Quando o cinema chega aonde quase nunca olhamos
No altiplano peruano, cercados por montanhas e distantes da cidade, dois idosos vivem praticamente sozinhos. Willka e Phaxsi cuidam dos animais, preparam a comida, enfrentam o frio e repetem tarefas aprendidas ao longo de uma vida inteira. O filho partiu. Eles continuam esperando que volte.
Óscar Catacora precisava de muito pouco para construir Wiñaypacha. Dois personagens, uma casa, uma paisagem e uma ausência. Em 86 minutos, transforma esses elementos numa experiência cinematográfica que fala de envelhecimento, abandono e das mudanças que lentamente esvaziam comunidades rurais.Realizado inteiramente em aimará, Wiñaypacha nasceu longe dos centros que normalmente determinam quais histórias chegam às telas. E Catacora não observa aquele universo como um visitante fascinado pelo exotismo dos Andes. Seu filme pertence àquele lugar. Isso aparece sobretudo na maneira de filmar.
A câmera quase nunca tem pressa. Os planos permanecem durante o tempo necessário para que Willka e Phaxsi atravessem uma distância, realizem uma tarefa ou simplesmente permaneçam diante da paisagem. Aquilo que poderia parecer lentidão logo revela outra função: fazer o espectador experimentar uma relação com o tempo muito diferente daquela que domina boa parte do cinema contemporâneo.
Também muda nossa percepção do espaço. As montanhas são belíssimas, mas não foram fotografadas como cartão-postal. Para os dois idosos, aquela imensidão é casa, fonte de sobrevivência e, ao mesmo tempo, ameaça. Uma caminhada aparentemente pequena pode representar um esforço considerável. Uma alteração no clima pode modificar completamente o dia. Uma tarefa banal pode ser indispensável para continuar vivendo.
Catacora confia tanto nessa relação entre personagens e território que quase não precisa conduzir nossas emoções. O vento, os animais e os sons do cotidiano ocupam o lugar que outro filme talvez entregasse à música. A câmera observa mais do que interfere.
É justamente aí que Wiñaypacha encontra sua força. O filme não transforma seus protagonistas em símbolos de uma cultura perdida nem romantiza a vida distante da modernidade. Willka e Phaxsi são duas pessoas envelhecendo juntas, ligadas a um lugar que conhecem profundamente, enquanto percebem que o mundo de seus filhos está cada vez mais distante.
Pouco conhecido fora dos circuitos dedicados ao cinema latino-americano, Wiñaypacha é também um lembrete do tamanho do território que permanece fora do nosso repertório. Há cinematografias, línguas e maneiras de contar histórias que raramente atravessam as fronteiras da distribuição internacional.
Algumas delas não precisam ser resgatadas porque foram esquecidas. Precisam simplesmente ser descobertas.
Análise completa do filme no Crítica Livre de Cinema.
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