O filme que transformou a vida comum em uma experiência
universal
Não há grandes acontecimentos em Era uma Vez em Tóquio.
Ninguém precisa salvar o mundo, solucionar um crime ou enfrentar uma aventura
extraordinária. Um casal de idosos deixa a pequena cidade onde vive para
visitar os filhos em Tóquio. É uma viagem familiar aparentemente banal. A
partir dela, Yasujirô Ozu realizou um dos filmes mais admirados da história do
cinema.
Lançado em 1953, Era uma Vez em Tóquio nasceu em um Japão que atravessava profundas transformações. O país ainda carregava as consequências da guerra, enquanto as grandes cidades se modernizavam rapidamente. Novos ritmos de trabalho, novas ambições e novas formas de organização familiar começavam a modificar relações construídas ao longo de gerações.
Ozu percebeu essa mudança sem transformá-la em discurso. Os
pais chegam a Tóquio esperando passar algum tempo com os filhos adultos.
Encontram pessoas ocupadas, pressionadas pelo cotidiano e envolvidas com suas
próprias famílias. Não há vilões nessa história. Há algo mais difícil de
enfrentar: a distância que pode surgir entre pessoas que continuam se amando.
É justamente essa ausência de culpados que impede o filme de
envelhecer como simples retrato de uma época. O conflito entre pais e filhos
poderia pertencer ao Japão dos anos 1950, mas também poderia acontecer hoje.
Mudam as cidades, os empregos e as tecnologias. Permanece a dificuldade de
encontrar tempo para aqueles que imaginamos que estarão sempre disponíveis.
O drama sem espetáculo
Ozu constrói essa percepção por meio de um cinema
deliberadamente contido. Sua câmera quase não procura chamar atenção para si.
Posicionada frequentemente em um ponto baixo, observa quartos, corredores, ruas
e conversas com uma serenidade incomum. Os cortes não procuram acelerar os
acontecimentos. Os silêncios não são espaços vazios esperando pela próxima
fala.
Tudo parece simples até percebermos quanto está acontecendo
dentro dessa simplicidade.
Uma conversa educada pode esconder uma frustração. Um gesto
cotidiano pode revelar afeto. Uma ausência pode dizer mais sobre uma família do
que uma discussão inteira. Ozu confia no espectador e raramente determina o que
deve ser sentido.
Essa escolha também explica por que Era uma Vez em Tóquio
pode causar estranhamento em quem se aproxima pela primeira vez de sua obra.
Acostumados a filmes que sinalizam conflitos e conduzem emoções, podemos
inicialmente procurar acontecimentos que Ozu não pretende oferecer. Aos poucos,
porém, o próprio ritmo modifica nossa maneira de observar.
Um clássico que envelhece conosco
Há filmes cuja importância reconhecemos imediatamente.
Outros parecem mudar à medida que nossa própria vida muda. Era uma Vez em
Tóquio pertence ao segundo grupo.
Assistido em diferentes idades, o filme permite que nossa
identificação se desloque entre filhos, pais, casais e gerações. Experiências
que pareciam distantes podem adquirir outro significado anos depois. Poucos
filmes tornam tão evidente que o espectador também leva sua biografia para uma
sessão de cinema.
Sete décadas depois de seu lançamento, Ozu continua falando
sobre uma experiência que nenhuma modernização conseguiu eliminar: perceber que
o tempo passa, que as famílias se transformam e que frequentemente
compreendemos o valor de certos momentos quando eles já ficaram para trás.
Talvez seja por isso que um filme tão silencioso continue
dizendo tanto.
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Esta reportagem é uma porta de entrada. No Crítica Livre de Cinema, você encontra a análise aprofundada de Era uma Vez em Tóquio,
com uma leitura mais detalhada de sua narrativa, linguagem e construção
cinematográfica.
E nesta mesma edição da FILMOTECA – Revista de Cinema, a seção Repertório de Autores apresenta Yasujirô Ozu e as características que fizeram de sua obra uma das mais singulares da história do cinema.
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