O algoritmo não escolhe o que é bom. Escolhe o que
prende. E são coisas muito diferentes.
Durante a maior parte do século XX, alguém com nome e rosto
decidia, em voz alta, se um filme valia seu tempo. Em 1975, Gene Siskel e Roger
Ebert levaram a crítica de cinema para a televisão americana, e o poder que os
dois acumulariam nas duas décadas seguintes seria descrito por ninguém menos
que Eddie Murphy, em 1987, com uma frase definitiva: bastava os dois dizerem
"filme horrível" que eles conseguiam enterrar um lançamento inteiro.
Era um poder centralizado, visível, e sujeito a debate público. Quando Siskel
discordava de Ebert na tela, o espectador via o conflito de gosto acontecer em
tempo real, e podia escolher de qual dos dois discordar também.
Vale uma ressalva sobre o tipo de captura que ameaçava esse
modelo. No mercado fonográfico, o jabá funcionou como corrupção direta:
gravadoras pagando emissoras de rádio para tocar determinada música, até o
ponto em que estações inteiras abandonaram os DJs com gosto próprio e passaram,
elas mesmas, a receber o pagamento por exposição. No cinema, a pesquisa
acadêmica mais rigorosa sobre o tema não encontrou equivalente direto. Um
estudo de Berkeley testou especificamente se veículos pertencentes a conglomerados
de mídia favoreciam filmes de estúdios do mesmo grupo, comparando avaliações da
20th Century Fox em publicações da News Corp, e não encontrou viés mensurável,
nem mesmo um efeito pequeno como um voto a mais a cada treze filmes. A captura
real funcionava de outra forma: não comprando elogio, mas controlando agenda.
Críticos tinham liberdade para detestar um blockbuster caro, mas pouca
liberdade para simplesmente ignorá-lo, ou para dedicar à cobertura de filmes
pequenos o mesmo espaço que dedicavam ao que vinha com orçamento de marketing
milionário por trás. O preço da independência, nesse modelo, não era a opinião
comprada. Era o acesso restrito a quem se recusasse a seguir o roteiro de
cobertura que os estúdios esperavam.

Esse modelo não era exclusividade americana. No Brasil,
Rubens Ewald Filho cumpriu papel parecido a partir dos anos 1980, quando suas
aparições na TV Globo e nas transmissões do Oscar o tornaram a voz mais
reconhecível da crítica de cinema no país. É revelador que sua popularização
tenha coincidido exatamente com o advento do VHS, o momento em que alugar um
filme para assistir em casa deixou de ser exceção e virou hábito. Antes de
qualquer algoritmo decidir o que colocar na sua tela, era um homem com mais de
trinta e sete mil filmes anotados em cadernos pessoais quem ajudava o público
brasileiro a escolher o que valia a pena entre as prateleiras da locadora. Ele
tinha estilo próprio, reconhecidamente irônico, e o espectador sabia exatamente
de quem estava discordando quando discordava dele.

Havia ainda uma segunda figura, menos lembrada que o
crítico de jornal ou de TV, mas talvez mais próxima do que se tornaria décadas
depois: o atendente da locadora. Quem viveu a era do VHS e do DVD provavelmente
se lembra de alguém atrás do balcão que sabia o que você gostava, lembrava da
última conversa, e arriscava uma sugestão fora da prateleira mais visível. Era
recomendação pessoal, baseada em memória real de um indivíduo específico, não
em estatística agregada de milhões de perfis. E tinha uma diferença estrutural
que separa esse modelo de tudo que viria depois: o atendente não tinha métrica
de retenção empurrando a indicação. Não ganhava mais se você alugasse mais um
filme ali em vez de ir à locadora concorrente na esquina seguinte. Podia até
dizer que a loja não tinha o filme certo, e sugerir que você procurasse em
outro lugar.

Mas a locadora, antes mesmo de qualquer atendente abrir a
boca, já operava com um viés estrutural que antecipa, de forma quase exata, o
que o algoritmo faria décadas depois. Os lançamentos ocupavam fileiras
inteiras, com dezenas de cópias do mesmo título, uma decisão tomada pela
distribuidora antes de qualquer resposta real de público, baseada em orçamento
de marketing e expectativa de bilheteria do filme no cinema. As prateleiras de
catálogo, no fundo da loja, raramente recebiam visita, não porque fossem piores,
mas porque eram menos visíveis. E a visibilidade gerava mais aluguéis, que
geravam mais dados de popularidade, que justificavam mais cópias do mesmo
título na leva seguinte. É exatamente o mecanismo de reforço de popularidade
que a pesquisa acadêmica descreveria depois nos algoritmos de streaming, só que
manual, físico, mecânico em vez de automatizado por machine learning.
A diferença real entre os dois sistemas não está em quem
decide o que fica em evidência, é em quem ainda consegue contornar essa
decisão. Na locadora, o catálogo esquecido continuava existindo fisicamente,
palpável, percorrível por qualquer pessoa curiosa disposta a andar até o fundo
da loja. E mesmo dentro de um sistema de prateleiras desenhado para empurrar
lançamentos, o atendente continuava sendo um humano com poder de interromper
aquele fluxo, te tirar da fileira óbvia e te levar pessoalmente até onde a
distribuidora não queria que você olhasse primeiro. No streaming, o catálogo
esquecido frequentemente nem aparece em busca nenhuma, soterrado por camadas de
interface construídas exatamente para manter você dentro do que o sistema já
decidiu te mostrar. E não existe equivalente ao atendente: nenhum funcionário
dentro do algoritmo tem autonomia para, por afinidade pessoal com você, ignorar
a lógica de negócio da plataforma e te indicar algo do fundo do catálogo.
Essa lógica comercial por trás da curadoria não se limitava
à prateleira da locadora. A janela de distribuição inteira do cinema
pré-streaming seguia uma sequência rígida, desenhada para maximizar receita em
cada etapa sem que uma canibalizasse a anterior: primeiro o cinema, depois a TV
paga, depois o VHS e a locadora, e só então a TV aberta. King Kong e O Mágico
de Oz, dois clássicos consagrados, só chegaram à televisão aberta americana em
1956, décadas depois da estreia. Na Inglaterra, O Império Contra-Ataca levou
oito anos para sair do cinema e chegar à TV aberta, em 1988. Quando uma
emissora finalmente investia num pacote anual de filmes famosos para exibir na
grade, essa escolha também não era curadoria no sentido editorial: era seleção
dentro do que já havia sido validado comercialmente nas janelas anteriores,
priorizando o que geraria mais audiência publicitária naquele horário
específico. A mesma lógica de retenção que move o algoritmo hoje já operava
décadas antes, só que em lote, decidida uma vez por ano, em vez de recalculada
a cada minuto que você passa na tela.

Esse modelo começou a desaparecer no fim da primeira década
dos anos 2000, e a internet é amplamente apontada como a razão principal. O
crítico individual, com estilo e viés reconhecíveis, foi sendo substituído por
agregadores: sites que somam centenas de opiniões num único número, uma
porcentagem, uma nota. A vantagem parecia óbvia, mais vozes, menos viés de uma
pessoa só. O que se perdeu, sem que ninguém anunciasse a perda, foi a
possibilidade de discordar de alguém específico. Não dá para debater com uma
média.
A etapa seguinte dessa transição aconteceu sem anúncio
nenhum, e é a que vivemos hoje. O agregador de opiniões deu lugar ao algoritmo
de comportamento, e a diferença entre os dois é mais profunda do que parece. Um
agregador ainda media opinião, gente avaliando um filme depois de assistir. Um
algoritmo de recomendação não pergunta o que você achou. Ele observa o que você
fez, e decide que o que você fez importa mais do que qualquer coisa que você
diria sobre isso.

A Netflix declarou publicamente que mais de 80% de tudo o
que é assistido na plataforma vem de recomendação personalizada, não de busca
ativa do usuário. Isso significa que, para a maioria absoluta das pessoas, a
maioria absoluta do que assistem nunca foi uma escolha no sentido pleno da
palavra. Foi uma sugestão que o sistema considerou provável o suficiente para
ser aceita. E a forma como o sistema chega a essa probabilidade é onde a coisa
fica reveladora: ele dá dez vezes mais peso ao que você efetivamente assistiu
do que a qualquer avaliação explícita que você tenha dado, como o polegar para
cima ou para baixo. Mais revelador ainda: o sistema prioriza taxa de conclusão
sobre nota. Terminar de assistir um filme ruim, mesmo emburrado, mesmo
arrependido, conta mais para o algoritmo do que avaliar bem um filme que você
amou. A métrica não é qualidade. É retenção.
Isso não é falha do sistema. É o sistema funcionando
exatamente como foi desenhado para funcionar. Uma plataforma de assinatura
precisa que você continue assistindo, continue logado, continue pagando. O
algoritmo de recomendação não existe para te apresentar ao melhor cinema
possível. Existe para reduzir o risco de você fechar o aplicativo. São
objetivos que às vezes coincidem, e frequentemente não coincidem.

Quantificar o poder real desses sistemas é mais difícil do
que a indústria gosta de admitir, e os próprios estudos discordam entre si de
forma reveladora. Sobre o Rotten Tomatoes especificamente, uma análise de dados
indo até 2000, conduzida pela Universidade do Sul da Califórnia, encontrou
correlação praticamente nula entre nota do site e desempenho de bilheteria,
apenas 12% de correlação no total arrecadado e ainda menos no fim de semana de
estreia. Outros estudos acadêmicos chegam à conclusão oposta, encontrando
influência moderada, principalmente quando a nota é negativa e o lançamento é
amplo. Mesmo a pergunta mais simples, quantas pessoas checam esses sites antes
de decidir o que assistir, não tem resposta estável: uma pesquisa de 2018
encontrou um terço do público consultando Rotten Tomatoes regularmente, uma
pesquisa Fandango de 2023 encontrou 72%, e uma pesquisa YouGov do mesmo ano
encontrou apenas 12% dizendo que sempre leem resenhas antes de assistir. Quando
nem os institutos de pesquisa concordam sobre o tamanho do próprio fenômeno,
vale desconfiar de qualquer afirmação categórica sobre o poder do agregador,
positiva ou negativa.

O que não é discutível é a migração do hábito de consumo
para fora da sala de cinema. Em 2025, apenas 53% dos adultos americanos foram a
um cinema ao menos uma vez no ano, e a fatia de frequentadores assíduos caiu de
39% em 2019 para 17% em 2025. A venda total de ingressos despencou para 769
milhões, quase metade do pico histórico de 1,6 bilhão em 2002. Enquanto isso,
75% dos adultos assistiram a um lançamento recente via streaming em casa, e 32%
fazem isso mensalmente, o dobro da frequência de quem ainda vai ao cinema com
regularidade. A decisão de qual filme assistir, que durante décadas acontecia
na fila do cinema, na locadora ou na conversa com o crítico do jornal, hoje
acontece majoritariamente dentro de um aplicativo, governada por um sistema
que, como já vimos, prioriza retenção acima de qualquer outra coisa.

A consequência cultural disso é mais sutil do que a ideia
popular de "bolha de filtro" sugere. A teoria mais difundida é que o
algoritmo te prende numa câmara de eco pessoal, só te mostrando mais do mesmo
que você já gosta, isolando você de qualquer coisa nova. A pesquisa acadêmica
mais recente conta uma história um pouco diferente, e talvez mais preocupante:
o problema central não é necessariamente o indivíduo ficar isolado dentro do
próprio gosto. É a população inteira convergindo para os mesmos sucessos já
estabelecidos. Os algoritmos de recomendação, estudados em simulações com dados
reais de consumo, tendem a reforçar a popularidade do que já é popular,
empurrando usuários muito diferentes entre si na direção dos mesmos itens. Você
talvez ainda explore gêneros variados dentro do seu próprio perfil. Mas a
distância entre o que você assiste e o que qualquer outra pessoa assiste, mesmo
alguém com um perfil completamente diferente do seu, vem encolhendo, porque
todo mundo está sendo empurrado para o mesmo punhado de títulos que o sistema
já sabe que funcionam.
Há ainda uma camada de desigualdade que a pesquisa também
documenta: o efeito de diversificação que as plataformas de fato proporcionam
não é distribuído igualmente entre todo mundo. Quem já chega com mais
repertório cultural tende a se beneficiar mais da exposição a conteúdo variado
que as plataformas oferecem. Quem chega com menos repertório tende a ser
conduzido, com mais força, para o que já é consenso. O algoritmo, neutro em
aparência, reproduz desigualdades que já existiam antes dele.

Existe, na história desse ofício, uma exceção que sempre
escapou da lógica comercial descrita até aqui: a cinemateca. Instituições como
a Cinemateca Brasileira ou a Cinemateca Portuguesa preservam e exibem cinema
com um critério que nenhum dos sistemas anteriores tinha, valor histórico e
artístico, não potencial de audiência ou retenção. Mas a cinemateca pagou um
preço alto por essa pureza editorial, que limitou seu alcance de forma severa.
O acesso ao acervo, mesmo hoje, depende em grande parte da presença física do
usuário na instituição. Empréstimos de obras envolvem seguro, transporte
especializado e autorização caso a caso de quem detém os direitos. Mesmo
cinematecas com acordos internacionais de cooperação restringem a exibição a
contextos específicos de projeção pública, com arquivos que não podem sequer
ser copiados do computador onde foram baixados. E o problema mais sério para
qualquer um de nós, hoje: cinema contemporâneo, ainda sob direitos comerciais
ativos e caros, é estruturalmente mais difícil de licenciar do que obras
antigas já em domínio público ou com direitos simplificados. Isso empurrou a
maioria das cinematecas para um papel quase exclusivo de guardiãs do passado,
com pouquíssima capacidade de curar e indicar o que está sendo lançado agora.

É exatamente essa limitação histórica que a tecnologia atual
torna possível superar, sem recriar os incentivos perversos do algoritmo. Uma
cinemateca virtual não precisa deter os direitos de exibição de nenhum filme
para indicá-lo. Pode apontar um filme disponível numa plataforma de streaming,
ou mesmo circulando informalmente pela internet, sem hospedar o arquivo, sem
mediar a exibição, sem cobrar nada por isso, deixando inteiramente para quem lê
a decisão de buscar e como buscar. Isso elimina, de uma vez, dois dos maiores
obstáculos que sempre limitaram a cinemateca física: o custo de licenciamento e
a restrição geográfica de quem precisa estar fisicamente presente num prédio
específico para ter acesso ao acervo. A curadoria pode alcançar qualquer pessoa
com internet, sobre qualquer filme, de qualquer época, sem nunca precisar
negociar direito de exibição com ninguém, porque a exibição em si nunca
acontece dentro da própria estrutura da curadoria.

Na prática, isso permite que a curadoria abandone
completamente a lógica da disponibilidade como critério principal e volte a
trabalhar com relevância cultural, histórica ou temática. Uma cinemateca
virtual pode reunir filmes consagrados pelo tempo, resgatar obras fora do
radar, destacar lançamentos recentes, apontar títulos de qualidade escondidos
nos catálogos dos streamings, revisitar filmes pioneiros que inauguraram
linguagens cinematográficas ou recuperar obras que continuam dividindo opiniões
décadas depois de lançadas. Como não depende de acordos comerciais com
distribuidoras, plataformas ou exibidores, sua única obrigação é com a
qualidade da recomendação. E, ao combinar um acervo amplo de filmes catalogados
e analisados, referências críticas consolidadas e ferramentas de pesquisa
potencializadas por inteligência artificial, ela ganha capacidade de conectar
obras distantes no tempo, na origem ou na popularidade, produzindo percursos de
descoberta que dificilmente surgiriam de um sistema projetado para maximizar
retenção. Nesse modelo, os ensaios não funcionam apenas como complemento da
recomendação, mas como demonstração pública dos critérios que sustentam a
própria curadoria.

O resultado é uma figura nova: nem o crítico de TV preso à
agenda dos estúdios, nem o algoritmo otimizando retenção, nem a cinemateca
física limitada por geografia e direito autoral. Uma curadoria que finalmente
reúne o que cada sistema anterior teve isoladamente, a independência editorial
da cinemateca, o alcance ilimitado do digital, e a ausência completa do
incentivo comercial que distorce o algoritmo, porque não existe métrica de
retenção a otimizar quando a recomendação não precisa, ela mesma, hospedar
nada.
A diferença final talvez seja essa: o algoritmo pergunta
"o que vai fazer você continuar aqui". O crítico de TV perguntava
"o que merece ser comentado, dentro do que os estúdios me deixam
comentar". A cinemateca perguntava "o que merece ser preservado,
dentro do que consigo licenciar". A curadoria que a tecnologia atual
finalmente torna possível pergunta apenas "o que vale o seu tempo",
sem nenhuma das amarras que limitaram todas as respostas anteriores a essa mesma
pergunta.
Leia também: De Aeroporto ao Diabo Veste Prada 2: Como a Pipoca Cara Sustentou a Economia de Hollywood