Sejamos
honestos: quem acompanha adaptações de videogame no cinema já se acostumou a
sofrer. Quase sempre o público entra em dois extremos frustrantes: ou a obra é
uma cópia literal e sem vida, ou vira um filme de ação genérico que destrói a
identidade do material original. Por anos, a franquia Resident Evil nas telonas
foi o maior exemplo disso, refém de piruetas impossíveis e tiroteios em câmera
lenta. Aquilo passava muito longe da verdadeira essência dos primeiros jogos,
que sempre foi sobre escassez, claustrofobia e aquele clima delicioso de cinema
B dos anos 1990.É por isso que o novo Resident Evil (2026), comandado por Zach
Cregger, surge como um verdadeiro milagre. Ele não é apenas um respiro de
alívio; é uma aula de como traduzir a linguagem dos games para o cinema.
A grande
sacada de Cregger foi entender que, no terror, o medo e o absurdo andam de mãos
dadas. Ao colocar Bryan (Austin Abrams) no olho do furacão, o roteiro chuta
para longe o fetiche militarista do passado. Bryan não é um super-soldado como
Chris Redfield ou Leon Kennedy; ele é apenas um entregador comum, civil e
visivelmente incompetente para o combate. No fundo, Bryan representa cada um de
nós jogando na dificuldade máxima pela primeira vez. Ele erra tiros por puro
nervosismo, entra em pânico ao dar de cara com portas trancadas que exigem
chaves com símbolos bizarros e reage com aquele humor histérico de quem sabe
que está completamente ferrado.
Essa
escolha humaniza o filme e resgata o peso do verdadeiro survival horror. Nos
trinta minutos iniciais, a direção equilibra com maestria o terror corporal
sufocante e a comédia de situação. Cregger não busca o susto barato pelo susto;
ele constrói a tensão rindo do ridículo das decisões humanas sob pressão
extrema. É um terror que incomoda justamente por ser orgânico, tragicamente
engraçado e dolorosamente real.
É claro
que o longa não foge de polêmicas e deve dividir opiniões na metade final.
Quando a trama decide abraçar o melodrama corporal e joga na tela metáforas
pesadas sobre a rejeição à paternidade, culminando em uma mutação física que
ecoa os chefões mais bizarros da Capcom, o tom gera uma reação perigosamente
com o exagero. Para os fãs dos games clássicos, o clímax pode soar extravagante
demais e desconexo da sobriedade do início. Mas para outros, é a consagração de
um diretor corajoso que se recusa a jogar no seguro.
No fim das
contas, o Resident Evil de 2026 triunfa onde quase todo mundo falhou porque
entendeu o óbvio. Adaptar não é copiar o roteiro de um jogo passo a passo.
Adaptar é emular a sensação exata de estar com o controle na mão, a
vulnerabilidade, o improviso e, acima de tudo, aquele riso nervoso diante do
inevitável.