FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 20


Cadernos de Debate

Filme: A Criada (2016), Dir: Park Chan-wook

Data: 09 de agosto de 2026

Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo


O debate sobre A Criada revelou um grupo bastante envolvido com o filme e, sobretudo, com a maneira pela qual Park Chan-wook transforma uma história inicialmente apresentada como um golpe relativamente simples em uma narrativa de múltiplas camadas. Suspense, desconfiança e expectativa foram algumas das sensações mencionadas. A percepção predominante foi a de que nunca sabemos exatamente em quem confiar e de que cada nova revelação nos obriga a reconsiderar aquilo que acreditávamos compreender.

UM JOGO EM QUE TODOS MANIPULAM

Uma das primeiras ideias a ganhar força foi a de que praticamente todos os personagens manipulam ou tentam manipular alguém. As alianças se modificam, parceiros tornam-se adversários e personagens aparentemente controlados revelam possuir estratégias próprias.

Uma intervenção sintetizou especialmente bem essa dinâmica: o filme começa com os homens tentando manipular as mulheres e termina com as mulheres manipulando o próprio sistema que as aprisionava.

Nesse jogo, Lady Hideko foi apontada por vários participantes como a personagem mais fascinante. Sua personalidade surge em camadas. Inicialmente percebida como frágil e submetida aos homens que determinam sua existência, ela gradualmente revela inteligência, capacidade de observação e extraordinária habilidade para compreender o ambiente e utilizar as possibilidades disponíveis para sobreviver.

UM FILME QUE MANIPULA TAMBÉM O ESPECTADOR

As sucessivas reviravoltas estiveram entre os aspectos mais celebrados. Alguns participantes conseguiram prever determinados movimentos, especialmente a primeira grande virada, enquanto outros foram surpreendidos praticamente o tempo inteiro.

A discussão avançou então para uma questão importante: Park Chan-wook estaria enganando o espectador?

A leitura predominante foi mais complexa. O diretor controla deliberadamente as informações oferecidas e entrega as diferentes camadas da história no momento em que elas podem modificar nossa compreensão dos acontecimentos. Quando a perspectiva muda, não recebemos simplesmente novas informações. Somos obrigados a reinterpretar cenas que já havíamos visto.

Assim, a estrutura em partes não funciona apenas como mecanismo para produzir surpresas. Ela transforma o próprio espectador em participante do jogo de manipulação.

PODER, IDENTIDADE E LIBERDADE

Quando o debate relacionou a história das protagonistas ao contexto político e social da Coreia sob ocupação japonesa, a discussão encontrou um de seus eixos mais fortes.

Poder, identidade e liberdade foram reconhecidos como questões fundamentais. Surgiram referências à liberdade amorosa, à ruptura das barreiras sociais, à independência econômica e à libertação dos costumes impostos às mulheres.

Uma leitura particularmente interessante estabeleceu uma relação simbólica entre Japão e Coreia, associando o primeiro à posição do opressor e a segunda à condição do subjugado. Dentro desse universo, a dominação política encontra correspondência nas relações pessoais: homens procuram controlar corpos, dinheiro, sexualidade e destino.

O romance entre Sook-hee e Hideko adquire, portanto, uma dimensão que ultrapassa a relação amorosa. A escolha de uma pela outra representa também a possibilidade de escapar das estruturas que pretendiam determinar quem elas deveriam ser.

O PODER TAMBÉM MUDA DE MÃOS

O debate observou ainda que o filme não apresenta o poder como algo completamente estático.

A sequência das leituras eróticas foi lembrada nesse sentido. Embora Hideko esteja submetida a uma situação de exploração criada por Kouzuki, existe ali uma inversão momentânea: os homens que acreditam possuir aquela mulher tornam-se dependentes de sua voz, de seus gestos, de suas entonações e da expectativa que ela produz.

Hideko é simultaneamente vítima de uma estrutura e alguém capaz de compreender seus mecanismos e operar dentro deles.

Essa ambiguidade ajudou a explicar por que, ao final, as duas protagonistas foram vistas pelo grupo não apenas como vítimas. Elas percorrem três condições ao longo da história: são vítimas, tornam-se sobreviventes e finalmente assumem a posição de estrategistas.

A SEXUALIDADE DIVIDIU O GRUPO

Foi neste ponto que apareceu a divergência mais clara do debate.

Parte dos participantes considerou excessivas algumas cenas de sexo entre Sook-hee e Hideko. Surgiu a crítica de que a duração, os enquadramentos e os detalhes poderiam reproduzir justamente a objetificação feminina que o filme parece questionar. A discussão levantou inclusive a possibilidade de um olhar masculino sobre a relação das duas mulheres.

Outros participantes interpretaram essas mesmas sequências a partir do contexto de repressão e libertação feminina. Nessa perspectiva, a sexualidade representa a conquista do próprio corpo e do desejo por duas mulheres que viveram sob estruturas que pretendiam controlá-los.

A divergência produziu uma questão particularmente interessante: existe diferença entre a intenção de representar liberdade sexual e a maneira como essa liberdade é colocada em imagens? Ou o significado dessas cenas depende fundamentalmente da interpretação de quem assiste?

O debate não chegou a uma resposta única, e justamente por isso esse se tornou um dos pontos mais ricos da discussão.

UM CINEMA DE GRANDE FORÇA VISUAL

A realização de Park Chan-wook recebeu amplo reconhecimento. Foram destacados fotografia, enquadramentos, cenários, movimentos de câmera, montagem e a capacidade de transitar naturalmente entre diferentes sentimentos e gêneros.

O filme passa pelo suspense, romance, erotismo, violência e crítica social sem abandonar sua identidade.

Entre as sequências mais lembradas apareceram as leituras realizadas por Hideko, a tortura do falso conde e, especialmente, a destruição da biblioteca. Esta última foi interpretada como uma demonstração de amor, empatia e compreensão entre as protagonistas: destruir aquele espaço significa atacar materialmente o universo de exploração ao qual Hideko esteve submetida.

Também houve ressalvas quanto à violência. Para alguns participantes, determinadas cenas de tortura mostram mais do que seria necessário e parecem buscar deliberadamente o choque.

UMA VITÓRIA POSSÍVEL

O final foi recebido predominantemente como uma forma de vitória, mas não como uma justiça convencional.

Sook-hee e Hideko não transformam a sociedade em que vivem. Elas conseguem escapar dela. Por isso, uma participante definiu o desfecho como uma combinação de sobrevivência, justiça e vitória.

A liberdade conquistada permanece frágil diante do mundo que as cerca, mas existe uma diferença fundamental: pela primeira vez, elas podem tentar determinar o próprio caminho.

Quando o grupo foi convidado a sintetizar o filme em uma palavra, surgiram respostas reveladoras:

Astúcia.
Sobrevivência.
Busca.
Estratégia.
Cinema.

Palavras diferentes, mas que convergem para uma mesma percepção: A Criada é uma história sobre personagens tentando deixar de ser objetos das decisões alheias para se tornarem autores de suas próprias escolhas.

SÍNTESE FINAL

Ao final do debate, formou-se uma leitura bastante consistente de A Criada como algo maior do que um sofisticado filme de golpes e reviravoltas.

Por trás do suspense e do jogo narrativo, o grupo identificou uma obra sobre poder, exploração, identidade, desejo, machismo e liberdade.

Sua estrutura faz com que essa discussão seja experimentada pelo próprio espectador. Primeiro acreditamos saber quem controla quem. Depois descobrimos que possuíamos apenas parte das informações. Finalmente percebemos que também fomos manipulados pela narrativa.

Talvez por isso a transformação de Sook-hee e Hideko tenha ocupado posição tão central no debate. Elas começam aprisionadas em diferentes estruturas de poder, descobrem uma na outra uma possibilidade de ruptura e terminam não apenas sobrevivendo ao jogo, mas recusando-se a continuar participando dele segundo as regras estabelecidas pelos homens.

O grupo avaliou A Criada com nota média 8,7.

Análise do filme no Crítica Livre de Cinema.

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Esta síntese foi elaborada a partir das reflexões desenvolvidas pelos participantes do Clube de Cinema da Filmoteca durante o debate sobre O Segredo dos Seus Olhos (1991), realizado em 02 de agosto de 2026. As contribuições foram organizadas editorialmente para preservar os principais temas, argumentos e diferentes perspectivas apresentados na discussão.