônica utilizando um sistema de cabos, roldanas e equipamentos, numa
operação que envolvia trabalhadores e centenas de indígenas da região. Não se
tratava de criar a impressão de que um barco subia uma montanha, mas de
resolver concretamente um problema de engenharia para que a câmera pudesse
registrar o acontecimento.
É nesse ponto que Burden of Dreams, documentário
realizado por Les Blank durante as filmagens, se torna uma espécie de
complemento indispensável a Fitzcarraldo. O filme de Herzog transforma o
deslocamento do barco em espetáculo; o de Blank devolve àquela imagem sua
dimensão material, permitindo observar máquinas, cabos, trabalhadores,
dificuldades logísticas e, sobretudo, a obstinação do diretor.
Durante muito tempo, porém, foi exatamente assim que parte
da mitologia de Fitzcarraldo se estabeleceu: Herzog aparecia como o
artista visionário disposto a enfrentar a natureza para obter uma imagem
impossível. Existe alguma verdade nessa interpretação, mas ela deixa de lado
uma distinção ética fundamental. Um artista pode decidir colocar a própria
integridade física em risco em nome de sua obra; muito mais problemática é sua
capacidade de estender esse risco às pessoas que trabalham para tornar sua
visão possível.
Essa diferença se torna especialmente importante porque
Herzog ocupava a posição de poder dentro da produção. Era ele quem podia
decidir que a imagem não deveria ser simulada, que o projeto continuaria mesmo
depois das advertências e que transportar fisicamente aquela embarcação era
parte indispensável do filme. Para muitos dos que participavam da operação,
sobretudo trabalhadores e indígenas recrutados na região, a relação com aquela
imagem era necessariamente diferente. O sonho pertencia ao diretor; as consequências
de realizá-lo eram compartilhadas.
Herzog encontra Fitzcarraldo
É difícil determinar em que momento o diretor começou a se
aproximar excessivamente do personagem que pretendia filmar, talvez porque essa
identificação estivesse presente desde a concepção do projeto. Fitzcarraldo
acredita que uma vontade suficientemente intensa pode obrigar a realidade a
ceder. Herzog construiu a produção segundo princípio semelhante.
A correspondência não precisa ser transformada em
diagnóstico psicológico para ser reveladora. Tanto o personagem quanto o
cineasta organizam pessoas, recursos e tecnologia em torno de uma ideia que
parece desproporcional aos meios disponíveis. Em ambos os casos, a montanha
deixa de ser apenas uma barreira física e se transforma em prova de que a
vontade pode triunfar sobre aquilo que parecia impossível.
Há, contudo, uma diferença importante entre a ficção e a
produção. O personagem pode ser observado pelo espectador com a distância que
reservamos aos excessos humanos representados pela arte. O diretor precisa
responder pelas condições concretas criadas por suas decisões. É justamente
essa passagem da metáfora para a realidade que torna os bastidores de Fitzcarraldo
tão difíceis de separar do próprio filme.
A presença de Kinski ampliou essa sensação. A relação entre
ator e diretor, já marcada por confrontos em trabalhos anteriores, encontrou na
Amazônia um ambiente especialmente propício à exacerbação. Herzog registraria
posteriormente essa parceria em Meu Melhor Inimigo, contribuindo ele
próprio para transformar os conflitos em parte de sua persona pública. O risco,
ao revisitar essas histórias, é permitir que a figura romântica dos dois
artistas temperamentais obscureça as demais pessoas que precisavam conviver com
as consequências dessa atmosfera.
A imagem finalmente existe
O navio acabou subindo a encosta, e talvez nenhuma descrição
dos bastidores seja capaz de eliminar o impacto da sequência. Há uma diferença
perceptível entre observar um objeto que parece possuir centenas de toneladas e
observar um objeto que efetivamente possui esse peso. A lentidão do
deslocamento, a tensão dos cabos, a resistência do terreno e a escala da
embarcação diante da paisagem produzem uma sensação física que explica, pelo
menos parcialmente, o que Herzog procurava.
Isso não significa que sua decisão estivesse automaticamente
justificada. Significa apenas que o problema é mais complexo do que seria se
todo aquele esforço tivesse produzido uma imagem banal. Herzog conseguiu
precisamente aquilo que buscava, e é essa vitória artística que torna o debate
ético mais incômodo. Se a sequência fosse irrelevante, seria fácil condenar o
processo como simples irresponsabilidade. O fato de ela ter se tornado uma das
imagens mais memoráveis do cinema moderno nos obriga a confrontar uma
possibilidade menos confortável: uma obra pode ser artisticamente
extraordinária e, ainda assim, ter sido realizada por métodos que merecem
questionamento.
Esse paradoxo acompanha Fitzcarraldo desde que o
filme chegou às telas.
Cannes e a consagração da aventura
A crítica da época recebeu o filme com uma combinação de
admiração e reservas. Sua duração, o ritmo deliberado e algumas irregularidades
foram apontados, mas a escala da visão de Herzog e a singularidade da
experiência dificilmente poderiam ser ignoradas. A produção já era
suficientemente conhecida para que o público não assistisse à passagem do navio
como uma sequência inteiramente autônoma. Saber que aquilo havia realmente
acontecido modificava a percepção da imagem.
O lançamento de Burden of Dreams aprofundou ainda
mais essa relação. O documentário de Les Blank transformou os bastidores em uma
segunda narrativa e mostrou que a aventura vista no filme possuía um
equivalente fora dele. Poucas obras passaram a carregar de maneira tão
persistente a história de sua própria fabricação. Em Fitzcarraldo,
conhecer como determinada cena foi realizada não diminui a ilusão
cinematográfica; ao contrário, torna-se parte da experiência de contemplá-la.
O que mudou em quarenta anos
A permanência de Fitzcarraldo não depende apenas da
extravagância de sua produção. O filme continua sendo uma das expressões mais
características do cinema de Herzog, interessado em personagens que perseguem
projetos grandiosos diante de uma natureza indiferente aos desejos humanos. A
atuação de Kinski, a presença monumental da paisagem amazônica e a tensão entre
sonho, conquista e fracasso preservam sua força independentemente do
conhecimento dos bastidores.
O que mudou de maneira mais evidente foi nossa disposição
para romantizar as condições em que essa força foi obtida. Durante décadas, a
história do barco sobre a montanha podia ser apresentada quase exclusivamente
como prova da integridade artística de Herzog, um cineasta que teria recusado
os atalhos do cinema industrial em defesa da verdade de sua imagem. Essa
interpretação ainda possui apelo, mas hoje convive necessariamente com questões
relacionadas à segurança, às condições de trabalho, às assimetrias de poder e à
participação das comunidades indígenas numa produção europeia realizada em
território amazônico.
Isso não exige uma condenação retrospectiva simplificadora.
Julgar uma produção de 1982 apenas pela regulamentação e pelas práticas atuais
seria pouco produtivo, assim como utilizar o contexto histórico para dispensar
qualquer discussão ética também seria. O interesse de Fitzcarraldo está
justamente na impossibilidade de resolver facilmente essa tensão.
Com os recursos contemporâneos, uma produção poderia criar a
mesma situação recorrendo a efeitos digitais, extensões de cenário, elementos
físicos controlados e composição de imagens. Talvez o resultado fosse menos
convincente; talvez um espectador sequer percebesse a diferença. Mas a pergunta
decisiva não está na comparação tecnológica. Está em saber se a autenticidade
perceptível de uma imagem constitui razão suficiente para aceitar riscos
humanos que poderiam ser evitados.
Herzog construiu grande parte de seu cinema sobre a
convicção de que existe uma verdade na experiência física que a simulação não
alcança inteiramente. Fitzcarraldo talvez seja a manifestação extrema
dessa ideia. A montanha, o barco, a lama e o esforço não representam alguma
coisa; eles estavam efetivamente diante da câmera. O problema é que, quando a
realidade entra no filme dessa maneira, entram também as responsabilidades
decorrentes dela.
O preço de uma imagem
Quatro décadas depois, talvez seja possível olhar para Fitzcarraldo
de maneira mais interessante do que simplesmente escolher entre celebrar Herzog
como um visionário ou condená-lo como um irresponsável. As duas interpretações
isoladas empobrecem uma história cuja importância está precisamente em sua
contradição.
O cineasta conseguiu realizar algo que parecia absurdo,
atravessou sucessivos fracassos, reconstruiu o projeto depois de perder seu
protagonista e terminou um filme que recebeu reconhecimento internacional e
permanece como uma das obras centrais de sua carreira. A sequência do navio
continua impressionante porque contém uma materialidade que dificilmente pode
ser dissociada do modo como foi produzida. Negar essa conquista seria ignorar
parte essencial da experiência estética oferecida pelo filme.
Mas admirá-la não exige transformar em virtude tudo aquilo
que foi necessário para obtê-la. O mesmo conhecimento que intensifica o impacto
da sequência também modifica seu significado. Quando sabemos que a massa diante
da câmera realmente estava sendo arrastada por uma encosta, sabemos igualmente
que havia pessoas encarregadas de realizar aquela operação e que a decisão de
submetê-las a esse processo nasceu da convicção artística de um homem que
detinha o controle do projeto.
Talvez seja por isso que Fitzcarraldo continue sendo
um objeto tão extraordinário para pensar o próprio cinema. A obra demonstra até
onde a recusa da ilusão pode conduzir um cineasta, mas também mostra que a
busca pela autenticidade não acontece em um espaço abstrato, separado das
relações humanas que tornam um filme possível.
A imagem que Herzog desejava existe. Tornou-se célebre,
atravessou gerações e provavelmente continuará causando espanto muito depois de
desaparecerem as circunstâncias que cercaram sua produção. O que mudou foi
nossa capacidade de contemplá-la sem aceitar automaticamente a velha ideia de
que a grande arte absolve os excessos cometidos em seu nome.
Por isso, talvez a pergunta deixada por Fitzcarraldo não seja se Werner Herzog deveria ou não ter transportado aquele navio pela montanha. O acontecimento pertence à história e sua imagem já faz parte do cinema. A questão que permanece é mais ampla e continua válida sempre que a ambição de um criador encontra os limites impostos pela segurança, pela responsabilidade e pela dignidade daqueles que trabalham para transformar sua visão em realidade: quanto estamos dispostos a aceitar que outras pessoas sacrifiquem para que uma grande imagem possa existir?