O terceiro movimento da travessia
Entre o Enigma e a Cura foi construída como uma
jornada em cinco movimentos. Primeiro, o sujeito se perde, quando identidade e
realidade deixam de oferecer referências seguras. Depois, começa a perceber que
determinados comportamentos, escolhas e conflitos retornam, transformando o que
parecia acidente em repetição. O terceiro bloco ocupa uma posição decisiva
nesse percurso porque introduz algo que ainda não havia encontrado espaço: a
possibilidade de colocar a experiência em palavras.
É aqui que a travessia muda de natureza. O sofrimento não
desaparece e a repetição não é simplesmente interrompida, mas aquilo que até
então era vivido começa a poder ser narrado. Falar, nesse contexto, significa
mais do que contar o que aconteceu. Ao procurar palavras para uma experiência,
o sujeito precisa selecioná-la, organizá-la, estabelecer relações entre
acontecimentos e atribuir sentidos que talvez não existissem antes da própria
narrativa. A palavra não apenas descreve uma experiência anterior. De alguma
maneira, também participa de sua elaboração.
É por isso que este bloco se chama A Palavra e a Escuta.
Não basta que alguém fale. É necessário que exista um espaço em que essa fala
possa ser recebida. Às vezes esse espaço é explicitamente terapêutico; em
outras situações, surge em relações que acabam assumindo uma função semelhante.
O cinema encontra aí um terreno especialmente fértil, porque pode observar
simultaneamente quem procura dizer, quem escuta e tudo aquilo que acontece
entre os dois: hesitações, silêncios, desvios, resistências e aquilo que
permanece impossível de formular.
A ordem dos cinco filmes acompanha justamente as
possibilidades e os limites desse processo. A programação começa em um
território relativamente reconhecível, no qual falar e ser ouvido produzem
deslocamentos perceptíveis, e avança até uma obra em que a palavra já não
consegue cumprir essa função. A progressão conduz, portanto, da confiança na
fala à constatação de que nem toda experiência pode ser transformada
imediatamente em linguagem.
O Príncipe das Marés aprofunda essa relação entre narrativa e elaboração. O passado familiar não retorna simplesmente como lembrança, mas como algo que precisa ser reconstruído por meio da fala. Contar torna-se uma maneira de estabelecer conexões entre acontecimentos que permaneceram durante muito tempo separados ou silenciados. O filme evidencia uma ideia fundamental deste bloco: narrar o vivido pode modificar a maneira como ele continua existindo no presente.
A progressão chega a Shame, de Steve McQueen, por um caminho deliberadamente paradoxal: o último filme de um bloco dedicado à palavra é justamente aquele em que o sujeito não consegue falar. Brandon vive preso a uma compulsão que organiza sua rotina, seus desejos e sua relação com os outros, mas não dispõe de uma narrativa capaz de dar forma ao que lhe acontece. O corpo e o comportamento ocupam o lugar que a linguagem ainda não conseguiu alcançar. Shame não mostra uma elaboração bem-sucedida; mostra a ausência dela e, justamente por isso, torna visível sua necessidade.
Vistos em sequência, os cinco filmes evitam uma ideia
confortável, mas simplificadora: a de que falar, por si só, produz cura. A
palavra pode abrir uma fissura na repetição porque permite que aquilo que era
apenas vivido passe também a ser pensado, narrado e escutado. Mas ela não é
transparente nem suficiente. Podemos falar para revelar e também para esconder,
podemos compreender sem conseguir mudar e podemos chegar a regiões da
experiência para as quais ainda não encontramos palavras.
É justamente dessa insuficiência que nasce o próximo
movimento da mostra. Se falar pode produzir deslocamentos, é na relação que
esses deslocamentos encontram sustentação. Depois de perder-se, repetir e
tentar colocar sua experiência em palavras, o sujeito descobre que a elaboração
não acontece apenas dentro de si. No quarto bloco, Elaboração e Vínculo,
o percurso se desloca para aquilo que pode acontecer quando o outro deixa de
ser apenas quem escuta e passa a participar da própria possibilidade de
transformação.
A mostra completa está na BIBLIOTECA.