Quando o cinema chegou ao Brasil, no final do século XIX,
ainda não existia propriamente aquilo que hoje chamamos de cinema brasileiro.
Existia uma invenção que despertava curiosidade, algumas imagens em movimento
projetadas diante de espectadores fascinados e, pouco depois, pessoas dispostas
a experimentar o que aquela nova máquina poderia fazer. Entre esse primeiro
contato e o início dos anos 1930, porém, aconteceu algo muito maior do que uma
simples sucessão de avanços técnicos: aos poucos, o país aprendeu a produzir
imagens, contar histórias, formar públicos e reconhecer no cinema uma
possibilidade de expressão própria.
QUANDO TUDO AINDA ERA NOVIDADE
As primeiras exibições cinematográficas no Brasil ocorreram no Rio de Janeiro em 1896, poucos meses depois das célebres sessões realizadas pelos irmãos Lumière em Paris. Naquele momento, pouco importava a existência de uma história elaborada ou de personagens capazes de conduzir uma narrativa. A própria possibilidade de observar imagens em movimento já constituía o espetáculo.
Dois anos depois, Afonso Segreto realizou as imagens da
entrada da Baía de Guanabara que se tornariam tradicionalmente associadas ao
nascimento do cinema brasileiro. A historiografia posteriormente relativizou a
ideia de que aquela teria sido necessariamente a primeira filmagem realizada no
país, mas a força simbólica do episódio permanece: em algum momento daqueles
primeiros anos, o Brasil deixou de ser apenas um lugar onde filmes estrangeiros
eram exibidos e tornou-se também um lugar onde imagens cinematográficas eram
produzidas.
Durante essa fase inicial, a câmera esteve voltada
principalmente para aquilo que acontecia diante dela. Paisagens, cerimônias,
acontecimentos políticos, cenas urbanas e episódios do cotidiano eram
registrados e depois apresentados ao público. O cinema estava ainda muito
próximo da fotografia, das atualidades e da própria fascinação pela capacidade
de preservar o movimento.
O CINEMA DESCOBRE O ESPETÁCULO
A expansão da eletricidade e das salas permanentes de
exibição modificou profundamente a relação do público brasileiro com o cinema
durante a primeira década do século XX. No Rio de Janeiro, especialmente a
partir de 1907, multiplicaram-se os espaços dedicados às projeções, criando
algo que os primeiros exibidores ocasionais não possuíam: espectadores que
poderiam incorporar o cinema aos seus hábitos de entretenimento.
A existência de salas estimulava a procura por filmes, e
essa procura favorecia a produção local. Entre aproximadamente 1907 e 1911
ocorreu aquilo que posteriormente seria chamado de Bela Época do cinema
brasileiro, um período breve, mas suficientemente intenso para revelar como
aquela novidade tecnológica começava a adquirir características de uma
atividade cultural e comercial.
Os realizadores perceberam rapidamente que não precisavam
procurar suas histórias muito longe. Crimes que mobilizavam a imprensa podiam
ser reconstituídos para as telas, acontecimentos conhecidos despertavam a
curiosidade dos espectadores e comédias, dramas e episódios populares ofereciam
material para novas produções. Os chamados filmes cantantes, acompanhados por
intérpretes posicionados atrás da tela, aproximavam as imagens projetadas da
música e do espetáculo ao vivo, criando uma experiência que dialogava
diretamente com formas de entretenimento já conhecidas pelo público.
Há uma transformação importante escondida nesse período
aparentemente rudimentar. O cinema realizado no Brasil começava a perceber que
poderia falar sobre aquilo que os brasileiros conheciam, comentavam e
reconheciam como parte de sua própria experiência. Ainda estava longe de
possuir uma linguagem nacional claramente identificável, mas já não era apenas
uma tecnologia estrangeira apresentada diante de espectadores locais.
Começava a estabelecer uma relação com o país.
UM CRESCIMENTO QUE NÃO SE TRANSFORMOU EM INDÚSTRIA
A expansão daqueles anos poderia sugerir que o Brasil
caminhava naturalmente para a formação de uma indústria cinematográfica. A
história tomou outro rumo.
Durante a década de 1910, o mercado internacional passou por
uma reorganização profunda, e os Estados Unidos consolidaram uma estrutura de
produção e distribuição capaz de levar seus filmes a uma quantidade crescente
de países. O Brasil tornou-se um desses mercados, e as produções estrangeiras
passaram a ocupar de maneira cada vez mais intensa as salas nacionais.
Para quem pretendia produzir cinema no país, o problema não
terminava quando o filme ficava pronto. Era necessário encontrar recursos para
realizá-lo, organizar sua distribuição e, finalmente, conseguir espaço para
exibi-lo em um circuito no qual empresas estrangeiras possuíam vantagens cada
vez maiores. A fragilidade da produção nacional não decorria, portanto, apenas
da ausência de realizadores ou de histórias que pudessem interessar ao público.
Havia uma questão estrutural que começava a se tornar evidente.
Como construir uma cinematografia nacional quando o próprio
mercado de exibição estava sendo ocupado por uma indústria estrangeira muito
mais poderosa?
Essa pergunta atravessaria praticamente toda a história
posterior do cinema brasileiro. Mudariam as empresas, as políticas públicas, as
tecnologias e as formas de distribuição, mas a dificuldade de aproximar
produção nacional e público permaneceria recorrente.
A primeira expansão perdeu força. O cinema brasileiro,
porém, não desapareceu.
QUANDO O CINEMA SE ESPALHOU PELO BRASIL
Uma das consequências mais interessantes das décadas
seguintes foi justamente a descentralização das experiências de produção.
Durante os anos 1910 e, principalmente, ao longo da década de 1920, diferentes
cidades brasileiras começaram a desenvolver iniciativas cinematográficas
próprias, demonstrando que a história daquele cinema não poderia ser contada
apenas a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Recife tornou-se um dos casos mais importantes. O chamado Ciclo
do Recife reuniu realizadores e produtores que, apesar das limitações
técnicas e financeiras, conseguiram estabelecer uma produção relativamente
significativa de filmes de ficção. Experiências também surgiram em outros
lugares, entre eles Campinas e Cataguases, criando aquilo que a historiografia
posteriormente identificaria como ciclos regionais.
Esses núcleos não formavam uma indústria integrada e
tampouco possuíam condições de competir de maneira permanente com o cinema
estrangeiro. Muitas vezes dependiam do entusiasmo de pequenos grupos, de
equipamentos improvisados e de conhecimentos adquiridos durante a própria
realização dos filmes. Ainda assim, produziram algo historicamente importante:
permitiram que diferentes regiões começassem a se enxergar através da câmera.
O país entrava no cinema não apenas como cenário, mas como
matéria narrativa. Paisagens, costumes, personagens e ambientes brasileiros
podiam participar das histórias, ainda que os modelos dramáticos frequentemente
continuassem influenciados pelo cinema estrangeiro.
Foi justamente em um desses centros afastados dos principais
polos culturais do país que surgiu um realizador fundamental para compreender a
passagem entre o cinema dos pioneiros e uma cinematografia cada vez mais
consciente de sua linguagem.
HUMBERTO MAURO E A DESCOBERTA DO QUE A CÂMERA PODIA FAZER
Quando Humberto Mauro começou a realizar filmes em
Cataguases, na década de 1920, as condições estavam muito distantes daquilo que
se poderia imaginar como uma indústria cinematográfica organizada. Sua formação
aconteceu essencialmente pela experiência, pela observação e pelo próprio ato
de filmar.
Essa precariedade, no entanto, não impediu que seu cinema
demonstrasse uma preocupação crescente com as possibilidades expressivas da
imagem. Em obras como Braza Dormida (1928), a câmera já não funciona
simplesmente como instrumento encarregado de registrar atores representando uma
história. Enquadramentos, movimentos, montagem e composição visual começam a
participar da construção dramática.
A mudança ajuda a medir a distância percorrida desde os
primeiros registros realizados no país. No final do século XIX, o fascínio
estava na possibilidade de colocar alguma coisa diante de uma câmera e vê-la
posteriormente em movimento. Três décadas depois, realizadores brasileiros
começavam a investigar como a posição dessa câmera, a duração de um plano ou a
relação entre duas imagens poderiam alterar aquilo que o espectador sentia e
compreendia.
O cinema brasileiro começava, enfim, a pensar
cinematograficamente.
Humberto Mauro ocuparia posição central nesse processo, mas
ele não estava sozinho. O final dos anos 1920 e o começo da década seguinte
revelariam que, apesar de toda a fragilidade econômica acumulada desde os
primeiros anos, a produção brasileira já podia alcançar níveis surpreendentes
de elaboração formal.
QUANDO EXPERIMENTAR TAMBÉM PASSOU A SER POSSÍVEL
Em 1931, Mário Peixoto realizou Limite, uma obra que
parecia surgir de um cinema brasileiro muito diferente daquele dos registros de
atualidades ou das reconstituições de crimes populares do começo do século.
Sua construção baseada em imagens, associações, movimentos,
enquadramentos e ritmo afastava-se radicalmente da narrativa convencional. O
reconhecimento de sua importância aconteceria principalmente nas décadas
posteriores, mas sua própria existência revela até onde algumas experiências
cinematográficas brasileiras já haviam chegado no início dos anos 1930.
Dois anos depois, Humberto Mauro realizou Ganga Bruta
(1933), levando ainda mais longe uma investigação visual que vinha
desenvolvendo desde seus trabalhos anteriores. Embora recebido com dificuldade
em seu próprio tempo, o filme seria posteriormente reconhecido como uma das
obras fundamentais desse primeiro período de amadurecimento do cinema nacional.
Não se tratava ainda de uma cinematografia industrialmente
forte. O contraste era justamente esse: enquanto a estrutura econômica
permanecia instável, alguns realizadores demonstravam que a capacidade
artística do cinema brasileiro já havia avançado muito além das condições
materiais que o sustentavam.
Entre aquelas primeiras imagens produzidas no final do
século XIX e filmes como Limite e Ganga Bruta haviam transcorrido
pouco mais de trinta anos. O que começara como descoberta de uma tecnologia já
podia resultar em experiências cinematográficas de considerável complexidade.
Mas, justamente quando o cinema silencioso brasileiro
alcançava algumas de suas experiências mais sofisticadas, uma nova
transformação obrigaria produtores e realizadores a reaprender parte do
caminho.
O SOM MUDA NOVAMENTE AS REGRAS
A expansão internacional do cinema falado, iniciada no final
dos anos 1920, criou oportunidades e dificuldades para cinematografias que
ainda tentavam estruturar suas próprias formas de produção. Incorporar o som
exigia equipamentos, conhecimento técnico e novos investimentos, aumentando os
obstáculos para uma atividade que já enfrentava problemas de financiamento e
distribuição.
Ao mesmo tempo, havia uma possibilidade particularmente
importante para o Brasil. Se a imagem havia permitido que paisagens, rostos e
ambientes nacionais chegassem às telas, o som poderia levar consigo algo ainda
mais diretamente reconhecível pelo público: a língua, a música, as vozes e uma
cultura popular fortemente associada ao rádio e ao espetáculo musical.
A Voz do Carnaval (1933), dirigido por Adhemar
Gonzaga e Humberto Mauro, pertence a esse momento de transição e ajuda a
indicar o caminho que parte da produção brasileira seguiria nos anos
posteriores. A aproximação entre cinema, música popular, artistas conhecidos e
cultura de massa abriria possibilidades que seriam exploradas de maneira muito
mais ampla nas décadas seguintes.
Ao mesmo tempo, iniciativas como a Cinédia, fundada por
Gonzaga em 1930, expressavam uma ambição que acompanhava o cinema brasileiro
desde seus primeiros impulsos: transformar experiências isoladas de produção em
uma atividade mais regular e profissional.
Era uma nova tentativa de responder a um problema antigo.
TRINTA E SETE ANOS PARA COMEÇAR A SER CINEMA BRASILEIRO
O percurso entre 1896 e 1933 não pode ser entendido como uma
marcha contínua em direção ao progresso. Houve avanços e interrupções, períodos
de maior produção e momentos de quase desaparecimento, experiências locais que
não conseguiram sobreviver e filmes dos quais pouco ou nada restou. A própria
preservação incompleta desse patrimônio torna difícil reconstruir plenamente o
que aconteceu.
Ainda assim, quando observamos o período como um todo, uma
transformação profunda se torna visível. O Brasil começou como consumidor de
uma invenção que chegava da Europa e, em poucas décadas, desenvolveu
produtores, exibidores, realizadores, atores, experiências regionais e obras
capazes de explorar conscientemente a linguagem cinematográfica.
Mais importante ainda, aqueles primeiros anos revelaram
problemas que permaneceriam surpreendentemente familiares ao longo do século
seguinte. A dificuldade de financiar filmes, a fragilidade da distribuição, a
presença dominante do cinema estrangeiro, a necessidade de formar público e a
busca por estruturas capazes de sustentar uma produção contínua não surgiriam
posteriormente. Estavam presentes praticamente desde o nascimento de nossa
cinematografia.
Talvez seja justamente por isso que esses primeiros passos
sejam tão importantes para compreender tudo o que viria depois. Antes de
discutir qual deveria ser a identidade do cinema brasileiro, quais imagens
representariam o país ou que linguagem seus grandes autores desenvolveriam, foi
necessário resolver uma questão mais elementar: descobrir se era possível fazer
cinema aqui.
A resposta construída entre 1896 e 1933 ainda era frágil,
incompleta e cheia de contradições. Mas já era suficientemente clara para
permitir o próximo passo. O Brasil havia deixado de ser apenas um lugar onde o
cinema era exibido. Havia começado a construir o seu próprio cinema.
PARA CONHECER ESSE COMEÇO
Braza Dormida - Humberto Mauro - 1928
Um ponto privilegiado para observar o amadurecimento de Humberto Mauro e o
momento em que a construção visual começa a assumir papel cada vez mais
importante na narrativa.
Limite - Mário Peixoto - 1931
Uma experiência radical de montagem, composição e ritmo que ocupa lugar
singular na história do cinema brasileiro e revela a ambição formal que algumas
produções nacionais já haviam alcançado.
Ganga Bruta - Humberto Mauro - 1933
Uma das obras fundamentais do período, importante para acompanhar tanto a
evolução de Mauro quanto a consolidação de uma linguagem cinematográfica mais
sofisticada.
A Voz do Carnaval - Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro - 1933
Um filme representativo da transição para o cinema sonoro e da aproximação
crescente entre produção cinematográfica, música popular e cultura de massa no
Brasil.