É do Brasil

A evolução do cinema brasileiro neste século



O cinema brasileiro mudou. Você percebeu?

Durante muito tempo, falar sobre cinema brasileiro era quase sempre voltar aos mesmos capítulos da história. O Cinema Novo, a crise do início dos anos 1990, a Retomada e alguns poucos filmes transformados em símbolos nacionais pareciam resumir uma cinematografia inteira. Mas, enquanto esse imaginário permanecia praticamente inalterado, o cinema brasileiro passou por uma transformação silenciosa que poucos espectadores acompanharam em toda a sua dimensão.

Nos últimos vinte e cinco anos, o Brasil deixou de ser apenas um país que produz bons filmes esporadicamente. Tornou-se uma cinematografia diversa, autoral e cada vez mais presente no cenário internacional. O reconhecimento obtido recentemente por obras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto não surgiu por acaso. Ele representa o ponto de chegada de um processo iniciado muito antes, quando a Retomada reconstruía uma indústria que parecia condenada ao desaparecimento.

A mudança mais profunda talvez tenha ocorrido longe dos grandes centros tradicionais. Durante décadas, Rio de Janeiro e São Paulo concentraram quase toda a produção nacional. Hoje, Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal e Rio Grande do Sul revelam cineastas, produtoras e histórias capazes de dialogar em igualdade com qualquer cinematografia do mundo. Essa descentralização alterou não apenas o mapa da produção, mas também o próprio olhar do cinema brasileiro sobre o país.

Ao mesmo tempo, uma nova geração de realizadores passou a construir identidades muito particulares. Kleber Mendonça Filho, Karim Aïnouz, Anna Muylaert, Gabriel Mascaro, Marcelo Gomes, Petra Costa e tantos outros demonstram que já não existe uma única maneira de fazer cinema no Brasil. Diferentemente de períodos anteriores, marcados por movimentos estéticos relativamente homogêneos, o cinema brasileiro contemporâneo caracteriza-se justamente pela convivência de múltiplas linguagens e perspectivas.

Essa pluralidade também se manifesta nas histórias contadas. Povos indígenas, comunidades tradicionais, periferias urbanas, questões raciais, identidade de gênero, memória, imigração e meio ambiente passaram a ocupar espaço crescente nas telas. O resultado é uma produção muito mais representativa da complexidade da sociedade brasileira.

As transformações não ficaram restritas aos temas. O cinema nacional expandiu suas possibilidades formais, transitando com naturalidade entre suspense, terror, ficção científica, animação, documentário e obras que desafiam as classificações tradicionais. Filmes como O Som ao Redor, Bacurau, As Boas Maneiras, Divino Amor e O Menino e o Mundo mostram que a experimentação deixou de ser exceção para tornar-se parte da identidade da produção brasileira.

Enquanto isso, o mundo passou a olhar para o Brasil com maior atenção. Cannes, Berlim, Veneza, Locarno e San Sebastián deixaram de receber filmes brasileiros apenas ocasionalmente. A presença tornou-se constante, refletindo uma maturidade artística construída ao longo de mais de duas décadas.

Isso não significa que os problemas desapareceram. O financiamento continua instável, a distribuição permanece concentrada, o circuito exibidor ainda oferece pouco espaço para a produção nacional e formar novos públicos segue sendo um dos maiores desafios do setor. Mas esses obstáculos convivem com conquistas que dificilmente podem ser ignoradas.

Talvez a principal delas seja esta: o cinema brasileiro deixou de buscar uma identidade única para assumir sua maior força, a diversidade. Hoje, mais do que representar um país, ele reúne muitos Brasis, diferentes entre si, mas igualmente capazes de produzir um cinema criativo, relevante e reconhecido internacionalmente.

Esta reportagem apresenta apenas um panorama dessa transformação. Na Biblioteca da Filmoteca, o ensaio "A Evolução do Cinema Brasileiro neste Século" reconstrói esse percurso de forma detalhada, analisando as principais mudanças que marcaram a cinematografia brasileira desde a Retomada até os dias atuais. O texto explora a descentralização da produção, o surgimento de novos autores, a renovação das linguagens, o reconhecimento internacional e os desafios que ainda moldam o futuro do cinema nacional, além de reunir uma curadoria comentada de filmes fundamentais para compreender essa trajetória.