Além dos Filmes

IA NA PRODUÇÃO AUDIOVISUAL: O que já mudou e o que pode mudar no cinema


A inteligência artificial já participa da criação de filmes, séries e vídeos. Dos storyboards aos efeitos visuais, da transformação de rostos à geração de cenas com imagem e som, diferentes tecnologias começam a alterar processos que permaneceram relativamente estáveis durante décadas. Este ensaio amplia a investigação publicada na Edição #4 da FILMOTECA – Revista de Cinema e reúne casos que ajudam a dimensionar até onde essa transformação chegou.

Quando se fala em inteligência artificial e cinema, a imagem mais comum ainda é a de um futuro no qual alguém escreverá algumas instruções em um computador e receberá, pouco depois, um filme completo. A possibilidade chama atenção, mas não descreve adequadamente o que está acontecendo na indústria audiovisual.

A transformação atual é mais fragmentada e, justamente por isso, mais difícil de perceber.

A inteligência artificial já está sendo utilizada antes das filmagens, durante a criação de efeitos visuais, na transformação de rostos e vozes, na montagem e na localização de conteúdos. Paralelamente, uma nova geração de ferramentas começa a fazer algo diferente: produzir diretamente pequenos trechos audiovisuais com personagens, ambientes, movimentos de câmera, diálogos e sons, sem que aquela cena tenha sido registrada por uma câmera.

São dois movimentos simultâneos. No primeiro, a IA modifica etapas de um processo de produção que já conhecemos. No segundo, começa a condensar várias dessas etapas em sistemas capazes de gerar o próprio material audiovisual.

Compreender essa diferença é fundamental para avaliar o tamanho da mudança.

O FILME COMEÇA MUITO ANTES DA FILMAGEM

Uma produção cinematográfica não começa quando o diretor diz "ação". Antes disso, há um longo processo destinado a transformar palavras e ideias em decisões concretas.

É preciso imaginar como serão personagens e ambientes, desenvolver referências visuais, desenhar cenários, criar storyboards e decidir como sequências complexas serão filmadas. Em grandes produções, a previsualização permite construir versões simplificadas de determinadas cenas antes de mobilizar atores, equipamentos, cenários e equipes.

A inteligência artificial generativa oferece uma nova maneira de realizar parte desse trabalho.

Um artista pode fornecer desenhos, fotografias e descrições e obter diferentes propostas para um ambiente. Um diretor pode testar alternativas para a composição de uma cena antes de escolher aquela que será desenvolvida. Imagens estáticas podem ser transformadas em pequenas sequências para experimentar movimentos e enquadramentos.

O ganho principal nessa etapa não precisa ser a substituição de profissionais. Pode estar na quantidade de alternativas que uma equipe consegue explorar dentro do mesmo período.

A diferença é semelhante à que ocorreu em outras áreas quando ferramentas digitais reduziram o custo de experimentar. Se produzir uma nova alternativa exige horas de trabalho, escolhem-se poucas possibilidades. Se parte do processo pode ser realizada em minutos, dezenas delas podem ser avaliadas antes de uma decisão.

A Lionsgate transformou essa possibilidade em estratégia industrial ao estabelecer uma parceria com a Runway, empresa especializada em inteligência artificial generativa. O acordo prevê aplicações em diferentes etapas do processo de produção, entre elas storyboard e previsualização.

O efeito econômico pode aparecer muito antes de o filme chegar ao set. Um erro identificado enquanto ainda existe apenas como imagem preliminar custa pouco para ser corrigido. O mesmo erro percebido depois da construção de um cenário, contratação de figurantes e realização de uma diária pode custar milhares ou milhões.

QUANDO A IA ENTRA NOS EFEITOS VISUAIS

É na pós-produção que alguns dos resultados mais concretos já podem ser medidos.

Uma grande sequência de efeitos visuais costuma envolver várias especialidades. Objetos e cenários são modelados em três dimensões, recebem texturas, precisam ser iluminados e animados. Fogo, fumaça, água, destroços e multidões podem exigir simulações específicas. Depois, todos esses elementos precisam ser combinados às imagens filmadas.

A inteligência artificial não eliminou essa cadeia. Começou, porém, a executar ou acelerar partes dela.

El Eternauta, produção argentina da Netflix lançada em 2025, tornou-se um dos casos mais conhecidos. Em uma sequência, um edifício desaba em Buenos Aires. Segundo a Netflix, o uso de inteligência artificial generativa permitiu concluir o trabalho dez vezes mais rapidamente do que pelo processo convencional.

O número impressiona, mas outra informação é ainda mais importante. A empresa afirmou que produzir a sequência pelos métodos tradicionais teria um custo incompatível com o orçamento disponível.

Nesse caso, a tecnologia não serviu apenas para economizar dinheiro em uma cena que seria realizada de qualquer maneira. Ela ajudou a tornar economicamente possível uma imagem que poderia não existir naquela escala.

A série House of David, da Amazon, oferece outro exemplo. Em sua segunda temporada, mais de 350 planos utilizaram inteligência artificial, segundo levantamento da revista americana Wired. A tecnologia ajudou a ampliar exércitos, ambientes e grandes sequências relacionadas ao universo bíblico.

Produções históricas, épicas, de fantasia e ficção científica são particularmente sensíveis a essa questão porque frequentemente precisam mostrar na tela aquilo que não pode simplesmente ser encontrado e filmado. Construir uma cidade antiga, reunir milhares de soldados ou destruir um edifício sempre colocou orçamento e imaginação em confronto.

A IA começa a alterar essa relação.

IMAGENS QUE SERIAM DIFÍCEIS DE PRODUZIR

O curta ANCESTRA oferece um exemplo diferente. Produzido com participação de tecnologias do Google DeepMind, combinou filmagem convencional, efeitos visuais e ferramentas generativas para criar imagens relacionadas ao interior do corpo humano e ao nascimento.

O caso é interessante porque mostra ao mesmo tempo a capacidade e os limites atuais da tecnologia.

Algumas imagens complexas puderam ser geradas rapidamente. Isso não transformou a produção em uma operação automática. Mais de duzentos profissionais participaram do projeto, envolvendo filmagem, efeitos, montagem, som e outras especialidades.

O resultado ajuda a desfazer uma falsa oposição que frequentemente acompanha a discussão. Hoje, a escolha raramente é entre "feito por humanos" e "feito por IA". O que começa a surgir são processos híbridos nos quais diferentes tecnologias generativas se misturam a técnicas cinematográficas tradicionais.

A questão passa a ser identificar quais partes do trabalho estão mudando e quais continuam dependendo de profissionais especializados.

O ROSTO DO ATOR TAMBÉM PODE SER ALTERADO

Transformações digitais de atores existem há muitos anos. Cinema e televisão já utilizavam computação gráfica para envelhecer, rejuvenescer ou modificar rostos muito antes da atual geração de inteligência artificial.

O que muda é o processo.

Em Here, dirigido por Robert Zemeckis, tecnologia desenvolvida pela Metaphysic permitiu apresentar Tom Hanks e outros atores em diferentes idades. A transformação podia ser visualizada durante a própria produção.

No método tradicional, uma cena pode ser filmada e somente semanas ou meses depois o diretor observar o resultado final do rejuvenescimento realizado pela equipe de efeitos. Com sistemas capazes de produzir uma transformação quase imediatamente, diretor e ator conseguem avaliar durante a filmagem se aquela performance continua funcionando no rosto digitalmente modificado.

A diferença parece técnica, mas pode interferir na própria direção. O ator deixa de interpretar para um resultado que somente será conhecido muito depois. O efeito torna-se parte da informação disponível no momento em que a cena está sendo construída.

Essa capacidade também aproxima a indústria de questões mais difíceis. Se um rosto pode ser transformado, também pode ser reproduzido. A distância entre alterar digitalmente uma performance autorizada e criar uma réplica capaz de aparecer em novas situações tornou-se pequena o suficiente para chegar às mesas de negociação dos sindicatos.

QUANDO A VOZ DEIXA DE SER IMUTÁVEL

Algo semelhante acontece com o som.

Em O Brutalista, Adrien Brody e Felicity Jones interpretam personagens húngaros. A produção utilizou tecnologia da empresa Respeecher para aperfeiçoar determinados fonemas da pronúncia dos atores.

O caso gerou controvérsia porque foi rapidamente descrito como exemplo de "atuação feita por IA". A realidade era mais específica. As performances haviam sido realizadas pelos atores. A tecnologia atuou sobre elementos limitados da pronúncia, procurando preservar ritmo, emoção e características das vozes originais.

Em Emilia Pérez, sistemas de processamento vocal ajudaram a combinar características de diferentes vozes em determinadas passagens musicais. Em Better Man, filme inspirado na trajetória de Robbie Williams, tecnologias de voz também participaram da construção do resultado sonoro.

Esses usos revelam uma área em que a inteligência artificial pode ter enorme impacto sem ser percebida pelo público.

Dublagem, tradução e localização dependem tradicionalmente de tradutores, adaptadores, atores, diretores de dublagem, técnicos e estúdios. Sistemas capazes de reproduzir características vocais e alterar idiomas criam a possibilidade de reduzir parte desse processo e até fazer um ator aparentemente falar outra língua preservando elementos de sua própria voz.

A economia potencial é significativa, mas as questões de consentimento e remuneração também são.

QUANDO A CENA NÃO PRECISA TER SIDO FILMADA

Os exemplos anteriores ainda pertencem, de alguma forma, ao cinema que conhecemos. Existe uma produção, atores são filmados, cenas são planejadas e a inteligência artificial entra para auxiliar ou transformar partes do processo.

Ferramentas como Veo e Flow apontam para outra direção.

O Veo, desenvolvido pelo Google DeepMind, pertence a uma geração de modelos capazes de produzir vídeo a partir de instruções escritas e referências visuais. O Flow utiliza modelos do Google para oferecer um ambiente voltado especificamente à criação audiovisual.

O usuário pode estabelecer personagens, ambientes e situações, experimentar enquadramentos e movimentos de câmera e produzir pequenos trechos de vídeo. Versões mais recentes dos modelos também conseguem gerar componentes sonoros, como falas, ruídos e ambientes.

Isso significa que uma cena pode existir sem ter sido filmada.

Não se trata simplesmente de colocar um efeito sobre uma imagem registrada por uma câmera. A própria imagem em movimento pode ser gerada pelo sistema.

Essa distinção é fundamental.

Durante décadas, mesmo uma sequência totalmente criada por computação gráfica dependia da construção explícita de seus componentes. Alguém modelava um personagem, outro profissional criava sua textura, um animador determinava movimentos, uma câmera virtual precisava ser posicionada e a iluminação era construída digitalmente.

Os sistemas generativos procuram chegar ao resultado de outra maneira. A partir de enormes quantidades de informação aprendidas durante seu treinamento, produzem novas imagens em resposta às instruções recebidas.

Para quem assiste, ambos os métodos podem terminar em pixels numa tela. Para quem produz, os caminhos são profundamente diferentes.

AINDA NÃO É POSSÍVEL PEDIR UM FILME E RECEBÊ-LO PRONTO

Vídeos impressionantes produzidos por sistemas generativos podem criar uma impressão enganosa sobre o estágio atual da tecnologia.

Gerar alguns segundos convincentes é muito diferente de sustentar um longa-metragem.

Cinema depende de continuidade. Um personagem precisa conservar rosto, roupa, idade e características físicas. Se pega um objeto em uma cena, esse objeto precisa continuar existindo na seguinte. Um apartamento deve manter sua arquitetura quando a câmera muda de posição. Uma interpretação precisa preservar intenções e emoções durante diferentes planos.

Os sistemas atuais ainda encontram dificuldades nesses aspectos, embora evoluam rapidamente.

Existe também o problema do controle. Um diretor não precisa apenas de uma imagem bonita. Precisa determinar exatamente onde o ator estará, para onde olhará, quando levantará uma mão, qual será o movimento da câmera e como aquela ação se relacionará com o plano seguinte.

Quanto maior a duração e a complexidade narrativa, mais essas exigências se acumulam.

Por isso, a capacidade de produzir pequenos vídeos não significa que o processo cinematográfico tenha sido automatizado. Significa que uma nova maneira de gerar matéria audiovisual passou a existir.

O YOUTUBE PODE SER UM LABORATÓRIO MAIS RÁPIDO QUE HOLLYWOOD

Grandes estúdios têm muito a perder com mudanças bruscas. Produções envolvem centenas de milhões de dólares, contratos complexos, sindicatos, direitos de imagem e estruturas profissionais consolidadas.

Um criador do YouTube enfrenta outra realidade.

Estudos sobre o uso de inteligência artificial por criadores já identificaram ferramentas generativas sendo empregadas em praticamente toda a cadeia de produção: escolha de temas, pesquisa, roteiro, imagens, áudio, vídeo, edição, títulos e legendas.

O próprio YouTube incorporou recursos de geração ao Shorts e ferramentas capazes de produzir um primeiro corte a partir de material gravado.

Essa diferença de escala importa.

Para uma empresa que já possui câmera, estúdio e equipe, uma ferramenta de IA pode significar produzir o mesmo conteúdo com maior eficiência. Para alguém que não possui nada disso, pode significar produzir algo que anteriormente não conseguiria realizar.

É possível que parte das novas linguagens audiovisuais baseadas em inteligência artificial apareça primeiro nesse ambiente e somente depois seja absorvida pela indústria tradicional.

UMA TECNOLOGIA QUE PODE AJUDAR OS PEQUENOS

A redução de custos talvez seja a consequência mais imediata da transformação.

Um cineasta independente sempre precisou adaptar sua imaginação ao orçamento. Não basta imaginar uma batalha, uma cidade futurista ou uma viagem espacial. É necessário pagar para que essas imagens existam.

A inteligência artificial pode reduzir essa distância.

Isso não significa que filmes independentes passarão subitamente a ter a qualidade visual dos maiores blockbusters. Grandes produções continuarão contando com profissionais, infraestrutura e capacidade de refinamento muito superiores.

Mas a diferença entre "não posso produzir esta imagem" e "posso produzir uma versão suficientemente convincente desta imagem" pode ser decisiva.

A democratização, porém, vem acompanhada de outra concentração. Os modelos mais avançados exigem enorme capacidade computacional e investimentos bilionários. Poucas empresas conseguem desenvolvê-los.

Assim, uma tecnologia pode distribuir capacidade de produção entre milhões de pessoas enquanto concentra sua infraestrutura em um pequeno número de corporações.

OS GRANDES ESTÚDIOS PREFEREM ENTRAR PELAS BORDAS

Hollywood tem adotado uma estratégia mais cautelosa.

Uma projeção da Deloitte para 2025 estimava que os grandes estúdios destinariam menos de 3% dos orçamentos de produção à inteligência artificial generativa, com adoção inicialmente mais intensa em atividades específicas e áreas como marketing, localização e dublagem.

O comportamento observado desde então ajuda a entender essa cautela.

Netflix experimentou IA generativa em uma sequência específica de El Eternauta. Lionsgate aproximou-se da Runway. Amazon MGM criou uma iniciativa voltada ao desenvolvimento de ferramentas para cinema e televisão. Séries como House of David ampliaram o número de planos nos quais a tecnologia participa.

Não ocorreu uma substituição geral do modelo tradicional. A tecnologia entrou pelas bordas, ocupando atividades nas quais pode oferecer vantagem imediata sem exigir que toda a estrutura produtiva seja reconstruída.

Essa pode ser uma característica típica de grandes transformações industriais. A novidade não substitui imediatamente o sistema anterior. Primeiro passa a funcionar dentro dele. Quando diversas pequenas mudanças se acumulam, o próprio sistema começa a se reorganizar.

OS SINDICATOS JÁ ESTÃO NEGOCIANDO AS CONSEQUÊNCIAS

Enquanto empresas experimentam novas ferramentas, trabalhadores procuram estabelecer limites.

A SAG-AFTRA criou regras relacionadas a réplicas digitais, consentimento e remuneração. A questão é particularmente importante para atores porque imagem, corpo e voz constituem parte essencial do trabalho que comercializam.

Se uma réplica pode reproduzir determinada pessoa, é necessário definir quem pode criá-la, para quais usos, durante quanto tempo e mediante qual pagamento.

Os roteiristas enfrentam outro problema. Modelos generativos são treinados utilizando enormes quantidades de textos. O Writers Guild of America negociou proteções relacionadas à inteligência artificial e ao eventual licenciamento de obras para treinamento.

A Directors Guild of America também incluiu IA entre os assuntos relevantes de suas negociações.

Esses movimentos não demonstram que a tecnologia eliminará essas profissões. Demonstram algo mais concreto: sindicatos e empresas consideram plausível que a inteligência artificial altere atividades profissionais em escala suficiente para exigir novas regras.

QUANTOS EMPREGOS PODEM DESAPARECER?

É uma das perguntas mais frequentes e uma das mais difíceis de responder com seriedade.

A automação raramente afeta todas as atividades de uma profissão da mesma maneira. Um artista de efeitos visuais realiza tarefas diferentes. Um roteirista não apenas escreve frases. Um editor não apenas coloca planos em determinada ordem. Um ator não fornece apenas sua aparência.

A inteligência artificial tende primeiro a automatizar tarefas específicas.

Se uma atividade que consumia três dias passa a exigir três horas, a empresa pode utilizar o tempo economizado para produzir mais, reduzir prazos ou empregar menos pessoas. Qual dessas alternativas prevalecerá dependerá de custos, demanda, contratos e decisões empresariais.

Por isso, ainda não há base sólida para afirmar quantos profissionais serão substituídos.

Há, entretanto, razões suficientes para que trabalhadores se preocupem. Quando determinadas tarefas exigem menos horas humanas, a organização das equipes pode mudar mesmo que a profissão continue existindo.

A discussão relevante talvez não seja se "a IA substituirá artistas", mas quais partes do trabalho artístico passarão a ser executadas de outra maneira e como isso modificará as profissões que conhecemos.

MAIS BARATO NÃO É SINÔNIMO DE MELHOR

A eficiência econômica pode dominar o debate porque é fácil de medir. Dez vezes mais rápido é um número. Uma redução de custos pode aparecer em uma planilha.

Qualidade artística é outra questão.

Uma imagem produzida rapidamente não é necessariamente melhor. Um sistema pode gerar um cenário visualmente impressionante e ainda oferecer menos controle ao diretor. Pode produzir uma voz tecnicamente perfeita e eliminar pequenas imperfeições que faziam parte de uma interpretação. Pode gerar centenas de alternativas e tornar mais difícil escolher aquela que realmente serve ao filme.

A história do cinema está cheia de tecnologias que ampliaram possibilidades sem determinar o valor das obras realizadas com elas.

Câmeras digitais tornaram filmar mais barato. Isso não fez todos os filmes melhores. Computação gráfica permitiu mostrar praticamente qualquer coisa. Isso não tornou toda imagem digital artisticamente necessária.

A inteligência artificial provavelmente seguirá a mesma regra.

A capacidade de produzir uma imagem não responde à pergunta mais importante: por que aquela imagem deveria existir naquele filme?

A PRIMEIRA GRANDE MUDANÇA PODE NÃO APARECER NA TELA

Talvez seja por isso que procurar uma "estética da inteligência artificial" possa nos distrair da transformação mais imediata.

O primeiro grande impacto pode ser econômico e produtivo.

Se storyboards são produzidos mais rapidamente, se uma previsualização custa menos, se multidões podem ser ampliadas com equipes menores, se determinadas correções de voz dispensam novas gravações e se uma pequena produtora consegue gerar imagens que antes exigiriam infraestrutura muito superior, a maneira de organizar uma produção começa a mudar.

O espectador talvez não perceba nada.

O filme continuará chegando à tela com atores, montagem, música, cenários e efeitos. A diferença estará no caminho percorrido até chegar ali.

Esse caminho determina quanto um filme custa, quantas pessoas trabalham nele, quanto tempo leva para ser produzido e quais ideias são abandonadas porque não existem recursos para realizá-las.

É por isso que o caso de El Eternauta permanece tão revelador. O mais importante não é descobrir se o espectador consegue identificar quais segundos foram produzidos com auxílio de inteligência artificial. É saber que uma imagem considerada cara demais passou a caber no orçamento.

Ferramentas como Flow e Veo acrescentam outra dimensão. Elas sugerem que, além de modificar o caminho tradicional, a tecnologia pode começar a criar caminhos inteiramente novos entre uma ideia e sua transformação em imagem e som.

Ainda não sabemos até onde isso chegará.

Sabemos, entretanto, que a discussão deixou de pertencer exclusivamente ao futuro. Filmes e séries já utilizam inteligência artificial. Estúdios já investem em sua integração. Criadores independentes já constroem fluxos de trabalho ao redor dela. Sindicatos já negociam suas consequências.

O cinema atravessou outras transformações tecnológicas profundas, do som à cor, da película ao digital e dos efeitos ópticos à computação gráfica. Em cada uma delas, a tecnologia modificou não apenas aquilo que aparecia na tela, mas também quem podia produzir, quanto custava produzir e quais histórias se tornavam possíveis.

Ainda é cedo para saber se a inteligência artificial provocará uma mudança comparável.

Mas a pergunta já pode ser formulada de maneira muito mais concreta:

O que acontece com o cinema quando partes cada vez maiores de um filme podem ser produzidas de outra maneira?


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