Existem filmes que conquistam o público. Outros revolucionam
a linguagem cinematográfica. E existem aqueles que conseguem fazer as duas
coisas ao mesmo tempo, alterando o rumo da própria história do cinema. Bonnie
& Clyde (1967) pertence a essa rara categoria.
Na metade da década de 1960, Hollywood vivia uma crise. O
antigo Sistema de Estúdios, responsável por décadas de estabilidade e sucessos
comerciais, já não conseguia responder às mudanças do mundo. A televisão
afastava espectadores das salas de cinema, as superproduções acumulavam
fracassos financeiros e o público jovem demonstrava cada vez menos interesse
pelas narrativas tradicionais. Enquanto a sociedade americana era transformada
pela Guerra do Vietnã, pelos movimentos por direitos civis e pela contracultura,
Hollywood continuava produzindo filmes que pareciam pertencer a outra época.
Ao mesmo tempo, uma nova forma de fazer cinema chamava a
atenção dos jovens espectadores. A Nouvelle Vague francesa e o cinema de
autores como Federico Fellini, Michelangelo Antonioni e Akira Kurosawa
demonstravam que era possível contar histórias de maneira mais livre, mais
ambígua e mais próxima das inquietações contemporâneas.
Foi nesse contexto que surgiu Bonnie & Clyde.
Produzido por Warren Beatty e dirigido por Arthur Penn, o
filme parecia desafiar praticamente todas as convenções do cinema americano. Em
vez de heróis exemplares, apresentava dois criminosos como protagonistas. Em
vez de uma narrativa moralizante, explorava personagens contraditórios e
complexos. Humor, romance, violência e tragédia conviviam na mesma história,
criando um tom que o público raramente havia encontrado nas produções de
Hollywood.
A maior ruptura, porém, estava na linguagem. Arthur Penn
combinou uma montagem dinâmica, influências do cinema europeu e uma
representação da violência muito mais intensa do que aquela permitida pelos
padrões da época. A sequência final, na qual Bonnie Parker e Clyde Barrow são
mortos em uma emboscada, tornou-se um dos momentos mais marcantes da história
do cinema. Não apenas pelo impacto visual, mas porque simbolizava o fim
definitivo das convenções da velha Hollywood.
A recepção inicial dividiu a crítica. Alguns consideraram o
filme excessivamente violento e irresponsável. Outros perceberam imediatamente
que estavam diante de uma obra decisiva. O público, especialmente os jovens,
respondeu de forma entusiasmada. O sucesso comercial provou aos estúdios que
existia espaço para um cinema mais ousado, autoral e conectado às
transformações culturais daquele momento.
Nascia ali a chamada Nova Hollywood.
É claro que nenhum movimento histórico começa por causa de
um único filme. A Nova Hollywood foi resultado de mudanças econômicas, sociais
e culturais que vinham se acumulando ao longo dos anos 1960. Mas alguns filmes
conseguem condensar essas transformações em uma única obra. Bonnie &
Clyde desempenhou exatamente esse papel. Demonstrou que era possível romper
com antigas fórmulas sem perder o público e abriu caminho para que uma nova
geração de cineastas encontrasse espaço dentro da indústria.
Nos anos seguintes, diretores como Francis Ford Coppola,
Martin Scorsese, William Friedkin, Brian De Palma, Robert Altman, Hal Ashby,
George Lucas e Steven Spielberg redefiniriam o cinema americano, produzindo
algumas das obras mais importantes da década de 1970.
Por isso, a importância de Bonnie & Clyde ultrapassa
seus méritos como filme. Ele representa um momento de passagem. O instante em
que Hollywood deixou de olhar para o passado e começou a construir um novo
futuro. Mais do que um clássico, tornou-se o ponto de partida de uma das
revoluções mais influentes da história do cinema.