Repertório de Autores

Yasujirō Ozu


O cinema das pequenas transformações

Poucos cineastas construíram uma linguagem tão imediatamente reconhecível quanto Yasujirō Ozu. Basta assistir a alguns de seus filmes para perceber que estamos diante de um universo particular. A câmera permanece baixa e quase imóvel. Os personagens conversam sem a agitação habitual do cinema narrativo. Grandes acontecimentos muitas vezes ocorrem fora de campo. Entre uma cena e outra surgem corredores vazios, fachadas, postes, trens, roupas secando ao vento. E, enquanto aparentemente pouca coisa acontece, famílias se transformam, filhos partem, pais envelhecem e relações que pareciam permanentes começam silenciosamente a desaparecer.

Durante décadas, Ozu foi descrito como um cineasta essencialmente japonês, profundamente ligado à tradição de seu país. Há alguma verdade nessa leitura, mas ela pode limitar aquilo que torna sua obra extraordinária. Seus filmes falam de famílias japonesas inseridas em contextos históricos muito específicos, porém investigam experiências que ultrapassam fronteiras: a passagem do tempo, a distância entre pais e filhos, a dificuldade de expressar sentimentos, o conflito entre permanência e mudança e a percepção de que quase tudo aquilo que consideramos estável um dia deixará de existir.

Conhecer Ozu, portanto, não significa apenas conhecer um dos grandes mestres do cinema japonês. Significa descobrir como o cinema pode encontrar intensidade dramática justamente onde parece haver menos acontecimentos.

QUEM FOI YASUJIRŌ OZU?

Nascido em Tóquio em 1903, Ozu entrou para os estúdios Shochiku na década de 1920 e desenvolveu praticamente toda a carreira dentro desse sistema. Seus primeiros trabalhos pertencem ao período silencioso e revelam um cineasta muito mais diverso do que a imagem posterior do autor contemplativo poderia sugerir. Realizou comédias, filmes sobre estudantes, histórias urbanas e dramas familiares, absorvendo inclusive influências do cinema americano.

Essa trajetória é importante porque mostra que seu estilo não surgiu pronto.

Ozu foi progressivamente eliminando elementos que considerava desnecessários até construir uma forma cinematográfica de extraordinária concentração. Movimentos de câmera tornaram-se raros. A montagem abandonou muitas convenções clássicas. Os conflitos passaram a ser tratados com crescente contenção. O cotidiano ganhou importância.

Ao mesmo tempo, o Japão atravessava transformações profundas. Modernização, guerra, derrota, ocupação americana, crescimento econômico e mudanças nas estruturas familiares alteraram radicalmente a sociedade que Ozu observava.

Sua carreira terminou em 1962 com A Rotina Tem Seu Encanto. Ozu morreu no ano seguinte, exatamente no dia em que completava sessenta anos.

A OBRA: UM CINEMA EM TRANSFORMAÇÃO

A filmografia de Ozu pode ser compreendida como um longo processo de depuração.

Nos filmes silenciosos, encontramos humor, juventude, dificuldades econômicas e observação da vida urbana. Meninos de Tóquio (1932) Otona no miru ehon - Umarete wa mita keredo - 90 min, por exemplo, acompanha duas crianças que começam a perceber as hierarquias sociais às quais seus pais estão submetidos. O universo familiar já está presente, mas ainda associado a uma comicidade e a uma energia que posteriormente seriam transformadas.

Durante os anos 1930, filmes como Mulher de Tóquio (1933) e Filho Único (1936) revelam uma tonalidade progressivamente mais melancólica. Ozu passa a observar com maior intensidade frustrações, expectativas familiares e dificuldades econômicas.

Depois da Segunda Guerra Mundial surge o período pelo qual se tornaria internacionalmente conhecido.

Pai e Filha (1949), Também Fomos Felizes (1951) e Era uma Vez em Tóquio (1953) formam um núcleo fundamental dessa maturidade. Casamentos, separações, envelhecimento e relações entre gerações tornam-se meios para observar uma sociedade que muda rapidamente.

Nos últimos anos, com obras como Flor do Equinócio (1958), Bom Dia (1959), Fim de Verão (1961) e A Rotina Tem Seu Encanto (1962), Ozu retoma muitas dessas questões, agora também utilizando a cor. A superfície pode parecer mais leve, mas permanece a mesma consciência da passagem do tempo.

Quanto mais sua carreira avança, menos Ozu parece interessado em inventar novas histórias e mais interessado em observar novamente as mesmas experiências humanas.

A EVOLUÇÃO DA TEMÁTICA

Se existe uma instituição no centro do cinema de Ozu, ela é a família.

Mas seus filmes não tratam simplesmente da importância dos vínculos familiares. Eles observam algo mais complexo: a impossibilidade de preservar esses vínculos exatamente como são.

Filhos crescem. Filhas se casam. Pais envelhecem. Casais formam novas casas. Gerações desenvolvem valores diferentes. A vida profissional ocupa espaços antes reservados à convivência familiar.

O conflito, portanto, raramente surge de um antagonista. Ele nasce do próprio movimento da vida.

Em Pai e Filha, a proximidade entre um pai viúvo e sua filha não pode permanecer indefinidamente. Em Era uma Vez em Tóquio, pais idosos descobrem que os filhos adultos já possuem suas próprias rotinas. Em A Rotina Tem Seu Encanto, novamente encontramos um pai diante da necessidade de aceitar a partida da filha.

Ozu retorna a situações semelhantes porque seu interesse não está na surpresa narrativa. Está nas pequenas variações produzidas pelo tempo.

Por isso, casamento e envelhecimento aparecem tantas vezes em sua obra. Ambos representam transições. Algo começa enquanto outra coisa termina.

Existe melancolia nessa percepção, mas não necessariamente pessimismo. O cinema de Ozu parece reconhecer que mudança e perda são inseparáveis da própria continuidade da vida.

A EVOLUÇÃO DA LINGUAGEM

É na forma que essa visão de mundo se transforma plenamente em cinema.

A câmera baixa

Uma das características mais conhecidas de Ozu é a posição baixa da câmera, frequentemente próxima à altura de uma pessoa sentada sobre um tatame. Mas reduzir essa escolha a uma simples reprodução do ponto de vista tradicional japonês seria insuficiente.

Ao longo da carreira, essa altura torna-se parte de um sistema visual. O espectador não domina a cena de cima nem é conduzido por movimentos constantes. Ele ocupa uma posição estável diante daquele espaço.

O mundo parece existir antes de chegarmos e continuar existindo depois que partimos.

A câmera que quase não se move

O cinema clássico costuma movimentar a câmera para acompanhar personagens ou enfatizar acontecimentos. Ozu progressivamente reduz esses movimentos.

Quando alguém entra ou sai do quadro, muitas vezes a câmera permanece. Essa estabilidade altera nossa relação com a cena. Em vez de perguntar constantemente “o que acontecerá agora?”, começamos a observar “o que existe aqui?”. Gestos, distâncias, silêncios e pequenas mudanças tornam-se mais perceptíveis.

Conversas sem a gramática habitual

Nos diálogos, Ozu frequentemente rompe com uma das regras fundamentais da montagem clássica: o sistema de campo e contracampo organizado pelo eixo de 180 graus.

Os personagens podem aparecer olhando quase diretamente para a câmera. A posição espacial parece mudar entre os planos. Curiosamente, o diálogo não se torna incompreensível. O efeito é outro: deixamos de sentir que estamos observando uma conversa de fora e passamos a receber cada personagem frontalmente. O rosto ganha uma presença particular.

Os espaços vazios

Entre cenas, Ozu frequentemente apresenta imagens aparentemente desligadas da ação: uma rua, uma chaminé, um corredor, uma estação ferroviária, um varal, uma fachada.

Esses planos já foram chamados de “pillow shots”, mas sua função não pode ser reduzida a simples intervalo decorativo. Eles organizam ritmo, espaço e tempo.

Depois de uma cena emocionalmente intensa, Ozu pode mostrar um ambiente vazio em vez de explicar o que o personagem sente. O espectador recebe tempo para permanecer diante da experiência. O silêncio do espaço continua aquilo que o diálogo não consegue dizer.

O acontecimento fora de campo

Outra escolha decisiva está naquilo que Ozu decide não mostrar. Eventos que, em outros filmes, constituiriam grandes cenas dramáticas podem acontecer fora da tela. Casamentos, viagens ou momentos decisivos são às vezes omitidos. Ozu frequentemente prefere mostrar o antes e o depois.

Essa escolha desloca nossa atenção do acontecimento para suas consequências humanas. O importante deixa de ser apenas aquilo que ocorreu. Passa a ser aquilo que mudou.

O LEGADO

Durante muito tempo, Ozu permaneceu menos conhecido no Ocidente do que outros grandes cineastas japoneses, especialmente Akira Kurosawa. Quando sua obra começou a circular internacionalmente com maior intensidade, tornou-se evidente que seu aparente minimalismo escondia uma das construções formais mais rigorosas da história do cinema.

Sua influência pode ser percebida em cineastas de diferentes países e gerações, mas seu legado não depende apenas daqueles que adotaram câmeras fixas, ritmos contemplativos ou narrativas familiares. O aprendizado mais profundo oferecido por Ozu é outro.

Ele demonstra que a força do cinema não depende da quantidade de acontecimentos, do movimento da câmera ou da intensidade explícita das emoções. Um corredor vazio pode carregar memória, uma conversa cotidiana pode revelar uma ruptura, uma ausência pode ser mais expressiva do que uma cena dramática, um corte pode fazer o espectador perceber que o tempo passou.

Ozu transforma aquilo que normalmente consideramos intervalo em matéria cinematográfica.

E talvez por isso seus filmes continuem tão atuais. Mudam as cidades, os costumes, as famílias e as tecnologias. Permanece, porém, a experiência de perceber que as pessoas que amamos estão mudando, que nós também estamos mudando e que nem sempre reconhecemos essas transformações enquanto elas acontecem.

COMO ASSISTIR A OZU

Antes de dar o play

Não espere uma narrativa organizada em torno de grandes conflitos. O cinema de Ozu exige uma mudança de atenção. Em vez de procurar apenas acontecimentos, observe relações. Em vez de esperar explicações, perceba comportamentos.

Aceite também as repetições. Personagens podem realizar ações semelhantes, frequentar espaços parecidos ou conversar sobre assuntos aparentemente banais.

É justamente nessas pequenas diferenças que o filme começa a revelar seu sentido.

Durante o filme

Observe onde a câmera está colocada.

Perceba quantas vezes ela permanece imóvel enquanto os personagens entram e saem do quadro.

Repare na maneira como os diálogos são montados e na posição dos rostos.

Preste atenção aos espaços vazios entre as cenas. Pergunte por que aquela imagem aparece naquele momento.

Observe também aquilo que não é mostrado. Quando um acontecimento importante ocorre fora de campo, procure perceber o que Ozu decidiu colocar em seu lugar.

Finalmente, acompanhe as mudanças dentro da família. Quem parte? Quem permanece? Quem parece compreender que alguma coisa terminou?

Depois dos créditos

Em vez de perguntar apenas o que aconteceu, experimente formular outra pergunta:

O que mudou?

Talvez a transformação seja pequena. Uma pessoa saiu de casa. Um pai ficou sozinho. Uma rotina terminou. Uma geração começou a ocupar o lugar de outra.

Depois pense na forma. O filme teria produzido o mesmo efeito se a câmera se movimentasse mais? Se as cenas emocionais fossem acompanhadas por música intensa? Se todos os acontecimentos importantes fossem mostrados?

Ao responder a essas perguntas, começamos a perceber aquilo que torna Ozu um autor. Seus filmes não apenas contam histórias sobre a passagem do tempo. Eles nos fazem senti-la.

E quando começamos a perceber isso, também aprendemos algo que ultrapassa sua filmografia: aprendemos que ler o cinema significa observar não apenas aquilo que um diretor mostra, mas também onde coloca a câmera, quanto tempo permanece diante de uma imagem, quando decide cortar e, sobretudo, aquilo que escolhe deixar fora dela.