Há também os dois “Hellboy” que tem a clássica assinatura de Del toro, baseados na HQ, e “A Colina Escarlate”, que é um pouco abaixo dos dois Oscarizados, mas traz elementos de ambos, mais puxado para o suspense e o thriller.
Uma das poucas obras de Del Toro que sai da área das fábulas e fantasia são “Pacific Rim”, uma homenagem á cultura japonesa que abrange kaijus, tokusatsus, mangás futuristas apocalípticos, e é um filme bem honesto, apesar de ter uma construção dos personagens humanos bem piegas... e “Mama” filme bem mais ou menos de terror da escola Jump Scare que o mesmo produziu.
Pra que citar tudo isso? Apenas para contextualizar que tudo dito acima, foi mastigado, digerido e expelido em “O Beco do Pesadelo”... Del Toro utilizou da sua experiência e conhecimento de todas estas obras em que pôs a mão, para criar uma versão mais sagaz, mais voraz, mais soturna de “O Beco das Almas Perdidas”, longa original da qual Del toro fez esta releitura indicada a Melhor Filme no Oscar e no Critics Awards.
O filme tem dois atos, um que é certeiro, prende o espectador na tela e tem um ritmo tão dinâmico e centrado que é prazeroso demais acompanhar e nos apresenta personagens coadjuvantes mais que carismáticos. O outro ato é mais submerso em detalhes e diálogos, sai do ritmo que se propôs, não chega a ser tão imersivo quanto o primeiro ato, abre mão dos personagens carismáticos e traz todo um núcleo novo onde só se salva Cate Blanchett como a Dra. Lilith Ritter, já que os demais não carregam um carisma consigo.
O primeiro ato que se passa no Circo de Clem (Willem Dafoe) é de encher os olhos, não só com com o elenco coadjuvante, mas com um ritmo gostoso, cenas acachapantes, uma direção de arte magnífica, uma fotografia imersiva e cuidadosa, figurinos tão bem construídos na mais singela simplicidade. O próprio Willem Dafoe apresenta aquela performance que só ele mesmo consegue entregar, de encher os olhos.
Nesse ato também se destaca muito é David Strathairn (Nomadland) como Pete Krumbein, de quem Stan Carlisle (Bradley Cooper de Guardiões da Galáxia) aprende o principal truque que o fará mudar de patamar na vida. David interpreta muito bem, faz uma mistura legal de charlatão com paspalhão de uma forma única, e poderia ter mais tempo de tela com sua esposa Zeena, interpretada pela maravilhosa e talentosa Toni Collette (Hereditário). Só os dois em cena já são um colírio pro cinéfilo.
Ao passar para o segundo ato, temos mais tempo de tela para Rooney Mara (de A Rede Social), que foge com Stan do circo para viver com ele fazendo o truque que ele aprendeu com o caderno de Pete. Interpretando Molly, Rooney Mara tem mais a mostrar no segundo ato que no primeiro, onde tem cenas isoladas aqui e acolá, mas é neste ato final onde ela é um pouco mais exigida, mesmo sem muito brilho.
Como este ato sai do circo e nos imerge na nova realidade do casal Stanton e Molly, o filme perde totalmente seu ritmo, entra num embate piscológico entre Stan e Lillith e deixa para o coadjuvantismo o golpe no Juíz Kinball (Peter Macneill) e em Ezra Grindle (Richard Jenkins de As Loucuras de Dick e Jane).
A relação de Stanton com os dois velhos que ele irá dar o golpe não se aprofunda demais, talvez mais com Ezra, mas não há tempo o suficiente para nos afeiçoarmos aos dois personagens, Ezra foi o que mais teve desenvolvimento, mas podria ter focado somente nele, ou ter dado mais ênfase em seu personagem para termos aquela faceta ameaçadora que ele promete durante o segundo ato do filme. Acho que se Del toro focasse mais nele e ficasse apenas brevemente com Kinball renderia mais a história.
Mas essa mudança radical de atos, do escrachado e cômico romântico do primeiro ato, com o protagonista misterioso... para um segundo ato mais metido, psicológico, um suspense amálgamado com thriller, inspirado brevemente em “A Colina Escarlate”, pode cansar o público que já havia sido ganho com o ritmo estabelecido no primeiro ato, e vê as coisas aos poucos mudarem de tom no segundo tom... é como se você assistisse dois filmes em um só... ou uma minissérie com dois episódios, cada um dirigido por um diretor diferente.
Não digo que Del Toro não acertou, muito pelo contrário, ele fez um ótimo filme que justíssimamente está indicado ao Oscar de Melhor Filme... mas faltou acertar a mão no ritmo ao mudar de ato, que claramente incomoda o público mais casual e chama a atenção até do cinéfilo que está acostumado com esse tipo de virada no roteiro.
Bradley Cooper fez um trabalho ótimo na pele de Stanton Carlisle, um papel que originalmente estava destinado a Leonardo DiCaprio, não tenho o que reclamar do trabalho dele, sempre muito competente, e sua cena final no longa é de prender a atenção na tela. Porém, eu achei que faltou um ‘Q’ a mais na atuação de Bradley para que ele obtivesse uma lembrança em qualquer premiação nesta temporada.
O personagem Stanton Carlisle é sensacional, tantas nuances para se trabalhar com o personagem, tantas camadas para se trabalhar... Bradley aproveitou todo esses escopos para trazer a vida um Stanton incrível que vimos em tela, mas... como já disse...faltou aquele ímpeto a mais...não explicar exatamente, só quem assistiu o filme e concorda com minha opinião vai entender um pouco... afinal é um personagem que rende indicação para qualquer ator que o interprete com inspiração. Não faltou ao Bradley, mas faltou um tempero a mais... enfim.
Já Cate Blanchett foi um colírio... Atriz com A maiúsculo, nada que esta mulher faça fica ruim, ou abaixo do que ela pode entregar...afinal de contas estamos falando da mulher que foi a rainha Elizabeth I, fez Senhor do Anéis, foi Katherine Hepburn que lhe rendeu um Oscar, foi a namorada de Benjamin Button, foi Blue Jasmine que lhe rendeu outro Oscar, foi a madastra má da Cinderela, foi Brie Evantee no fim do mundo, foi Hela, foi Bob Dylan... ufa...agora, não satisfeita foi a Dra. Lilith Ritter... indicada a Atriz Coadjuvante esse ano no Sag Awards...sem mais!!!
O Beco do Pesadelo é uma obra incrível de Del Toro, envolvente, atraente, sagaz, ágil, prende a atenção, um suspense de tirar o fôlego em sua parte final, uma thriller, uma novela, um romance, uma ótima película... que apenas pecou no ritmo do segundo ato, ato este que é muito bom, bem feito e construído... mas se arrasta um pouco até chegar em seu clímax verdade seja dita.
Ao todo, possui 4 indicações ao Oscar, três delas técnicas, Direção de Arte, Figurino e Fotografia, fora indicações no BAFTA também... mas dificilmente arrebatará um prêmio, ao menos em minha visão.
(16/02/2022 – Kinoplex Itaim)