Durante décadas, o cinema ensinou o espectador a confiar nos
personagens. Eles podiam mentir, esconder sentimentos ou surpreender, mas havia
uma expectativa fundamental: em algum momento compreenderíamos quem eram. O
cinema moderno começou a colocar essa certeza em dúvida.
Depois da Segunda Guerra Mundial, principalmente na Europa,
uma nova geração de cineastas passou a construir personagens mais difíceis de
explicar. Michelangelo Antonioni filmava homens e mulheres incapazes de
compreender plenamente suas relações. Federico Fellini misturava memória,
fantasia e autobiografia. Alain Resnais colocava em dúvida até mesmo a
estabilidade das lembranças.
A transformação acompanhava mudanças que já atravessavam a
literatura, a filosofia e a psicanálise. A ideia de que cada indivíduo possuía
uma identidade coerente e perfeitamente reconhecível parecia cada vez menos
segura.
A história começa com Elisabet Vogler, uma atriz que
interrompe uma apresentação teatral e deixa de falar. A enfermeira Alma é
encarregada de acompanhá-la e as duas passam um período isoladas numa casa à
beira-mar.
A princípio, suas posições parecem perfeitamente definidas.
Elisabet permanece em silêncio. Alma fala. Uma observa. A outra revela
lembranças, desejos e experiências íntimas. Gradualmente, porém, essas
fronteiras começam a perder a nitidez.
Bergman não procura oferecer uma explicação psicológica
capaz de organizar tudo. Faz justamente o contrário. Transforma a identidade
das duas mulheres no próprio problema do filme.
E leva essa instabilidade para a linguagem cinematográfica. A
película aparece, a imagem parece se romper, a continuidade é interrompida. Os
primeiros planos de Liv Ullmann e Bibi Andersson tornam os rostos das atrizes o
principal território da investigação. Em uma das imagens mais célebres da obra,
seus rostos são combinados até que a separação entre as duas personagens pareça
também visualmente ameaçada.
Era uma ruptura importante. O cinema havia utilizado o rosto
durante décadas como instrumento para revelar a psicologia dos personagens. Em Persona,
quanto mais a câmera se aproxima, menos certezas oferece.
Bergman não inventou sozinho essa transformação. A crise da
identidade já aparecia em diferentes manifestações do cinema moderno. Mas
poucos filmes a levaram tão longe.
Nas décadas seguintes, personagens fragmentados, duplos,
identidades trocadas e fronteiras incertas entre realidade, memória e projeção
se tornariam possibilidades recorrentes do cinema moderno e contemporâneo.
É por isso que Persona ocupa um lugar tão particular
na história do cinema. Mais do que um filme sobre duas mulheres, tornou-se um
marco de uma mudança na própria maneira de construir personagens.
Durante muito tempo, o cinema perguntou: quem é essa pessoa?
Depois de Persona, tornou-se possível fazer uma pergunta mais
inquietante: existe uma resposta única?
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