Acho que este é o filme do ano, nunca havia assistido algo tão original e tão surpreendente e diferente nos últimos poucos anos.
Okja é incrivelmente bem dirigido e roteirizado por Joon-Ho Bong, e conta uma história bem clichê de uma garotinha coreana e uma super-porco geneticamente modificada, porém em um ritmo frenético e com muitas reviravoltas.
O que mais surpreende neste filme são algumas cenas de ação de tirar o fôlego com a Seo-Hyun Ahn (Mikha), uma garotinha que praticamente é um super-herói da 'vida fictícia real', desde quando Okja é levada e Mikha a persegue a pé seguindo um caminhão, temos uma sequência digna de uma perseguição de filmes como Missão Impossível, Velocidade Máxima e até mesmo Vingadores: Era de Ultron.
O filme também surpreende pelo fato de ter um tom totalmente cômico e bem andrógeno. A primeira vista você pode pensar (assim como eu) que o filme é mais um drama, focado na garotinha que vai sofrer por perder seu animal de estimação, mas não... o filme tem um alto tom cômico, impossível você não rir com algumas cenas e situações, e o melhor, não são de propósito, não é pra você rir, mas vem naturalmente. A caracterização dos personagens são bem andrógenos, pra quem conhece o trabalho de David Bowie vai entender o quero dizer. Os personagens de Tilda Swinton e Jake Gylenhall, o avô de Mikha, os funcionários da Corporação Mirando, os integrantes do grupo FLA (Frente de Libertação animal), todos têm uma interpretação peculiarmente andrógena.
O filme também lida de uma forma bem despretenciosa com a forma como as pessoas e grandes marcas lidam com a internet hoje em dia, onde tudo se filma, tudo se tira selfie, tudo vai para o Instagram, Twitter, Facebook, Google, sites e afins.
Temos um ótimo elenco no filme, a começar por Tilda Swinton, em uma interpretação sensacional, ela interpreta Lucy Mirando e no fim do filme faz também sua irmã gêmea Nancy Mirando. Sua personagem Lucy têm uma postura bem presencial, como se sempre fosse uma apresentadora de TV, uma 'Entertaiment' em pessoa. Tem seu drama familiar com o pai já falecido e muito rígido, e a irmã Nancy, que sempre foi melhor do que a irmã (o que é constatado no fim do filme). Um dos melhores trabalhos de Tilda.
Jake Gylenhall faz o personagem Dr. Johnny Wilcox, dono de um programa de TV que hoje é ligado á Corporação Mirando, mas que não tem lá grande audiência. Pra mim a Melhor Interpretação do filme... o que Jake fez com o personagem, a forma como ele lhe deu vida, como o interpretou em tela, foi divino. Um personagem excêntrico, contextualizado, duvidoso em seus propósitos, pensando somente na auto-promoção, um amante dos animais que acaba indo por outro caminho. Assim como Tilda, têm uma interpretação totalmente andrógena. Tiro o meu chapéu para Jake Gynlehall neste filme, lhe dava uma indicação a Ator Coadjuvante no Globo fácil.
Também temos a FLA (Frente de Libertação Animal), grupo que protege os animais e ajudou Mikha no filme, seu líder é Paul Dano (Jay). Dano têm uma interpretação digna, faz muito bem seu papel, é sempre muito competente, sempre bom vê-lo em cena e suas interpretações são sempre convictas.
Steven Yeun (o Glenn de Walking Dead) faz K, é ele quem traduz o que Mikha diz, afinal ela é da Coréia e não sabe falar inglês. Yeun faz um ótimo trabalho, muito bom vê-lo atuando em outros papéis.
Também temos Lily Collins como Red, ela é pouco utilizada no filme, mas se sai bem quando exigida.
Seo-Hyun Ahn que faz 'Mikha' está ótima no filme, e discordo quem diz que não criamos empatia pra com ela durante o filme. Não só criamos, como acompanhamos sua jornada para resgatar Okja com afinco. Ela com seu jeito bicho do mato na 'cidade grande' é o maior barato.
Hee-Bong Byun faz Heebong, gostei muito dele quando foi acionado no filme, pena que depois o roteiro o retirou de cena sem mais nem menos.
O filme me desagradou apenas no final, onde perdeu o tom cômico-andrógeno e focou em uma situação dramática-emotiva. O final do filme é ótimo, gostei de como terminou, duas cenas de cortar o coração, principalmente do bebê super-porco e seus pais. Porém, o filme todo é focado no tom cômico-andrógeno e o fim do filme poderia ir pelo mesmo lado porém mais dosado, mas mudou de foco totalmente e eu teria feito de uma forma diferente.
O filme tem uma cena pós créditos que é focado no humor, por isso que o tom do fim do filme destoa do filme como um todo, meu único ponto negativo.
Okja, é um filme incrível, diferente, inovador, onde o diretor Joon-Ho Bong não teve medo de inovar na caracterização dos personagens, e na forma de contar uma história envolvendo um tema tão polêmico como a indústria de carne animal para consumo humano, a maneira como lidamos com isso na internet, a maneira como lidamos com a sacrificação dos animais, e no grupo de proteção dos animais que por muitas vezes se promovem com o assunto para fins próprios numa luta que ás vezes é justa e ás vezes não.
Brad Pitt também está envolvido na produção executiva do filme, mostrando que ele vem acreditando em filmes com visões diferentes do que vemos chegando hoje ás telonas.
Filme com estréia exclusiva no Netflix.