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Fora do Radar

Filmes que merecem ser redescobertos


O cinema está repleto de grandes obras que, por diferentes razões, ficaram à margem da memória do público. A Filmoteca recupera esses títulos, não porque sejam raridades, mas porque continuam oferecendo experiências cinematográficas que merecem ser vistas, discutidas e preservadas.



Comédia, Romance


CLC Score: 7,2



Shanghai Blues (1984)

Entre os muitos filmes que marcaram a extraordinária fase criativa do cinema de Hong Kong nos anos 1980, alguns alcançaram reconhecimento internacional e se tornaram clássicos imediatamente. Outros, apesar de sua qualidade, permaneceram durante décadas conhecidos apenas pelos admiradores mais dedicados daquela cinematografia. Shanghai Blues pertence a esse segundo grupo.

Dirigido por Tsui Hark, um dos cineastas mais inventivos do cinema asiático, o filme combina comédia romântica, musical, melodrama e humor físico em uma narrativa leve, elegante e surpreendentemente moderna. O resultado é uma obra que sintetiza como poucas o espírito inventivo do cinema de Hong Kong em seu período de maior criatividade.

A história começa durante os últimos dias da Segunda Guerra Sino-Japonesa, quando um soldado e uma jovem se conhecem rapidamente em meio ao caos de um apagão em Xangai. Eles prometem reencontrar-se quando a guerra terminar. O destino, porém, insiste em separá-los, dando início a uma sucessão de encontros perdidos, coincidências e desencontros que conduzem toda a narrativa.

Embora a premissa pareça familiar, Tsui Hark transforma esse ponto de partida em um espetáculo de ritmo, movimento e imaginação visual. Sua direção combina precisão coreográfica, excelente domínio do espaço e um senso de tempo cômico raramente encontrado mesmo entre grandes diretores de comédia. Cada sequência parece cuidadosamente orquestrada para que atores, câmera e cenário participem da mesma dança narrativa.

Outro grande mérito está na maneira como o filme mistura diferentes registros sem perder unidade. Há momentos de humor físico claramente inspirados na tradição do cinema mudo, passagens de romance delicado, números musicais discretos e cenas que revelam a melancolia de uma cidade tentando reconstruir sua vida depois da guerra. Em mãos menos talentosas, essa variedade poderia resultar em uma obra irregular. Com Tsui Hark, transforma-se em uma demonstração de domínio cinematográfico.

O trio principal formado por Kenny Bee, Sylvia Chang e Sally Yeh sustenta essa delicada combinação entre humor e emoção. A química entre os personagens torna naturais situações que poderiam facilmente parecer artificiais, permitindo que o espectador acompanhe seus desencontros com permanente envolvimento afetivo.

Mais do que uma simples comédia romântica, Shanghai Blues funciona como um retrato de um período de transição. A cidade vive entre as cicatrizes da guerra e a esperança de um novo começo. Esse contexto histórico nunca domina a narrativa, mas está sempre presente, oferecendo profundidade emocional a uma história construída, acima de tudo, para celebrar o acaso, os encontros e as possibilidades da vida.

Durante muitos anos, o filme permaneceu pouco acessível fora da Ásia. Sua recente restauração em 4K e a chegada ao catálogo do MUBI permitem que uma nova geração descubra uma das obras mais encantadoras da filmografia de Tsui Hark.

Na avaliação do Crítica Livre de Cinema, Shanghai Blues talvez não seja seu filme mais conhecido, mas certamente está entre aqueles que melhor revelam sua criatividade, seu domínio da linguagem cinematográfica e sua extraordinária capacidade de transformar uma narrativa aparentemente simples em puro prazer cinematográfico.

CLC Score: 7,2

Disponível no MUBI.