O segundo movimento da travessia
Entre o Enigma e a Cura foi concebida como uma sequência de cinco movimentos. No primeiro, o sujeito se perde: identidade e realidade deixam de oferecer referências seguras. Mas permanecer nesse estado de desorientação não explica, por si só, o que acontece depois. Aos poucos, aquilo que parecia caótico começa a revelar uma regularidade. Certos gestos retornam, algumas escolhas conduzem repetidamente aos mesmos resultados e relações diferentes parecem reproduzir conflitos semelhantes. É nesse ponto que entramos no segundo bloco da mostra: o momento em que o sujeito se repete.
A passagem de um bloco para outro é fundamental para compreender a proposta da curadoria. Se a primeira etapa mostrava a irrupção de algo que desestabiliza o indivíduo, agora esse estranhamento começa a adquirir uma forma. O sintoma deixa de parecer um acontecimento isolado e passa a funcionar como uma engrenagem que insiste apesar da vontade consciente. O sujeito talvez queira mudar, escapar ou começar novamente, mas alguma coisa continua reconduzindo-o a lugares conhecidos.
Essa é uma das experiências humanas mais desconcertantes: perceber que nem sempre fazemos aquilo que sabemos ser melhor para nós. Podemos reconhecer que determinado comportamento nos prejudica e, ainda assim, repeti-lo. Podemos abandonar uma relação e reconstruir em outra circunstâncias muito semelhantes. Podemos desejar uma mudança enquanto preservamos, sem perceber, exatamente as condições que impedem que ela aconteça. A repetição sugere que nossas escolhas não são determinadas apenas pelas razões que conseguimos formular conscientemente.
É justamente essa contradição que aproxima os cinco filmes deste bloco. Em todos eles existe alguém tentando escapar de uma situação enquanto, de alguma maneira, contribui para reconstruí-la. O que muda de uma obra para outra é a forma assumida por esse movimento e, novamente, a ordem da programação foi pensada para tornar essa progressão perceptível.
Em Taxi Driver, a repetição assume a forma de um circuito fechado. Travis percorre Nova York noite após noite, observa as mesmas ruas e alimenta continuamente uma visão de mundo que confirma seu isolamento. O movimento do táxi produz a impressão de deslocamento, mas o personagem permanece preso ao mesmo lugar psíquico. A cidade muda diante do para-brisa enquanto sua percepção parece retornar continuamente ao ressentimento e à exclusão.
Clube da Luta desloca essa engrenagem para uma divisão interna. A tentativa de romper com uma existência percebida como vazia não conduz propriamente à libertação, porque aquilo que o protagonista rejeita retorna sob outra forma e com intensidade crescente. A violência parece inicialmente oferecer uma saída, mas acaba construindo um novo circuito de aprisionamento. A ruptura transforma-se, ela própria, em repetição.
Em Coringa, o sintoma ganha corpo e visibilidade. O riso involuntário de Arthur atravessa situações diferentes e escapa ao seu controle, tornando explícita uma experiência que ele não consegue simplesmente interromper. À medida que sua relação com o mundo se deteriora, porém, aquilo que parecia exclusivamente íntimo encontra ressonância no ambiente social. A repetição deixa de ser apenas sofrimento individual e começa a participar da própria construção de uma identidade.
Com Um Corpo que Cai, Alfred Hitchcock leva a repetição para o território do desejo. Scottie tenta recuperar aquilo que perdeu reconstruindo no presente uma imagem pertencente ao passado. Quanto mais procura fazer a realidade coincidir com essa fantasia, mais profundamente se aprisiona nela. O filme mostra uma dimensão particularmente perturbadora da repetição: não retornamos necessariamente porque desconhecemos o sofrimento provocado por determinado caminho, mas porque alguma coisa naquele caminho continua exercendo sobre nós uma força difícil de abandonar.
A progressão termina com Laranja Mecânica, quando a questão deixa de pertencer somente ao indivíduo. Ao tentar eliminar pela força determinados comportamentos, o sistema transforma o próprio sujeito em objeto de condicionamento. O problema da repetição adquire então uma dimensão política e ética: o que significa modificar um comportamento quando desaparece a possibilidade de escolha? A curadoria chega, assim, ao ponto em que a engrenagem já não está apenas dentro do personagem, mas também nas instituições que pretendem controlá-lo.
Vistos em conjunto, os cinco filmes percorrem formas diferentes de uma mesma prisão: o circuito que se fecha, a divisão que retorna, o sintoma que insiste, o desejo que reconstrói aquilo que perdeu e o sistema que procura controlar a própria repetição. O cinema torna visível algo que, na experiência cotidiana, frequentemente permanece escondido: podemos mudar de cenário, de relações ou de circunstâncias sem necessariamente modificar a lógica que organiza nossas escolhas.
Mas reconhecer a repetição ainda não significa interrompê-la. Para que alguma coisa possa se deslocar, aquilo que retorna precisa encontrar outra forma de existir. É nesse ponto que a mostra avança para seu terceiro movimento. Depois de perder-se e perceber-se preso à repetição, o sujeito encontra uma possibilidade decisiva: transformar experiência em linguagem. No próximo bloco, A Palavra e a Escuta, entramos no território em que falar e ser ouvido podem começar a alterar aquilo que, até então, apenas se repetia.
A mostra completa está na BIBLIOTECA.