FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 11


É do Brasil

A retomada



Quando o cinema brasileiro precisou aprender a recomeçar

No início dos anos 1990, o cinema brasileiro enfrentou uma de suas maiores crises. A extinção da Embrafilme, em 1990, desmontou parte importante da estrutura que sustentava a produção e a circulação dos filmes nacionais. O número de longas produzidos caiu drasticamente e, durante alguns anos, o próprio futuro da atividade pareceu incerto.

Foi desse cenário que nasceu o período conhecido como Retomada do cinema brasileiro.

Mais do que um movimento artístico, a Retomada representou a reconstrução das condições necessárias para que o país voltasse a produzir filmes com alguma regularidade.

PRIMEIRO, ERA PRECISO VOLTAR A FILMAR

A recuperação começou a ganhar força com novos mecanismos de incentivo. A Lei do Audiovisual, aprovada em 1993, permitiu a utilização de incentivos fiscais para financiar produções cinematográficas.

O modelo não reproduzia a antiga Embrafilme. O Estado continuava importante, mas sua participação passava a ocorrer por outros mecanismos de financiamento e captação.

Projetos voltaram a sair do papel. Produtoras se reorganizaram. Profissionais retornaram ao mercado.

Em 1995, Carlota Joaquina, Princesa do Brazil, de Carla Camurati, tornou-se um dos símbolos dessa transformação. Seu sucesso mostrou que um filme brasileiro podia novamente despertar interesse, chegar às salas e encontrar espectadores.

Mas a Retomada estava apenas começando.

UM PAÍS, MUITOS CINEMAS

Não existia uma estética da Retomada. Os filmes que surgiram naquele período eram muito diferentes entre si.

O Quatrilho, de Fábio Barreto, abordou a imigração italiana no sul do Brasil. Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas, falou sobre deslocamento e identidade. Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, reinventou cinematograficamente o sertão. O Que É Isso, Companheiro?, de Bruno Barreto, revisitou a ditadura militar.

Central do Brasil, de Walter Salles, transformou o encontro entre uma mulher solitária e um menino à procura do pai em uma viagem pelo país e por suas profundas diferenças sociais.

A diversidade desses filmes ajuda a entender a Retomada. Não se tratava de defender uma nova linguagem cinematográfica. Tratava-se de recuperar a possibilidade de experimentar muitas delas.

O CINEMA BRASILEIRO VOLTA AO MUNDO

A recuperação também começou a ser percebida internacionalmente. O Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro? foram indicados ao Oscar de filme estrangeiro. Central do Brasil conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, enquanto Fernanda Montenegro recebeu uma histórica indicação ao Oscar de melhor atriz.

Poucos anos depois de enfrentar uma quase paralisação, o cinema brasileiro voltava aos grandes festivais e recuperava visibilidade internacional. Ainda havia, porém, um problema fundamental.

Produzir filmes não significava necessariamente conseguir exibi-los. Distribuição, publicidade e acesso às salas continuavam sendo obstáculos importantes, especialmente diante do domínio das grandes produções estrangeiras no circuito comercial.

A Retomada havia reconstruído a produção. A construção de um mercado mais estável ainda estava longe de terminar.

O QUE VEIO DEPOIS

No começo dos anos 2000, aquela recuperação entraria em uma nova fase. A criação da Ancine, em 2001, ampliou a institucionalização do setor. Em 2002, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, alcançou enorme repercussão dentro e fora do Brasil. O cinema brasileiro já não estava simplesmente tentando voltar. Estava novamente produzindo autores, tendências e filmes capazes de participar da conversa internacional sobre cinema.

É por isso que a Retomada ocupa uma posição decisiva em nossa história cinematográfica. Ela não resolveu todos os problemas do cinema brasileiro. Muitos deles continuam presentes.

Sua conquista foi anterior e mais fundamental. Depois de chegar perto da paralisação, o Brasil voltou a produzir cinema com continuidade. E, a partir daí, pôde voltar a perguntar que cinema queria produzir.

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