Quando um personagem aparece na tela, quanto tempo você leva
para formar uma impressão sobre ele?
Às vezes, poucos segundos.
Antes mesmo que saibamos seu nome, já percebemos alguma
coisa. A roupa, o jeito de entrar em um ambiente, os objetos ao redor, a
maneira de olhar para outra pessoa, aquilo que faz enquanto ninguém parece
prestar atenção. O cinema está continuamente nos oferecendo informações sobre
seus personagens, mas raramente paramos para perceber como esse processo
acontece.
Depois de utilizar Casablanca para compreender os
fundamentos da narrativa clássica, o novo Laboratório dá um passo adiante e
concentra a atenção em uma pergunta muito específica: como um filme
apresenta e constrói seus personagens sem depender apenas do diálogo?
O objeto de estudo será Janela Indiscreta (1954), de
Alfred Hitchcock.
A escolha não acontece simplesmente porque estamos diante de
um clássico. No Laboratório, os filmes não ocupam seu lugar por prestígio
histórico ou por figurarem entre os melhores de todos os tempos. Cada obra é
escolhida pelo que permite aprender.
E poucos filmes oferecem condições tão claras para observar
a construção de personagens quanto Janela Indiscreta.
Logo nos primeiros minutos, conhecemos Jeff sem que seja
necessário receber uma longa explicação sobre sua vida. Seu corpo imobilizado,
a perna engessada, as câmeras, as fotografias e os objetos espalhados pelo
apartamento começam a formar uma história. Quando Lisa aparece, seu figurino,
sua postura e sua relação com aquele ambiente já produzem outra impressão. Em
seguida, os vizinhos observados através das janelas mostram algo ainda mais
interessante: muitas vezes acreditamos conhecer pessoas cujas vozes quase nem
ouvimos.
É aí que começa o experimento. O Laboratório não oferece uma análise pronta do filme. Seu método é outro. Primeiro, apresenta a competência que será desenvolvida e os elementos que deverão ser observados. Depois, seleciona cinco situações específicas envolvendo Jeff, Lisa, Stella, Miss Lonelyhearts e Lars Thorwald. Cada sequência gera um exercício dirigido.
O participante observa corpo, atuação, figurino, objetos,
espaço, ações e diálogos, procurando separar duas operações que costumam
acontecer quase ao mesmo tempo: aquilo que o filme realmente mostra e aquilo
que concluímos a partir dessas informações.
Essa distinção é uma das experiências centrais do
Laboratório. Dizer que um personagem é inseguro, sofisticado, solitário ou
suspeito é uma interpretação. A leitura começa a se aprofundar quando
conseguimos responder à pergunta seguinte: quais elementos do filme fizeram
com que eu chegasse a essa conclusão?
Ao final dos exercícios, as observações são organizadas em
um Relatório de Aprendizagem. Esse relatório, por sua vez, pode ser discutido
com uma inteligência artificial por meio de um prompt especialmente
desenvolvido pela FILMOTECA. A IA não fornece a resposta correta nem substitui
a leitura do participante. Seu papel é questionar, pedir evidências, apontar
aspectos pouco explorados e ajudar a aprofundar a investigação.
O resultado esperado não é sair sabendo tudo sobre Janela Indiscreta. É sair assistindo de outra maneira ao próximo filme.
O Laboratório 2 - Como um filme apresenta seus personagens está disponível na Biblioteca FILMOTECA.
Leia o estudo completo, realize os exercícios e descubra
quanto um personagem pode revelar antes mesmo de começar a falar.
Veja os demais Laboratórios de Leitura do Cinema