FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 8


Entre o Enigma e a Cura

Bloco 3 - A Palavra e a Escuta: Quando o sujeito fala




O terceiro movimento da travessia

Entre o Enigma e a Cura foi construída como uma jornada em cinco movimentos. Primeiro, o sujeito se perde, quando identidade e realidade deixam de oferecer referências seguras. Depois, começa a perceber que determinados comportamentos, escolhas e conflitos retornam, transformando o que parecia acidente em repetição. O terceiro bloco ocupa uma posição decisiva nesse percurso porque introduz algo que ainda não havia encontrado espaço: a possibilidade de colocar a experiência em palavras.

É aqui que a travessia muda de natureza. O sofrimento não desaparece e a repetição não é simplesmente interrompida, mas aquilo que até então era vivido começa a poder ser narrado. Falar, nesse contexto, significa mais do que contar o que aconteceu. Ao procurar palavras para uma experiência, o sujeito precisa selecioná-la, organizá-la, estabelecer relações entre acontecimentos e atribuir sentidos que talvez não existissem antes da própria narrativa. A palavra não apenas descreve uma experiência anterior. De alguma maneira, também participa de sua elaboração.

É por isso que este bloco se chama A Palavra e a Escuta. Não basta que alguém fale. É necessário que exista um espaço em que essa fala possa ser recebida. Às vezes esse espaço é explicitamente terapêutico; em outras situações, surge em relações que acabam assumindo uma função semelhante. O cinema encontra aí um terreno especialmente fértil, porque pode observar simultaneamente quem procura dizer, quem escuta e tudo aquilo que acontece entre os dois: hesitações, silêncios, desvios, resistências e aquilo que permanece impossível de formular.

A ordem dos cinco filmes acompanha justamente as possibilidades e os limites desse processo. A programação começa em um território relativamente reconhecível, no qual falar e ser ouvido produzem deslocamentos perceptíveis, e avança até uma obra em que a palavra já não consegue cumprir essa função. A progressão conduz, portanto, da confiança na fala à constatação de que nem toda experiência pode ser transformada imediatamente em linguagem.

Em Gênio Indomável, essa possibilidade aparece de maneira direta. Will domina as palavras quando elas funcionam como instrumento de inteligência, provocação ou defesa, mas encontra enorme dificuldade quando precisa utilizá-las para aproximar-se daquilo que o torna vulnerável. A relação terapêutica torna-se importante justamente porque a escuta não aceita permanecer na superfície do discurso. Aos poucos, aquilo que era utilizado para manter o outro à distância começa a permitir uma aproximação com a própria experiência.

O Príncipe das Marés aprofunda essa relação entre narrativa e elaboração. O passado familiar não retorna simplesmente como lembrança, mas como algo que precisa ser reconstruído por meio da fala. Contar torna-se uma maneira de estabelecer conexões entre acontecimentos que permaneceram durante muito tempo separados ou silenciados. O filme evidencia uma ideia fundamental deste bloco: narrar o vivido pode modificar a maneira como ele continua existindo no presente.

Com Um Método Perigoso, a própria psicanálise entra no centro da narrativa. Palavra, interpretação, desejo e poder passam a ocupar o mesmo espaço, e a escuta deixa de parecer um procedimento neutro. O filme introduz uma questão mais complexa: quem interpreta também participa da relação e não permanece inteiramente fora dela. Aquilo que é dito pode revelar, ocultar ou adquirir sentidos diferentes conforme circula entre quem fala e quem escuta.

Em Através de um Espelho, de Ingmar Bergman, a linguagem encontra um território ainda mais instável. A tentativa de comunicar a experiência esbarra na dificuldade de torná-la compartilhável, e aquilo que é vivido interiormente já não encontra correspondência suficiente nas palavras disponíveis. O filme aproxima a fala de seu limite, mostrando que compreender intelectualmente o sofrimento de alguém não significa necessariamente conseguir alcançá-lo.


A progressão chega a Shame, de Steve McQueen, por um caminho deliberadamente paradoxal: o último filme de um bloco dedicado à palavra é justamente aquele em que o sujeito não consegue falar. Brandon vive preso a uma compulsão que organiza sua rotina, seus desejos e sua relação com os outros, mas não dispõe de uma narrativa capaz de dar forma ao que lhe acontece. O corpo e o comportamento ocupam o lugar que a linguagem ainda não conseguiu alcançar. Shame não mostra uma elaboração bem-sucedida; mostra a ausência dela e, justamente por isso, torna visível sua necessidade.

Vistos em sequência, os cinco filmes evitam uma ideia confortável, mas simplificadora: a de que falar, por si só, produz cura. A palavra pode abrir uma fissura na repetição porque permite que aquilo que era apenas vivido passe também a ser pensado, narrado e escutado. Mas ela não é transparente nem suficiente. Podemos falar para revelar e também para esconder, podemos compreender sem conseguir mudar e podemos chegar a regiões da experiência para as quais ainda não encontramos palavras.

É justamente dessa insuficiência que nasce o próximo movimento da mostra. Se falar pode produzir deslocamentos, é na relação que esses deslocamentos encontram sustentação. Depois de perder-se, repetir e tentar colocar sua experiência em palavras, o sujeito descobre que a elaboração não acontece apenas dentro de si. No quarto bloco, Elaboração e Vínculo, o percurso se desloca para aquilo que pode acontecer quando o outro deixa de ser apenas quem escuta e passa a participar da própria possibilidade de transformação.

A mostra completa está na BIBLIOTECA.