No Ritmo do Coração (2021) CODA

Por: Marcelo Santiago




Nos últimos anos, filmes que trazem protagonistas surdas e mudas vêm ganhando mais destaque no cenário Hollywoodiano, exemplos esses são Sally Field e sua protagonista em ‘A Forma da Água’, o thriller independente ‘Um Lugar Silencioso’, e mais recentemente ‘Sound of Metal’ original da Amazon Prime estrelado por Riz Ahmed que concorreu ás premiações no ano passado. 

Este ano fui surpreendido com um dos filmes mais belos dessa temporada de premiações, ‘CODA’, que conta a história de uma jovem que nasceu numa família de surdos-mudos e por ser a única que ouve, é encarregada de ajudar a família nos negócios de pesca que é o ganha pão deles. Tendo problemas comuns de uma adolescente, como namoros, escola, bulliyng, timidez, ela tem como seu hobby favorito o canto. Quando lhe aparece uma chance de bolsa em uma faculdade em Berkley, Boston, para cursar música, ela precisa se decidir entre seguir seu sonho ou ficar e ajudar a família nos negócios que vão de vento em pompa. 

Dirigido e roteirizado por Siân Heder, ‘CODA’ é uma releitura de um filme francês chamado ‘A Família Bier’, longa ao qual eu nunca assisti, porém o trabalho de Heder com ‘CODA’ é primoroso, singelo e tocante. 

Heder acerta em adaptar uma história bem singela, de uma família que por mais que sejam surdo-mudos, é uma família comum como qualquer outra. Boa parte do filme se dá na linguagem dos sinais, entre Ruby (Emilia Jones) e sua família, e a interação entre eles é tão natural, que em nenhum momento você estranha isso em tela, e em menos de 10 minutos vê-los se comunicando na linguagem dos sinais será algo normal pro espectador. 

Porém, outro acerto de Heder é nos fazer ter empatia e nos colocar no lugar das pessoas que são surdo-mudos, temos muitas cenas chave onde praticamente somos colocados dentro do mundo deles, ou dentro da perspectiva de opinião deles, fazendo com que aprendamos bastante sobre o ponto de vista deles para com a sociedade comum que não possui nenhum tipo de deficiência, e como isso pode afetar um pouco suas relações sociais.

Algo muito interessante do filme é o fato de Ruby sonhar em cantar, e o fato dela cantar muito bem (méritos de Emilia Jones, como canta bem essa menina), tão bem que seu professor Bernardo Villalobos (Eugenio Derbez, perfeito no papel) pode lhe conseguir uma bolsa na faculdade, mas como ela pode convencer seus pais a ir para Boston... se eles não sabem se ela realmente canta bem? É um contra ponto super interessante no filme, onde justamente numa família de surdo-mudos a única que escuta, canta maravilhosamente bem, mas está entrelaçada nas obrigações profissionais da família que depende da mesma para tocar os negócios, afinal sem ela, não há comunicação entre eles e os clientes. Daí vem o nome ‘CODA’(Child of Deaf Adults) traduzindo: Criança de Adultos Surdos(e o fato de eu odiar o nome em português do filme). 

Mesmo com essas diferenças entre eles, são uma família normal como qualquer outra, com problemas comuns, retratados no filme, como o ciúme do irmão misturado com a sensação de incapacidade, pois não é enxergado pela família, que não o acha apto a cuidar dos negócios justamente pelo fato de não escutar... o esgotamento de Ruby em ser a intérprete da família, impedindo-a de fazer novas amizades, de começar um relacionamento amoroso, ou de cursar uma faculdade...e os pais que acabam se desconectando dos demais residentes, pois não falam nem ouvem... fora as desavenças familiares tão comuns em qualquer família 

Indicado ao Globo de Ouro de Filme Drama, na minha opinião, ‘CODA’ não é sequer 5% dramático, na verdade o filme é muito mais musical, e isso é mais do que evidente, e cômico, com muitas cenas e situações engraçadas, em sua maioria protagonizadas por Frank (Troy Kotsur), pai de Ruby... ‘CODA’ na verdade é muito mais emocionante e tocante, ele é uma aventura gostosa de uma família surdo-muda que possui uma filha “CODA”, e suas relações tocam o espectador e emociona, passando longe da dramaticidade. Ao meu ver foi erroneamente indicado no (irrelevante) Globo de Ouro, se enquadrando mais na categoria de Filme Comédia/Musical. Muito provavelmente teria perdido para ‘West Side Story’, mas era a categoria mais sensata. 

Impossível não se emocionar com a jornada de Ruby e sua família, o filme vai te tocando e emocionando bem aos poucos, e destaco duas das cenas que me ganharam no longa, que são as mais bonitas: 

            1.       Quando Ruby se apresenta no coral da escola com seu vestido vermelho dado pela mãe, e canta ao lado de Miles (FERDIA WALSH-PEELO) a canção “You All I Need Too Get By” (o dueto deles é lindo demais por todo o filme, linda canção, linda letra, de tirar o fôlego). No meio da apresentação o som desaparece e temos a mesma percepção de realidade de Frank, Jackie e Leo... eles olham ao redor e sabem que ela é ótima ao ver as reações das pessoas a eles cantando, é uma cena linda demais que nos coloca nos sapatos dos pais dela, e temos um pequeno vislumbre do que é ser surdo.

2.       Quando Frank, na parte de trás de uma picape, pede a Ruby para que ela cante a música do coral para ele, e quando ela canta ele sente a vibração das cordas vocais dela pelo pescoço, e ele pede para que ela cante com mais ênfase, e a letra tem tudo a ver com o sentimento dela para com a família... cena linda e emocionante demais, algo tão simples, que derruba qualquer espectador.

  

Emilia Jones está estupenda como a jovem Ruby, já é uma artista completa, atua bem, canta maravilhosamente, já fala a língua dos sinais, toca, dança... é o coração do filme, nos ganha já nas primeiras cenas, têm carisma de sobra, e consideramos sua personagem como nossa amiga, ou parente... da vontade entrar no filme e abraça-la e ajudá-la.

Está indicada no Critics Awards na categoria de Jovem Ator/Atriz. Já é minha favorita, mesmo tendo que conferir os demais indicados.

Troy Kotsur, que faz Frank, é perfeito e assim como Marlee Maitlin e Daniel Durant, são surdo-mudos na vida real mas dentre os três, Frank de sobressai... é engraçado, desenvolto, está a vontade no papel, nem parece que está atuando. Tem uma quimíca ótima com Marlee, e também com Emilia (principalmente com ela), e é nele que, pelo menos no meu caso, eu me enxerguei... é a partir do sentimento dele, do amor dele pra com a filha, que nós, take a take, vamos nos emocionando. Grande ator que justissimamente está indicado por Ator Coadjuvante no Spirit Awards, Satellite Awards, Critics e Sags, tendo perdido prêmio no Globo de Ouro.

Marlee Maitlin também está ótima como a mãe de Ruby, Jackie, sua cena com ela na cama contando como foi quando ela nasceu é bem tocante, mas ela não é tão exigida assim no filme, o mesmo valendo para Daniel Durant, que faz Leo, porém por mais que ele não seja tão exigido, sua atuação é ótima e seu personagem tem papel central na família, fora que sua química com Amy Forsyth, que faz Gertie, em cena é ótima e engraçada.

Marlee foi indicada ao Satellie Awards por Atriz Coadjuvante.

Pra mim, um ator que foi impecável em sua atuação no longa foi Eugenio Derbez, que fez o professor Bernardo (ou Mr. V) de Ruby. Inteligente, versátil, carismático, amoroso, rígido, Eugenio é uma aula de atuação, e com certeza um ótimo pianista, só pode ter sido ele mesmo tocando as músicas de Bernardo no filme. É muito gostoso vê-lo em cena, e ele deu vida ao Bernardo de uma forma única, que nenhum outro ator conseguiria ter feito. Já virei fã de alguém tão talentoso como Eugenio é.

‘CODA’, além das indicações individuais já citadas, também concorre a Melhor Filme no Critcs Awards e no Satellite Awards, concorrendo também a Elenco em Filme no SAG’s.

Também concorre a Roteiro Adaptado no Satellite e no Critics Awards.

‘CODA’ foi uma grata supresa para mim, não esperava mesmo algo tão comovente e emocionante como o filme foi, méritos todo de Siân Heder, visionária que sabia exatamente o que queria de cada um dos atores, para chegar ao tom que almejava com o longa, e nos entregar um conto leve, engraçado, esperançoso, emocionante, reconfortador. Não tem nada de mais que você já não tenha visto em qualquer outro filme na vida, numa sessão da tarde qualquer, ou na locadora em tempos antigos... mas tem um tempero especial que só assistindo para saber do que estou falando.

Um filme independente de muita força e personalidade, com personagens cativantes e fortes, humanos e defeituosos como eu e você... um dos mais belos e singelos filmes dessa temporada de premiações, e com toda a certeza, o meu favorito para levar o principal prêmio (Melhor Filme) em todas as premiações vindouras, incluindo o BAFTA (meu preferido) e o Oscar (o mais cobiçado).

Obrigado pela experiência Siân Heder, você emocionou muita gente e com certeza influenciou muita outras pessoas a buscar aprender a linguagem de sinais.

 

(assistido em 30/12/2021 – reassistido 30/01/2022 – Amazon Prime)