FRANKENSTEIN: O MONSTRO QUE CADA ÉPOCA RECRIOU À SUA
MANEIRA
Em 1931, uma porta se abre lentamente. Uma figura gigantesca
entra de costas. Ela se vira. A câmera se aproxima de seu rosto em três cortes
sucessivos. Bastaram poucos segundos para Boris Karloff ajudar a criar uma das
imagens mais reconhecíveis da história do cinema.
Mas aquela criatura não permaneceria a mesma. Ao longo das
décadas, outros atores vestiriam suas cicatrizes, experimentariam diferentes
maneiras de movimentar seu corpo e, principalmente, encontrariam novas formas
de revelar aquilo que existe por trás de sua aparência assustadora.
Do monstro quase silencioso de Karloff à criatura
interpretada por Jacob Elordi no Frankenstein de Guillermo del Toro, há
quase um século de cinema.
Observar essas interpretações lado a lado permite perceber
algo maior do que a evolução de um personagem. Permite acompanhar como o
próprio cinema mudou sua maneira de representar o medo, a diferença e a
humanidade.
ANTES DO CINEMA, HAVIA MARY SHELLEY
Quando Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno foi
publicado em 1818, Mary Shelley tinha apenas 20 anos. O romance apresentava
Victor Frankenstein, um jovem cientista que consegue produzir vida a partir de
matéria morta. O triunfo dura pouco. Horrorizado diante do ser que criou,
Victor o abandona.
Esse abandono é fundamental. A criatura de Shelley não nasce
simplesmente má. Ela observa os seres humanos, aprende, desenvolve linguagem,
procura afeto e descobre progressivamente que sua aparência a condena à
rejeição. A violência surge dentro dessa relação entre criador e criação,
pertencimento e exclusão.
Quando o cinema começou a adaptar a história, porém,
precisou encontrar uma forma visual para algo que cada leitor havia imaginado. E
foi justamente essa imagem que começaria a mudar.
1. BORIS KARLOFF
Não foi a primeira adaptação cinematográfica da obra de Mary Shelley. Uma versão curta já havia sido realizada pela Edison Studios em 1910. Mas foi o filme dirigido por James Whale em 1931 que transformou Frankenstein em um dos grandes mitos do cinema.
A maquiagem criada por Jack Pierce, com a cabeça achatada,
as cicatrizes e o corpo pesado, tornou-se tão influente que passou a existir
quase independentemente do romance.
Karloff fez algo ainda mais importante. Por trás daquela
aparência ameaçadora, encontrou vulnerabilidade. Sua criatura compreende pouco
do mundo. Movimenta-se com dificuldade. Reage ao medo e à violência quase como
alguém que está descobrindo pela primeira vez aquilo que existe ao seu redor.
Uma das sequências mais famosas do filme, o encontro com a
menina Maria, é essencial para perceber essa dimensão. Por alguns instantes, o
monstro deixa de ser uma ameaça e se torna apenas alguém tentando participar de
uma brincadeira.
O horror nasce justamente porque ele não compreende as
consequências de seus atos. Karloff transformou o monstro em vítima e ameaça ao
mesmo tempo.
2. LON
CHANEY JR.
The
Ghost of Frankenstein - 1942
Quando Lon Chaney Jr. assumiu o personagem, Frankenstein já havia se transformado em franquia. Karloff interpretara a criatura novamente em A Noiva de Frankenstein (1935) e O Filho de Frankenstein (1939). A Universal havia percebido que seus monstros podiam retornar continuamente. Chaney recebeu, portanto, um personagem que já possuía uma imagem consolidada.
Sua interpretação enfatiza sobretudo sua presença física. O
corpo parece ainda mais pesado, os movimentos mais rígidos e a criatura mais
próxima daquela figura que posteriormente seria reproduzida incontáveis vezes
em cartazes, brinquedos, quadrinhos e fantasias. O personagem começava a deixar
de pertencer exclusivamente ao filme que o havia criado. Estava se tornando um
ícone.
3. BELA
LUGOSI
Frankenstein
Meets the Wolf Man - 1943
Poucas escalações poderiam ser mais simbólicas. Bela Lugosi já havia se tornado outro rosto definitivo do terror ao interpretar o conde Drácula em 1931.
Curiosamente, seu encontro com Frankenstein poderia ter
acontecido muito antes. Lugosi esteve associado ao projeto original da
Universal antes de Boris Karloff assumir o papel. Em 1943, finalmente tornou-se
a criatura.
O filme também representa uma transformação importante no
cinema de monstros. Frankenstein já não precisava permanecer isolado dentro de
sua própria história. Ele poderia encontrar outras criaturas. Frankenstein
Meets the Wolf Man ajudava a desenvolver uma lógica que o cinema popular
exploraria repetidamente nas décadas seguintes: personagens conhecidos
compartilhando o mesmo universo.
O monstro estava deixando de ser apenas personagem. Estava
se tornando propriedade da cultura popular.
4. GLENN
STRANGE
House
of Frankenstein - 1944
Glenn Strange possuía uma característica imediatamente útil para o personagem: sua enorme presença física. Com ele, a criatura ganhou uma silhueta ainda mais monumental.
Strange interpretaria o monstro outras vezes para a
Universal e ajudaria a fixar uma imagem que sobreviveria durante décadas.
Mas algo estava acontecendo. Quanto mais reconhecível
Frankenstein se tornava, menos assustador precisava ser. O personagem podia
dividir a tela com Drácula, Lobisomem e outras criaturas. O público já sabia
quem ele era antes mesmo que aparecesse. O medo começava a conviver com a
familiaridade. Frankenstein havia se tornado uma celebridade.
5.
CHRISTOPHER LEE
The
Curse of Frankenstein - 1957
Então foi necessário destruí-lo para reconstruí-lo. Quando a britânica Hammer decidiu revisitar Frankenstein, havia um problema: a aparência consagrada por Boris Karloff estava profundamente associada aos filmes da Universal. A solução acabou sendo criativamente importante. A nova criatura precisava parecer diferente.
Christopher Lee surge com cicatrizes mais agressivas, pele
marcada e um rosto que parece efetivamente resultado de uma montagem de partes
humanas. O efeito é perturbador. A criatura deixa de possuir aquela estranha
familiaridade adquirida ao longo das décadas anteriores. Volta a causar
desconforto.
Também havia outra mudança fundamental. O cinema de terror
dos anos 1950 podia mostrar mais violência, sangue e deterioração física do que
Hollywood permitira duas décadas antes. Frankenstein acompanhava essa
transformação. O monstro de Christopher Lee não precisava apenas existir. Seu
corpo podia revelar aquilo que havia sido feito com ele.
6.
ROBERT DE NIRO
Mary
Shelley's Frankenstein - 1994
O próprio título anunciava uma intenção. Mary Shelley's Frankenstein prometia recuperar elementos do romance que muitas adaptações haviam abandonado ou transformado.
Robert De Niro recebeu então uma criatura bastante diferente
daquela consolidada pela cultura popular. Ela fala, pensa, aprende, questiona e,
principalmente, compreende o próprio
abandono.
A aparência continua perturbadora, mas agora existe uma
consciência muito mais evidente por trás dela. Isso altera nossa relação com o
personagem.
Quando a criatura entende por que os seres humanos a
rejeitam, o horror deixa de estar apenas em sua aparência. Passa a existir
também na experiência de perceber que nunca poderá participar plenamente
daquele mundo.
O monstro ganha voz. E, ao ganhar voz, pode acusar seu
criador. Victor Frankenstein deixa de ser apenas o cientista perseguido pelas
consequências de seu experimento. Sua responsabilidade passa para o centro da
história. Criar uma vida não é suficiente. O que acontece depois da criação?
7. JACOB ELORDI
Mais de nove décadas depois de Karloff, Guillermo del Toro voltou à criatura. Era uma combinação quase inevitável. Ao longo de sua filmografia, del Toro frequentemente encontrou humanidade justamente naquilo que os seres humanos chamam de monstruoso.
Em seu Frankenstein, Jacob Elordi recebe uma tarefa
difícil: interpretar um personagem cuja imagem já carrega mais de um século de
referências cinematográficas. A resposta não é simplesmente atualizar o
monstro. É voltar a olhar para ele.
Sua criatura possui força e dimensão física, mas também
curiosidade, inocência, dor e desejo de pertencimento. O corpo continua
fundamental, embora seu significado tenha mudado.
Já não olhamos apenas para um organismo montado a partir de
partes humanas. Observamos alguém tentando compreender por que foi colocado no
mundo e qual lugar poderia ocupar nele. O medo da criatura cede espaço
progressivamente para outra sensação. Compaixão.
QUANDO O MONSTRO MUDA, NÓS TAMBÉM MUDAMOS
Colocar essas sete interpretações em sequência produz uma
pequena história do cinema.
Karloff transformou o personagem em ícone.
Chaney reforçou sua dimensão física.
Lugosi mostrou que a criatura já poderia sobreviver à troca
de seu rosto.
Strange ajudou a convertê-la definitivamente em personagem
da cultura popular.
Lee devolveu violência e estranhamento ao corpo.
De Niro recuperou sua consciência e sua capacidade de
confrontar o criador.
Elordi encontrou novamente a criatura que deseja compreender
por que existe.
Nenhuma dessas interpretações elimina as anteriores. Elas se acumulam. É justamente isso que torna personagens como Frankenstein tão interessantes. Quando um novo ator assume o papel, ele não começa do zero. Existe uma memória construída por todos aqueles que vieram antes. O espectador também carrega essa memória.
Mesmo quem nunca assistiu ao Frankenstein de 1931
provavelmente reconheceria a criatura de Karloff. Sua imagem atravessou o
cinema e passou para desenhos animados, publicidade, brinquedos, fantasias de
Halloween e incontáveis paródias. Poucos personagens alcançam esse estágio. Eles
deixam de pertencer apenas às obras em que aparecem. Tornam-se mitos.
AFINAL, QUEM É FRANKENSTEIN?
Existe ainda uma curiosidade reveladora. Durante décadas, a
cultura popular passou a chamar a própria criatura de Frankenstein. No romance
de Mary Shelley, Frankenstein é Victor, o criador. A criatura não recebe um
nome. Talvez esse deslocamento diga alguma coisa sobre a força que o monstro
adquiriu.
A criação acabou tomando para si o nome do criador. Mas
existe uma questão muito mais importante por trás dessa confusão. Quem merece
ser chamado de monstro? O ser que foi construído com partes de cadáveres e
lançado ao mundo sem compreender por que existe? Ou o homem que decidiu criar
uma vida e, diante dela, recusou-se a assumir responsabilidade?
Essa pergunta atravessa praticamente todas as grandes
versões da história, embora cada época responda de maneira diferente. E talvez
explique por que continuamos retornando a Frankenstein mais de duzentos anos
depois de Mary Shelley.
O personagem consegue absorver nossas inquietações. Em
diferentes momentos, sua história permitiu falar sobre ciência, morte,
identidade, preconceito, solidão, tecnologia, responsabilidade e os limites da
ambição humana.
As técnicas do cinema mudaram. Os atores mudaram. O rosto do
monstro mudou. Mas a pergunta fundamental continua assustadoramente atual: quando
criamos algo que ganha vida própria, onde termina o poder de criar e começa a
responsabilidade pelo que criamos?