O cineasta que encontrou o drama nas pequenas mudanças da
vida
Uma família recebe a visita dos avós. Pais conversam com os
filhos sobre casamento. Alguém chega do trabalho, toma saquê, encontra amigos
ou simplesmente atravessa um cômodo. Situações como essas ocupam boa parte dos
filmes de Yasujirō Ozu e ajudam a explicar por que sua obra pode causar
estranhamento em quem a encontra pela primeira vez. Onde estão os grandes
conflitos? Por que a câmera se move tão pouco? Por que acontecimentos
importantes às vezes nem chegam a ser mostrados?
A resposta está na maneira particular como Ozu entendia o
cinema. Em vez de procurar o drama em situações extraordinárias, ele voltou sua
atenção para mudanças quase imperceptíveis que fazem parte da experiência
cotidiana. Filhos crescem e deixam a casa dos pais, casamentos alteram relações
familiares, pessoas envelhecem e antigas rotinas desaparecem. Nada disso
precisa acontecer de maneira espetacular para transformar profundamente uma
vida.
Nascido em Tóquio em 1903, Ozu iniciou a carreira nos estúdios Shochiku durante o período do cinema silencioso. Seus primeiros trabalhos mostram um realizador bastante diferente da imagem contemplativa pela qual ficaria conhecido. Fez comédias, histórias sobre estudantes, dramas sociais e filmes marcados pela influência do cinema americano. Em Meninos de Tóquio (1932), por exemplo, acompanha duas crianças que começam a perceber as hierarquias do mundo adulto ao descobrirem a posição ocupada pelo próprio pai.
Ao longo das décadas seguintes, sua obra passou por um
processo de transformação. Ozu reduziu progressivamente os movimentos de
câmera, concentrou as histórias no cotidiano familiar e desenvolveu uma maneira
cada vez mais particular de organizar o espaço e o tempo. Essa evolução
coincidiu com mudanças profundas no próprio Japão, que atravessou
militarização, guerra, derrota, ocupação americana e uma acelerada reconstrução
econômica e social.
Foi no período posterior à Segunda Guerra Mundial que
surgiram algumas de suas obras mais conhecidas. Pai e Filha (1949), Também Fomos Felizes (1951) e Era uma Vez em Tóquio (1953) observam
famílias que precisam lidar com uma realidade cada vez menos compatível com a
ideia de que seus vínculos podem permanecer inalterados. Pais e filhos
continuam ligados pelo afeto, mas passam a viver em ritmos diferentes.
Em Era uma Vez em Tóquio, essa questão aparece de
maneira especialmente clara. Um casal de idosos viaja para visitar os filhos
adultos e descobre que eles estão ocupados com trabalho, compromissos e suas
próprias famílias. Não existe um vilão responsável pelo afastamento. Os filhos
não são apresentados simplesmente como pessoas insensíveis. O que se impõe é
uma transformação da vida familiar que nenhum personagem controla inteiramente.
Essa ausência de antagonistas tradicionais é uma das chaves
para compreender Ozu. Seus personagens enfrentam menos uma força externa do que
a passagem do tempo. Casamentos, partidas e envelhecimento aparecem
repetidamente porque representam momentos em que uma organização familiar
precisa dar lugar a outra. A tristeza nasce da consciência de que mudanças
necessárias também produzem perdas.
A forma dos filmes acompanha essa visão. Uma das marcas mais
conhecidas de Ozu é a câmera posicionada em altura baixa, frequentemente
associada ao ponto de vista de uma pessoa sentada sobre um tatame. Mais
importante do que buscar uma explicação cultural única para essa escolha é
perceber o que ela produz na tela. A câmera permanece estável e estabelece uma
relação muito particular entre o espectador, os personagens e os espaços que
eles ocupam.
Ozu também desenvolveu uma maneira incomum de filmar
diálogos. Em vez de seguir rigorosamente o sistema de campo e contracampo
consagrado pelo cinema clássico, frequentemente coloca os personagens quase de
frente para a câmera. A continuidade espacial pode parecer estranha para quem
está habituado à gramática convencional, mas as conversas permanecem
perfeitamente compreensíveis. O resultado é uma atenção maior aos rostos, às
pausas e às pequenas alterações de comportamento.
Outro recurso recorrente são os planos de transição que
mostram ruas, corredores, fachadas, chaminés, trens ou cômodos momentaneamente
vazios. Durante muito tempo, essas imagens foram tratadas como uma espécie de
assinatura contemplativa do diretor. Sua função, porém, é mais complexa. Elas
estabelecem relações entre espaços, indicam a passagem do tempo e criam
intervalos entre acontecimentos. Depois de uma cena importante, um ambiente
vazio pode prolongar uma emoção sem que seja necessário explicá-la.
O mesmo princípio ajuda a compreender uma decisão ainda mais
radical: Ozu frequentemente deixa acontecimentos relevantes fora de campo.
Aquilo que outro diretor poderia transformar no ponto culminante de uma
sequência pode simplesmente desaparecer entre dois cortes. Em alguns casos,
interessa menos acompanhar o evento do que observar como os personagens vivem
antes e depois dele.
Essa opção modifica também a experiência do espectador.
Diante de um filme de Ozu, é pouco produtivo esperar que a narrativa indique
continuamente onde está o elemento mais importante. A atenção precisa se
distribuir por detalhes que, em outro tipo de cinema, poderiam parecer
secundários: a posição de uma pessoa dentro de uma sala, um silêncio depois de
determinada frase, um objeto que permanece no enquadramento ou um espaço que
antes estava ocupado e agora aparece vazio.
Quando Ozu morreu, em 1963, no dia em que completava
sessenta anos, havia construído uma das obras mais coerentes do cinema moderno.
Seu reconhecimento internacional, porém, ocorreu mais lentamente do que o de
outros cineastas japoneses. Com a ampliação da circulação de seus filmes fora
do Japão, sua influência tornou-se cada vez mais evidente e sua obra passou a
ocupar um lugar central na discussão sobre as possibilidades do tempo, do
espaço e da narrativa cinematográfica.
Assistir a Ozu hoje continua exigindo uma adaptação do
olhar, sobretudo em uma cultura audiovisual acostumada a acelerar a narrativa e
disputar continuamente a atenção do público. Seus filmes fazem o movimento
contrário. Eles não procuram preencher todos os momentos nem transformar toda
emoção em explicação.
Talvez seja essa a melhor porta de entrada para sua obra. Em
vez de perguntar apenas o que está acontecendo, vale observar o que está
mudando. Quem ocupava determinado espaço e já não está ali? O que uma conversa
aparentemente banal revela sobre a relação entre duas pessoas? Por que um
acontecimento importante não foi mostrado? O que permanece no enquadramento
depois que alguém parte?
Ozu construiu seu cinema a partir dessas pequenas
alterações. Ao acompanhá-las, o espectador percebe que a aparente simplicidade
de seus filmes resulta de uma organização extremamente rigorosa da imagem e do
tempo. E descobre que uma das grandes transformações produzidas por sua obra
acontece fora da tela: depois de algum tempo assistindo a Ozu, começamos a
prestar atenção em coisas que antes talvez nem percebêssemos.
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