FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 12


Ponto de Partida

A Revolução da Identidade - Persona (1966)



Durante décadas, o cinema ensinou o espectador a confiar nos personagens. Eles podiam mentir, esconder sentimentos ou surpreender, mas havia uma expectativa fundamental: em algum momento compreenderíamos quem eram. O cinema moderno começou a colocar essa certeza em dúvida.

Depois da Segunda Guerra Mundial, principalmente na Europa, uma nova geração de cineastas passou a construir personagens mais difíceis de explicar. Michelangelo Antonioni filmava homens e mulheres incapazes de compreender plenamente suas relações. Federico Fellini misturava memória, fantasia e autobiografia. Alain Resnais colocava em dúvida até mesmo a estabilidade das lembranças.

A transformação acompanhava mudanças que já atravessavam a literatura, a filosofia e a psicanálise. A ideia de que cada indivíduo possuía uma identidade coerente e perfeitamente reconhecível parecia cada vez menos segura.

Foi nesse cenário que Ingmar Bergman realizou Persona, em 1966. O diretor sueco já havia transformado conflitos existenciais em uma das marcas de sua obra. Filmes como O Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Luz de Inverno investigavam fé, morte, culpa, solidão e incomunicabilidade. Em Persona, Bergman avançou para uma questão ainda mais radical: até que ponto sabemos realmente quem somos?

A história começa com Elisabet Vogler, uma atriz que interrompe uma apresentação teatral e deixa de falar. A enfermeira Alma é encarregada de acompanhá-la e as duas passam um período isoladas numa casa à beira-mar.

A princípio, suas posições parecem perfeitamente definidas. Elisabet permanece em silêncio. Alma fala. Uma observa. A outra revela lembranças, desejos e experiências íntimas. Gradualmente, porém, essas fronteiras começam a perder a nitidez.

Bergman não procura oferecer uma explicação psicológica capaz de organizar tudo. Faz justamente o contrário. Transforma a identidade das duas mulheres no próprio problema do filme.

E leva essa instabilidade para a linguagem cinematográfica. A película aparece, a imagem parece se romper, a continuidade é interrompida. Os primeiros planos de Liv Ullmann e Bibi Andersson tornam os rostos das atrizes o principal território da investigação. Em uma das imagens mais célebres da obra, seus rostos são combinados até que a separação entre as duas personagens pareça também visualmente ameaçada.

Era uma ruptura importante. O cinema havia utilizado o rosto durante décadas como instrumento para revelar a psicologia dos personagens. Em Persona, quanto mais a câmera se aproxima, menos certezas oferece.

Bergman não inventou sozinho essa transformação. A crise da identidade já aparecia em diferentes manifestações do cinema moderno. Mas poucos filmes a levaram tão longe.

Nas décadas seguintes, personagens fragmentados, duplos, identidades trocadas e fronteiras incertas entre realidade, memória e projeção se tornariam possibilidades recorrentes do cinema moderno e contemporâneo.

É por isso que Persona ocupa um lugar tão particular na história do cinema. Mais do que um filme sobre duas mulheres, tornou-se um marco de uma mudança na própria maneira de construir personagens.

Durante muito tempo, o cinema perguntou: quem é essa pessoa? Depois de Persona, tornou-se possível fazer uma pergunta mais inquietante: existe uma resposta única?

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