A EVOLUÇÃO DO CINEMA BRASILEIRO NESTE SÉCULO
Introdução: O cinema brasileiro realmente evoluiu neste
século?
A resposta parece óbvia. Afinal, o Brasil conquistou prêmios
importantes, revelou uma nova geração de cineastas, ampliou sua presença nos
grandes festivais internacionais e produziu obras que passaram a integrar o
debate cinematográfico mundial.
Mas essa impressão levanta uma questão mais profunda: o que
significa, afinal, evoluir?
Produzir mais filmes? Alcançar maiores bilheterias? Receber
mais prêmios? Formar novos diretores? Diversificar temas e linguagens? Ou
transformar a maneira como o país produz, distribui e pensa o seu próprio
cinema?
Responder a essas perguntas exige ir além da lembrança de
filmes isolados ou de nomes consagrados. Exige compreender o conjunto de
transformações que redefiniram a cinematografia brasileira desde o início do
século XXI.
Nas últimas décadas, o cinema brasileiro passou por mudanças
estruturais. Novos polos de produção surgiram fora do eixo Rio-São Paulo, uma
geração de realizadores renovou a linguagem cinematográfica, temas antes pouco
representados ganharam espaço e a presença do Brasil nos principais festivais
internacionais tornou-se cada vez mais frequente. Ao mesmo tempo, mudanças nas
políticas públicas, nas formas de financiamento e, mais recentemente, a
consolidação das plataformas de streaming alteraram profundamente a maneira de
produzir, distribuir e assistir aos filmes brasileiros.
No entanto, essas transformações costumam ser analisadas de
forma fragmentada. Fala-se de um diretor, de um filme ou de um prêmio
específico, mas raramente se observa o movimento de conjunto. É justamente esse
panorama que este ensaio pretende reconstruir.
Mais do que identificar os filmes mais importantes
produzidos neste século, o objetivo é compreender como o cinema brasileiro se
transformou, quais forças impulsionaram essa mudança e quais características
definem sua identidade contemporânea. Ao longo do texto, filmes, autores e
movimentos serão apresentados não apenas como referências, mas como evidências
de um processo histórico que continua em desenvolvimento.
Ao final da leitura, talvez a pergunta inicial permaneça a
mesma. Mas a resposta certamente será mais complexa do que um simples
"sim" ou "não". Afinal, compreender a evolução de uma
cinematografia significa, antes de tudo, compreender as mudanças que moldaram
sua forma de olhar para o país e para o mundo.
1. O legado da Retomada
Nenhuma transformação acontece de forma espontânea. O cinema
brasileiro que ingressou no século XXI não surgiu do zero, nem representou uma
ruptura completa com o passado. Ao contrário, foi construído sobre os alicerces
lançados durante a chamada Retomada do Cinema Brasileiro, processo iniciado em
meados da década de 1990 após um dos períodos mais difíceis da história da
produção nacional.
No início daquela década, o cinema brasileiro enfrentava uma
crise sem precedentes. A extinção da Embrafilme e de outros órgãos federais
ligados ao setor provocou uma brusca interrupção da produção. Em 1992, apenas
três longas-metragens brasileiros chegaram às salas de cinema, um número que
simbolizava o colapso de uma indústria que havia levado décadas para se
consolidar.
A recuperação começou gradualmente com a criação de
mecanismos de incentivo fiscal e de novas políticas públicas voltadas para o
audiovisual. Filmes como Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de
Carla Camurati, demonstraram que era possível reconstruir a produção nacional e
recuperar o interesse do público pelos filmes brasileiros. Nos anos seguintes,
obras como O Quatrilho (1995), Central do Brasil (1998), Orfeu
(1999) e Cidade de Deus (2002) consolidaram esse processo, ampliando a
visibilidade do cinema brasileiro dentro e fora do país.
Mais importante do que o sucesso de títulos individuais foi
a reconstrução das condições que permitiam a existência de uma produção
contínua. O início do século XXI encontrou um setor muito mais estruturado do
que aquele herdado do começo dos anos 1990. Em 2001, a criação da Agência
Nacional do Cinema (Ancine) representou um marco decisivo nesse processo. A
agência passou a coordenar políticas para o desenvolvimento da atividade
audiovisual, estimulando a produção, a distribuição e a exibição de filmes brasileiros
e contribuindo para a profissionalização do setor.
Ao mesmo tempo, o público voltou gradualmente às salas para
assistir a produções nacionais. Ainda que a participação do cinema brasileiro
no mercado continuasse sujeita a oscilações, formou-se uma nova geração de
espectadores que passou a reconhecer o cinema nacional como uma alternativa
artística e cultural relevante. Essa recuperação também favoreceu o surgimento
de produtoras independentes, ampliou as possibilidades de financiamento e criou
condições para que novos realizadores encontrassem espaço para desenvolver seus
primeiros longas-metragens.
Outro legado importante da Retomada foi o início da
internacionalização do cinema brasileiro contemporâneo. O reconhecimento obtido
por filmes como Central do Brasil e, posteriormente, Cidade de Deus
colocou novamente o Brasil no mapa das principais premiações e festivais
internacionais. Mais do que conquistas isoladas, esses filmes despertaram a
atenção da crítica mundial para uma cinematografia que voltava a demonstrar
vitalidade artística.
Quando o século XXI começou, portanto, o cinema brasileiro
já havia superado sua fase de reconstrução. O desafio deixava de ser
simplesmente voltar a produzir filmes. A partir daquele momento, a questão
passaria a ser outra: como ampliar essa produção, diversificar suas vozes e
construir uma cinematografia capaz de representar um país muito mais complexo
do que aquele retratado nas décadas anteriores.
Foi justamente essa nova etapa que definiria a evolução do
cinema brasileiro ao longo deste século.
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2. Um cinema deixa de ser paulista e carioca
Se a Retomada garantiu a sobrevivência do cinema brasileiro,
a grande transformação do século XXI foi outra: a produção nacional deixou de
estar concentrada quase exclusivamente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Pela
primeira vez em sua história, diferentes regiões do país passaram a construir
cinematografias próprias, com identidades, linguagens e formas de produção que
refletiam suas realidades locais.
Essa descentralização não significou apenas um aumento no
número de estados produtores. Representou uma mudança profunda na forma de
pensar o cinema brasileiro. Durante décadas, grande parte das histórias, dos
personagens e dos conflitos retratados nas telas refletia a perspectiva dos
principais centros econômicos e culturais do país. Ao longo deste século, novas
vozes passaram a ocupar esse espaço, ampliando o olhar sobre o Brasil e
tornando sua produção muito mais diversa.
O caso mais emblemático é o de Pernambuco. A partir dos anos
2000, consolidou-se uma geração de cineastas que passou a combinar forte
identidade regional com uma linguagem cinematográfica contemporânea e
reconhecida internacionalmente. Obras como Cinema, Aspirinas e Urubus
(2005), O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016), Bacurau
(2019) e Retratos Fantasmas (2023) demonstram como o estado se
transformou em um dos principais polos criativos do cinema brasileiro.
O Ceará também desenvolveu uma produção cada vez mais
consistente, marcada por experimentações formais e pela valorização das
paisagens e culturas locais. O fortalecimento de festivais, escolas de formação
e produtoras independentes criou um ambiente favorável ao surgimento de novos
realizadores.
Em Minas Gerais, consolidou-se uma cinematografia
reconhecida pela investigação estética, pela atenção ao cotidiano e pelo
diálogo entre documentário e ficção. Filmes produzidos no estado contribuíram
para ampliar as possibilidades narrativas do cinema brasileiro contemporâneo.
O Distrito Federal, por sua vez, revelou uma geração de
diretores interessados em experimentar novas linguagens e explorar questões
urbanas, sociais e políticas a partir de uma perspectiva própria, demonstrando
que Brasília poderia ser também um importante centro de criação audiovisual.
No Rio Grande do Sul, uma tradição cinematográfica já
existente ganhou novo impulso com o fortalecimento de produtoras locais e a
projeção nacional de cineastas que passaram a circular pelos principais
festivais brasileiros e internacionais.
A Bahia, cuja importância histórica para o Cinema Novo é
incontestável, também viveu uma renovação significativa neste século. Novos
realizadores passaram a construir narrativas voltadas para a diversidade
cultural, a identidade afro-brasileira e as múltiplas experiências sociais do
estado, ampliando ainda mais a pluralidade da produção nacional.
Essa descentralização só foi possível graças à combinação de
diferentes fatores. O fortalecimento das políticas públicas para o audiovisual,
a criação de editais regionais, a expansão dos cursos de cinema nas
universidades, a digitalização dos processos de produção e o amadurecimento das
produtoras independentes reduziram barreiras que antes limitavam a realização
de filmes fora dos grandes centros.
O resultado foi uma mudança histórica. O cinema brasileiro
deixou de ser identificado principalmente pela produção carioca e paulista para
tornar-se uma cinematografia verdadeiramente nacional. Essa diversidade
geográfica produziu também uma diversidade estética. Novos sotaques, paisagens,
culturas, memórias e modos de narrar passaram a ocupar as telas, ampliando a
representação do país e enriquecendo profundamente sua produção
cinematográfica.
Talvez seja essa a maior transformação estrutural do cinema
brasileiro neste século: mais do que produzir filmes em diferentes estados, o
Brasil passou a produzir diferentes formas de olhar para si mesmo.
3. Novos autores, novas identidades
Se a descentralização ampliou o mapa do cinema brasileiro,
uma nova geração de cineastas ampliou sua maneira de olhar para o país. O
século XXI não foi marcado pelo surgimento de uma escola única ou de um
movimento organizado, como ocorreu com o Cinema Novo. Em vez disso, consolidou
uma pluralidade de autores, cada um desenvolvendo uma identidade própria, mas
compartilhando o desejo de renovar as formas de narrar e interpretar a
realidade brasileira.
Essa talvez seja uma das características mais marcantes da
produção contemporânea. O cinema brasileiro deixou de ser definido por uma
estética predominante e passou a conviver com diferentes linguagens, gêneros e
perspectivas. Em comum, esses realizadores compartilham uma forte consciência
autoral e uma disposição para experimentar novas formas de expressão.
Entre eles, Kleber Mendonça Filho tornou-se um dos nomes
mais influentes da cinematografia brasileira contemporânea. Seus filmes
transformam espaços urbanos, memórias e relações de poder em elementos centrais
da narrativa, articulando crítica social e domínio da linguagem cinematográfica.
Obras como O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau demonstram
como o cinema brasileiro passou a dialogar simultaneamente com questões locais
e universais.
Karim Aïnouz construiu uma filmografia marcada pela
delicadeza estética e pela investigação das relações afetivas, da identidade e
do pertencimento. Seus filmes exploram personagens frequentemente situados à
margem das convenções sociais, revelando um cinema profundamente interessado na
experiência humana.
Já Anna Muylaert desenvolveu uma obra voltada para as
transformações das relações familiares e das desigualdades sociais brasileiras.
Em Que Horas Ela Volta?, por exemplo, questões de classe, afeto e
mobilidade social são tratadas por meio de uma narrativa acessível, sem abrir
mão da complexidade de seus conflitos.
Gabriel Mascaro representa outra vertente importante do
cinema contemporâneo. Suas obras transitam entre documentário e ficção,
explorando os limites entre realidade e imaginação e investigando as
transformações culturais e sociais do Brasil com forte inventividade visual.
Em uma direção diferente, Marcelo Gomes construiu uma
filmografia que combina sensibilidade humanista e profundo interesse pelos
deslocamentos físicos e simbólicos de seus personagens. Seus filmes revelam um
Brasil distante dos grandes centros urbanos, mas conectado às grandes questões
universais da condição humana.
No campo do documentário, Petra Costa ampliou
significativamente a presença internacional do cinema brasileiro. Seus
trabalhos demonstram como o documentário nacional passou a ocupar espaço
relevante no debate político e histórico contemporâneo, alcançando repercussão
mundial.
Aly Muritiba tornou-se uma referência ao abordar temas
ligados ao sistema prisional, às relações familiares e às tensões sociais
brasileiras, sempre buscando uma aproximação entre o rigor narrativo e a
observação do cotidiano.
Já Marcelo Caetano integra uma geração que ampliou a
representação da diversidade de experiências, afetos e identidades no cinema
brasileiro, contribuindo para tornar a produção nacional mais plural e
representativa da sociedade contemporânea.
Naturalmente, esses nomes não esgotam a riqueza da produção
brasileira deste século. Muitos outros diretores vêm construindo trajetórias
igualmente relevantes. O que torna essa geração particularmente importante não
é a existência de um estilo comum, mas justamente a ausência dele. Pela
primeira vez, o cinema brasileiro contemporâneo passou a ser definido menos por
um movimento estético unificado e mais pela convivência de múltiplas vozes
autorais.
4. O Brasil amplia suas narrativas
A renovação do cinema brasileiro neste século não ocorreu
apenas nos lugares onde os filmes passaram a ser produzidos ou nos nomes que
passaram a dirigi-los. Ela aconteceu também nas histórias contadas. À medida
que a produção se descentralizou e novos autores conquistaram espaço,
ampliou-se também o universo de personagens, conflitos e experiências
representados nas telas.
Durante muito tempo, parte significativa do cinema
brasileiro concentrou-se em determinados temas e perspectivas, frequentemente
associados aos grandes centros urbanos ou às interpretações tradicionais da
realidade nacional. O século XXI não abandonou essas questões, mas incorporou
muitas outras, permitindo que grupos, territórios e experiências historicamente
pouco representados passassem a ocupar o centro das narrativas.
As periferias urbanas, por exemplo, deixaram de ser
retratadas apenas como espaços da violência ou da exclusão social. Em muitas
obras, passaram a ser apresentadas como territórios complexos, marcados por
relações de afeto, produção cultural, identidade e resistência. Essa mudança
contribuiu para ampliar a diversidade de olhares sobre as grandes cidades
brasileiras.
O mesmo ocorreu com os povos indígenas, que
conquistaram maior protagonismo tanto diante quanto atrás das câmeras. Em vez
de aparecerem apenas como personagens secundários ou símbolos de um passado
distante, passaram a contar suas próprias histórias, abordando temas como
território, memória, ancestralidade e preservação cultural a partir de suas
próprias perspectivas.
As comunidades tradicionais, como quilombolas,
ribeirinhos e populações do sertão, também passaram a ocupar espaço crescente
na produção contemporânea. Esses filmes revelam formas de vida frequentemente
ausentes do cinema comercial e ampliam a compreensão da diversidade social e cultural
brasileira.
Outra transformação significativa foi a ampliação das
discussões sobre questões raciais. O cinema brasileiro passou a abordar
de maneira mais direta o racismo estrutural, a identidade negra, a memória da
escravidão e a valorização das culturas afro-brasileiras. Ao mesmo tempo, uma
nova geração de realizadores negros conquistou maior visibilidade, trazendo
perspectivas que enriqueceram profundamente a produção nacional.
As discussões sobre gênero e sexualidade também
ganharam espaço. Personagens femininas tornaram-se mais complexas e
protagonistas de suas próprias trajetórias, enquanto narrativas centradas em
experiências LGBTQIA+ passaram a integrar de forma cada vez mais consistente o
panorama do cinema brasileiro. Essas obras não apenas ampliaram a representação
da diversidade, mas contribuíram para renovar os temas e os conflitos
explorados pelo cinema nacional.
A memória tornou-se outro eixo importante da produção
contemporânea. Muitos filmes passaram a investigar lembranças familiares,
acontecimentos políticos e processos históricos, refletindo sobre a construção
da identidade brasileira e sobre as marcas deixadas por diferentes períodos da
história do país.
Questões relacionadas à imigração, aos deslocamentos
populacionais e às múltiplas identidades culturais também passaram a integrar
as narrativas. O Brasil deixou de ser visto apenas como um cenário homogêneo
para revelar a complexidade de uma sociedade formada por diferentes origens, experiências
e modos de vida.
Ao mesmo tempo, o meio ambiente assumiu uma
importância crescente. Florestas, rios, sertões e biomas brasileiros deixaram
de ser apenas cenários para se tornarem elementos centrais das histórias,
refletindo preocupações com sustentabilidade, preservação e os impactos das
transformações ambientais sobre comunidades e territórios.
Essa ampliação temática revela uma mudança fundamental. O
cinema brasileiro contemporâneo não passou apenas a contar mais histórias.
Passou a contar histórias de mais brasileiros.
5. A expansão das linguagens cinematográficas
As mudanças do cinema brasileiro neste século não se
limitaram aos temas abordados ou à origem de seus realizadores. Elas também
alcançaram a própria linguagem cinematográfica. Se durante boa parte do século
XX a produção nacional esteve associada principalmente ao drama social e ao
realismo, o século XXI consolidou um cenário muito mais aberto à experimentação
estética e ao diálogo com diferentes tradições do cinema mundial.
Essa transformação não significou abandonar a identidade do
cinema brasileiro. Ao contrário, muitos realizadores passaram a utilizar
gêneros cinematográficos consagrados para interpretar questões profundamente
brasileiras. O resultado foi uma produção capaz de combinar referências
internacionais com narrativas enraizadas na realidade social, política e
cultural do país.
O suspense tornou-se um dos gêneros mais explorados
pela nova geração de cineastas. Em O Som ao Redor (2012), Kleber
Mendonça Filho constrói uma tensão permanente a partir das relações de poder em
um bairro de classe média do Recife. Em Mormaço (2018), Marina Meliande
utiliza elementos do suspense psicológico para retratar as transformações
físicas e emocionais de sua protagonista.
O terror brasileiro viveu uma renovação
significativa. Filmes como As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas e
Marco Dutra, combinaram fantasia, horror e drama social em uma narrativa
singular. Já Morto Não Fala (2018), de Dennison Ramalho, e Medusa
(2021), de Anita Rocha da Silveira, demonstram como o gênero passou a dialogar
com questões sociais, religiosas e políticas.
A ficção científica, historicamente rara na produção
nacional, também conquistou espaço. Em Branco Sai, Preto Fica (2014),
Adirley Queirós mistura documentário, ficção científica e crítica social para
refletir sobre exclusão e violência estatal. Divino Amor (2019), de
Gabriel Mascaro, utiliza um futuro próximo para discutir religião, burocracia e
controle dos corpos.
O documentário ampliou profundamente suas
possibilidades narrativas. Obras como Democracia em Vertigem (2019), de
Petra Costa, aproximam experiência pessoal e história política. Em Retratos
Fantasmas (2023), Kleber Mendonça Filho transforma a memória dos cinemas de
Recife em uma reflexão sobre cidade, patrimônio e cultura. Já Babenco:
Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (2019), de Bárbara Paz,
dissolve as fronteiras entre documentário, diário e ensaio cinematográfico.
A fronteira entre documentário e ficção tornou-se
cada vez mais permeável. Filmes como Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te
Amo (2009), de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, e A Vizinhança do Tigre
(2014), de Affonso Uchôa, demonstram como diferentes formas narrativas passaram
a coexistir dentro de uma mesma obra.
A animação brasileira também alcançou um novo patamar
artístico e internacional. O Menino e o Mundo (2013), de Alê Abreu,
indicado ao Oscar, mostrou que era possível produzir animações autorais com
forte identidade visual. Mais recentemente, Arca de Noé (2024) reforçou
a capacidade da animação nacional de dialogar com grandes públicos sem perder
sua personalidade.
Mesmo o drama intimista, tradicional na
cinematografia brasileira, passou por um processo de renovação. Filmes como Que
Horas Ela Volta? (2015), A Vida Invisível (2019), Casa de
Antiguidades (2020) e Marte Um (2022) revelam um cinema interessado
nos conflitos cotidianos, nas relações familiares e nas transformações da
sociedade brasileira, mas utilizando uma linguagem cada vez mais sofisticada e
universal.
Essa liberdade formal tornou possível algo que poucas
cinematografias conseguem realizar com naturalidade: fazer conviver, dentro de
um mesmo período histórico, filmes profundamente diferentes entre si. O cinema
brasileiro contemporâneo já não pode ser definido por um único estilo, um único
movimento ou uma única estética. Sua identidade passou a residir justamente na
diversidade de suas formas de expressão.
Talvez essa seja uma das maiores conquistas da produção
nacional neste século. O cinema brasileiro deixou de perguntar qual linguagem
deveria representar o país e passou a explorar todas as linguagens capazes de
revelar sua complexidade. Essa liberdade criativa consolidou uma cinematografia
mais madura, mais plural e plenamente inserida no panorama do cinema
contemporâneo mundial.
6. O reconhecimento internacional
Uma das evidências mais visíveis da transformação do cinema
brasileiro neste século é sua presença cada vez mais frequente nos principais
festivais internacionais. Se durante boa parte do século XX o reconhecimento do
Brasil no exterior ocorria de forma esporádica, associado a obras excepcionais
ou a momentos específicos como o Cinema Novo, o século XXI consolidou uma
participação contínua nos mais importantes eventos do circuito cinematográfico
mundial.
Essa mudança não pode ser explicada apenas pelo aumento do
número de filmes produzidos. Ela resulta, sobretudo, da maturidade artística
alcançada pela cinematografia brasileira. Ao longo das últimas duas décadas, os
realizadores brasileiros passaram a desenvolver uma produção capaz de dialogar
com questões universais sem abrir mão de sua identidade cultural. O
reconhecimento internacional deixou de depender de exceções e passou a refletir
a consistência de uma geração de autores e de uma produção cada vez mais
diversificada.
O principal palco dessa projeção tem sido o Festival de
Cannes, considerado o evento mais prestigioso do cinema mundial. Filmes
brasileiros passaram a integrar regularmente suas diferentes mostras e
competições. Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, conquistou ampla
repercussão internacional; Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e
Juliano Dornelles, recebeu o Prêmio do Júri; e O Agente Secreto (2025),
também de Kleber Mendonça Filho, conquistou os prêmios de Melhor Direção e
Melhor Ator, reafirmando a presença brasileira entre os principais destaques do
festival.
O Festival Internacional de Cinema de Berlim,
tradicionalmente atento ao cinema político e social, também se tornou uma
vitrine importante para a produção brasileira. Obras como Central do Brasil
(1998), ainda no contexto da Retomada, abriram caminho para uma presença que se
consolidou neste século com filmes de diferentes gerações e estilos, refletindo
a diversidade temática da produção nacional.
Na Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza,
o cinema brasileiro também conquistou espaço crescente. Filmes como A Vida
Invisível (2019), de Karim Aïnouz, vencedor da mostra Un Certain Regard
em Cannes e posteriormente exibido em diversos festivais internacionais, e
produções selecionadas para Veneza demonstram o reconhecimento da crítica
internacional pela qualidade artística dos realizadores brasileiros.
Festivais como Locarno, na Suíça, e San Sebastián,
na Espanha, passaram igualmente a acolher de forma recorrente produções
brasileiras. Esses eventos, tradicionalmente voltados ao cinema de autor e às
novas tendências da cinematografia mundial, revelaram-se espaços especialmente
importantes para cineastas brasileiros interessados em experimentar novas
linguagens e ampliar sua circulação internacional.
Esse reconhecimento não se restringe aos festivais. O
documentário brasileiro conquistou indicações ao Oscar, como ocorreu com Democracia
em Vertigem (2019), de Petra Costa. A animação alcançou projeção
internacional com O Menino e o Mundo (2013), de Alê Abreu, também
indicada ao Oscar. Essas conquistas demonstram que a projeção internacional do
cinema brasileiro passou a abranger diferentes formatos e gêneros, e não apenas
o longa-metragem de ficção.
Talvez o aspecto mais importante dessa trajetória seja sua
continuidade. Diferentemente de outros períodos da história do cinema
brasileiro, em que o reconhecimento internacional esteve concentrado em poucos
autores ou movimentos, o século XXI revela uma presença constante, construída
por diferentes gerações de realizadores e por uma ampla diversidade de
propostas estéticas.
Essa regularidade indica que o prestígio internacional do
cinema brasileiro deixou de ser resultado de sucessos isolados. Ele passou a
refletir a consolidação de uma cinematografia artisticamente madura, capaz de
produzir obras relevantes em diferentes regiões do país, explorar múltiplas
linguagens e dialogar com o público e a crítica internacional sem renunciar à
singularidade de seu olhar sobre o Brasil.
7. O streaming muda as regras
Poucas transformações alteraram tanto o cinema brasileiro
neste século quanto a chegada das plataformas de streaming. Até o início dos
anos 2010, a trajetória de um filme era relativamente previsível: lançamento
nos festivais, exibição nas salas de cinema, circulação em canais de televisão
e, posteriormente, lançamento em DVD. O streaming rompeu esse modelo e
inaugurou uma nova lógica de distribuição, consumo e circulação das obras
audiovisuais.
Para o cinema brasileiro, essa mudança trouxe oportunidades
inéditas. Filmes que antes encontravam enormes dificuldades para alcançar o
público passaram a permanecer disponíveis por meses ou anos, tornando-se
acessíveis em qualquer região do país. A barreira geográfica, que durante
décadas limitou a circulação das produções nacionais, foi significativamente
reduzida.
A Netflix desempenhou um papel importante nesse
processo. Ao incluir filmes brasileiros em seu catálogo e investir em produções
nacionais, a plataforma ampliou a visibilidade do audiovisual brasileiro junto
a públicos que raramente frequentavam salas de cinema dedicadas à produção
nacional. Além disso, seu alcance internacional permitiu que obras brasileiras
fossem descobertas simultaneamente por espectadores de diferentes países.
No Brasil, o Globoplay assumiu um papel igualmente
relevante ao reunir parte significativa da produção audiovisual nacional,
preservando títulos importantes e ampliando o acesso a filmes, documentários e
séries brasileiras. A plataforma contribuiu para aproximar o público de uma
produção que, muitas vezes, desaparecia rapidamente do circuito de exibição
tradicional.
Já a MUBI desempenhou uma função distinta. Voltada ao
cinema de autor e às cinematografias independentes, tornou-se um espaço
privilegiado para a circulação de obras brasileiras reconhecidas em festivais
internacionais. Filmes que dificilmente permaneceriam em cartaz por muito tempo
encontraram na plataforma um ambiente favorável para alcançar espectadores
interessados em uma produção mais autoral.
Como consequência, o acesso ao cinema brasileiro tornou-se
muito mais democrático. Um espectador residente em qualquer cidade do país
passou a ter a possibilidade de assistir, em poucos dias, a filmes que
anteriormente circulavam apenas em capitais ou em circuitos alternativos. Esse
novo cenário também favoreceu a formação de repertório, permitindo que
diferentes gerações descobrissem obras produzidas em diversas regiões do
Brasil.
Ao mesmo tempo, o streaming ampliou a visibilidade
internacional da cinematografia brasileira. Filmes que antes dependiam
exclusivamente de festivais ou de distribuidores estrangeiros passaram a
integrar catálogos globais, alcançando públicos que dificilmente teriam contato
com o cinema nacional por outros meios.
Entretanto, essa transformação também trouxe novos desafios.
O fortalecimento das plataformas coincidiu com a redução do espaço destinado
aos filmes brasileiros nas salas de cinema, tradicionalmente dominadas pelas
grandes produções de Hollywood. Muitos longas passaram a permanecer em cartaz
por períodos cada vez menores, dificultando a formação de público no circuito
exibidor tradicional.
Além disso, a enorme quantidade de títulos disponíveis nas
plataformas criou um novo problema: a visibilidade. Estar disponível já não
significa necessariamente ser visto. Em um ambiente marcado por algoritmos,
recomendações automáticas e milhares de opções de entretenimento, muitos filmes
brasileiros passaram a disputar a atenção do público em condições muito
diferentes das existentes no circuito tradicional.
O streaming, portanto, não substituiu o cinema. Mudou as
regras do jogo. Democratizou o acesso, ampliou a circulação internacional e
criou novas oportunidades para a produção brasileira. Ao mesmo tempo, tornou
ainda mais importante o trabalho de curadoria, crítica e formação de
repertório, capaz de orientar o espectador em meio à abundância de conteúdos
disponíveis.
8. Os desafios do cinema brasileiro
Ao longo deste ensaio, vimos que o cinema brasileiro passou por transformações profundas desde o início do século XXI. A produção se descentralizou, novas gerações de cineastas renovaram a linguagem cinematográfica, temas antes pouco representados ganharam espaço e o reconhecimento internacional tornou-se uma realidade constante. Seria um erro, porém, concluir que essa trajetória foi marcada apenas por avanços. A evolução do cinema brasileiro também é a história dos desafios que continuam a limitar seu desenvolvimento.
O primeiro deles diz respeito ao financiamento.
Embora o país tenha desenvolvido importantes mecanismos de fomento ao
audiovisual, a produção brasileira ainda depende fortemente de políticas
públicas e de fontes de investimento sujeitas a mudanças econômicas e decisões
governamentais. Essa instabilidade dificulta o planejamento de longo prazo e
afeta principalmente produtores independentes e novos realizadores.
Outro obstáculo histórico permanece sendo a distribuição.
Produzir um filme continua sendo apenas parte do desafio. Fazer com que ele
chegue ao público é, muitas vezes, uma tarefa ainda mais difícil. Mesmo obras
premiadas internacionalmente enfrentam dificuldades para conquistar espaço nas
salas de cinema ou alcançar campanhas de divulgação capazes de competir com as
grandes produções estrangeiras.
Essa dificuldade está diretamente relacionada à concentração
do circuito exibidor. A maior parte das salas brasileiras pertence a
grandes redes comerciais, cuja programação é fortemente ocupada pelos
lançamentos dos grandes estúdios internacionais. Como consequência, muitos
filmes brasileiros permanecem em cartaz por poucos dias ou são exibidos em
número reduzido de salas, limitando seu potencial de alcançar novos
espectadores.
Existe ainda um desafio menos visível, mas igualmente
importante: a formação de público. Durante décadas, a educação
brasileira dedicou pouca atenção ao cinema como manifestação artística e
cultural. O resultado é que muitos espectadores cresceram consumindo
predominantemente produções estrangeiras e desenvolveram pouco repertório para
conhecer e compreender a diversidade do cinema nacional. Nesse contexto,
iniciativas de curadoria, crítica, cineclubismo e educação audiovisual
tornam-se fundamentais para aproximar o público da produção brasileira.
Outro tema que exige atenção permanente é a preservação.
Grande parte da memória audiovisual brasileira permanece ameaçada pela
deterioração de acervos, pela insuficiência de recursos destinados à
conservação e pelos desafios da digitalização. Preservar filmes significa
preservar uma parte essencial da história cultural do país, garantindo que
futuras gerações possam conhecer as diferentes etapas da evolução de nossa
cinematografia.
Esses desafios, entretanto, não diminuem as conquistas
alcançadas ao longo deste século. Pelo contrário, tornam ainda mais evidente a
capacidade de renovação do cinema brasileiro.
A maior delas talvez seja sua extraordinária diversidade.
Nunca tantas regiões, culturas, experiências e formas de expressão estiveram
representadas de maneira tão ampla na produção nacional. O cinema brasileiro
deixou de ser identificado por uma única estética ou por um pequeno grupo de
realizadores para tornar-se um espaço de convivência entre múltiplas vozes.
Essa diversidade caminhou lado a lado com uma crescente qualidade
artística. A consolidação de novos autores, o amadurecimento das produtoras
independentes e a liberdade de experimentação fizeram surgir uma cinematografia
reconhecida pela consistência de suas propostas estéticas e pela capacidade de
dialogar com os grandes debates do cinema contemporâneo.
O reconhecimento internacional, por sua vez, deixou
de depender de sucessos ocasionais. A presença frequente em Cannes, Berlim,
Veneza, Locarno, San Sebastián e outros festivais demonstra que o cinema
brasileiro conquistou um espaço permanente no cenário mundial, sendo
acompanhado com interesse por críticos, programadores e espectadores de
diferentes países.
Por fim, a descentralização da produção representa
talvez a transformação estrutural mais importante deste período. O cinema
brasileiro tornou-se, de fato, um cinema nacional. Novos polos criativos
ampliaram as possibilidades de representação do país, permitindo que diferentes
sotaques, paisagens, culturas e modos de vida passassem a integrar de forma
permanente a produção audiovisual.
O cinema brasileiro chega ao segundo quarto do século XXI
diante de um cenário paradoxal. Nunca produziu obras tão diversas,
artisticamente maduras e internacionalmente reconhecidas. Ao mesmo tempo,
continua enfrentando obstáculos históricos relacionados ao financiamento, à
distribuição e à formação de público.
Curadoria
Filmes para compreender a evolução do cinema brasileiro
neste século
Os filmes a seguir não representam necessariamente os
"melhores" do cinema brasileiro contemporâneo. Foram selecionados
porque, em conjunto, permitem observar as principais transformações discutidas
neste ensaio: a consolidação da Retomada, a descentralização da produção, o
surgimento de novos autores, a ampliação das narrativas, a renovação da
linguagem cinematográfica e o reconhecimento internacional da cinematografia
brasileira.
Cidade de Deus (2002), Fernando Meirelles e Kátia
Lund
O filme que projetou definitivamente o cinema brasileiro do século XXI no
cenário internacional e abriu caminho para uma nova geração de realizadores.
Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Marcelo Gomes
Símbolo da consolidação do cinema pernambucano e da descentralização da
produção brasileira.
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009),
Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
Exemplo da renovação da linguagem e da aproximação entre documentário e ficção.
O Som ao Redor (2012), Kleber Mendonça Filho
Marco da consolidação de uma nova geração de autores e de uma linguagem
cinematográfica sofisticada.
O Menino e o Mundo (2013), Alê Abreu
A animação brasileira alcança reconhecimento mundial e demonstra a diversidade
da produção nacional.
Que Horas Ela Volta? (2015), Anna Muylaert
Uma das obras mais importantes sobre as transformações sociais do Brasil
contemporâneo.
Aquarius (2016), Kleber Mendonça Filho
Exemplo da crescente presença do Brasil nos grandes festivais internacionais.
Ao mesmo tempo em que aborda memória, cidade e especulação imobiliária,
confirma a consolidação de uma linguagem cinematográfica sofisticada e
universal.
Bacurau (2019), Kleber Mendonça Filho e Juliano
Dornelles
Síntese da liberdade criativa do cinema brasileiro contemporâneo, combinando
gêneros, crítica social e reconhecimento internacional.
Democracia em Vertigem (2019), Petra Costa
O documentário brasileiro alcança projeção global e reafirma sua relevância
política e artística.
Ainda Estou Aqui (2024), Walter Salles
Símbolo da consolidação internacional do cinema brasileiro neste século. A
conquista do Oscar de Melhor Filme Internacional e a repercussão mundial do
filme demonstram que a produção brasileira voltou a ocupar um lugar de destaque
entre as grandes cinematografias contemporâneas.
O Agente Secreto (2025), Kleber Mendonça Filho
Representa o estágio mais recente dessa trajetória. Seus prêmios de Melhor
Direção e Melhor Ator no Festival de Cannes confirmam a continuidade do
reconhecimento internacional do cinema brasileiro e evidenciam a maturidade
artística alcançada pela produção nacional.