Dir: Bong Joon Ho






O PARASITA QUE HÁ EM TODOS NÓS!! 

Por: Lúcio Hiko

 

Bong Joon Ho tem uma carreira bem peculiar no cinema, seus filmes sempre apresentam personagens que nos fazem refletir acerca do mundo em que vivemos e o Diretor habilmente faz isso através de críticas sociais aliadas ao drama pincelado com tons de crueldade que são inerentes a humanidade, com isso construindo cenas que nos remetem as necessidades primárias do ser, porém sua violência nunca é gratuita, logo sua abordagem nunca se torna panfletária, pois ele foge de visões maniqueístas ao nos trazer personagens que estão inseridos em determinado meio social, mas utiliza-se de metáforas e que nos leva a não fazer julgamentos simplistas sobre o que vemos na tela, assim não influenciando o que os espectadores enxergam. 

Com Parasita (2019), o Diretor alcançou a maturidade do seu cinema, tratando de vários temas em apenas um filme, indo do macro ao micro e retornando sempre que a história assim o pedia, não à toa que o filme foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e fez história sendo o primeiro filme falado em língua estrangeira a ganhar o Oscar de melhor filme, o cineasta traz em sua Obra todos os elementos já vistos antes em sua filmografia, mas indo além, ele que já havia escrito o roteiro de Okja em parceria com Jin Won Han, que ficou encarregado da segunda unidade em Okja; e mostra uma grande evolução ao dirigir um filme mais completo e que se baseia quase que exclusivamente em diálogos fora a cadência mais lenta, podendo assim ser mais reflexivo na estrutura do drama e que tendo esse ‘’respiro’’ permite o envolvimento que a película exige. 

Falando da estrutura narrativa do filme, que nós é trazida de maneira linear a partir de duas famílias que estão estrategicamente colocadas em campos exatamente opostos e são cada uma a sua maneira o foco da história. Começando pelos Kim, uma família pobre que vive dos conhecidos ‘’bicos’’ como dobrar caixas de pizza e que mal possui dinheiro para se alimentar; e no outro espectro os Park, uma família abastada e que acaba empregando, por indicação, o jovem Ki-woo (Woo-sik Choi), para o papel de tutor de inglês da filha mais velha deles, a insegura Da-hye (Ji-so Jung). A diferença das classes sociais surge exatamente quando ao mostrar as disparidades gigantes que separam as duas famílias, que num primeiro plano apresenta um lado não tão conhecido ou mesmo escondido da Coreia do Sul — da extrema pobreza, até a periferia das grandes cidades — apenas para depois nos mostrar o verdadeiro abismo que existe entre elas, esses pontos são colocados de forma orgânica e denotam o trabalho do Diretor de mostrar as diferenças gritantes, porém nunca mostrando os motivos para isso, enfocando em outras questões. 

Mas não demora muito para que possamos ver que a família Kim é trapaceira, embora não sejam exatamente pessoas de má índole, justamente nisso reside outra das grandes sacadas do Diretor, pois o tipo de infração que eles comentem sempre é colocada pelo roteiro como uma forma fácil e rápida de ganhar dinheiro para que eles possam subir na cadeia social. Os contrastes existentes entre os espaços físicos está bem demarcado através das estruturas das residências desde o tamanho e o formato da casa e até nas cores que o desenho de produção e a fotografia definiram para cada um. Assim que enxergamos os Kim em seu ambiente familiar, percebemos as tonalidades escuras, mesmo em cenas diurnas, privilegiando enquadramentos que reforçam a falta de espaço e a sensação de confinamento, indo mais longe esses mesmos planos indicam um local apertado, onde esses indivíduos são destituídos de humanidade, sendo vistos como insetos, pragas ou para ser mais exato: 

Parasitas. 

O filme contém várias cenas que ficarão para sempre guardadas na memória, podemos selecionar por exemplo quando a família amontoada em seu habitat, decide se entregar à fumigação gratuita, mas que de forma simbólica já faz a ligação que eles não passam de insetos naquele espaço onde não deveriam existir pessoas morando, em contraponto quando temos as cenas da mansão dos Park,  o design da casa, criada por um famoso arquiteto, tem um espaço extremamente grandioso e que se demonstra convidativo, com cores que ficam entre marrom e bege no interior e com bastante iluminação, nos mais diferentes tons. Neste espaço, os habitantes se perdem em meio a grande sala que possibilita uma sensação falsa que nos remete a uma gama de sentimentos que soam como fingimentos, outra questão que o roteiro irá desenvolver, como uma pantomina, traçada pelo modo que os muito ricos “são bondosos e ingênuos demais porque têm muito” e um local onde os pobres não podem perder uma chance sequer para tirar proveito, de se propagar e se "infestar". Mas tudo isso funciona sempre pois existem diversas cenas que corroboram com esse estado de parasitação, uma vez que quanto mais o roteiro se desenvolve, mais podemos perceber as marcas sombrias do que vem a seguir. 

Outro ponto alto do filme, são os excelentes diálogos que são construídos, afiados e incrivelmente fluídos e aliados a uma estupenda atuação de todo o elenco, desde a primeira cena até o tenso final. E é justamente nessa construção da história que vemos essa escalada da família por essa suposta pirâmide social  que nos cativa desde o início, pois não é usado de nenhum artifício para mascarar o que acontece, tentando iludir o público, muito pelo contrário, ficamos sempre a par dos planos e isso torna a jornada mais instigante, sempre imaginando a hora que tudo pode dar errado, a trama nos torna cúmplices e por vezes nos pegamos torcendo por eles, principalmente com os diálogos do pai Kang-ho Song, que é o ator favorito do Diretor e protagonizou a maioria dos seus filmes anteriores. 

O filme como um todo, nos apresenta uma busca da família por aceitação e crescimento na sociedade que nunca é plenamente satisfatória, quando o patriarca da família Kim indaga se o marido da abastada a ama, fica claro o desconforto com a pergunta, como se até os sentimentos compartilhados por eles, não fossem mais do que meras convenções sociais e que a felicidade não passa apenas de mais um degrau da escada familiar como um meio de convivência, Parasita acaba sendo o trabalho mais maduro e menos radical do sul-coreano Joon-ho Bong, aqui mais conhecido do público brasileiro por filmes como Memórias de um assassino (2003), considerado por muitos como sua Obra Prima e o Hospedeiro (2006), além de Mother — A busca pela verdade (2009) e Okja (2017).  

Uma curiosidade que cabe aqui, justamente esse filme anterior foi o pivô de uma grande discussão ao ser apresentado no Festival de Cannes de 2017, depois que o cineasta Pedro Almodóvar, presidente do Júri, declarou no início do evento que achava um disparate premiar um filme que não seria exibido nos cinemas. A produção realizada pela Netflix, que fora realizada para ser vista apenas naquela plataforma (o filme ainda se encontra no catálogo).  

Voltando ao filme, acompanhamos a Saga da família pobre que só de conseguir o emprego já se vê como privilegiada, afinal o cenário de comparação é a miséria que os cerca. Nessa sociedade contemporânea, a pior tragédia não é ser explorado, mas sim não ser apto nem ao menos para isso, tanto que o filho falsifica o diploma para dar aulas de inglês, pois não conseguiu chegar à faculdade. Os pequenos empreendimentos familiares não deram em nada um após o outro. Restou-lhes um serviço precário, feito artesanalmente em sua própria casa, onde aceitam todo tipo de humilhações, mas que a alternativa seria infinitamente pior, porém ao serem aceitos na ‘’Casa Grande’’ como serviçais, eles vislumbram a grande chance de abandonar esta precarização. Seus inimigos são a concorrência, que precisa ser eliminada a todo e qualquer custo e que seria um Tema central tratado no futuro pelo Cineasta Park Chan-wook em Other Choice. 

O filme traça muitos paralelos, Parasita explora para além de seu filmes anteriores, existe aqui um maior refinamento na construção da narrativa e na problematização da sociedade como um todo, mesmo que a crítica seja mais diluída que nos filmes anteriores, ela ganha mais contundência ao não ser moralista. O Diretor acerta justamente por não polarizar e deixar para quem assiste muitas das questões em aberto, os problemas centrais, a pobreza, o desemprego e a falta de perspectiva das famílias da Coreia do Sul, são apresentados de maneira direta. Porém mesmo que haja empatia com os protagonistas, não há condescendência. Eles são golpistas, que se deixam levar pela vida. Quando tudo parece ruir, não há arrependimento, muito menos redenção, o pai diz que não há planos possíveis para os miseráveis e por conta disso o que resta é a mais pura sobrevivência. O filme também traz várias pautas sutis que o Diretor já havia trabalhado em seus filmes anteriores, um exemplo se encontra no Hospedeiro que caminha entre o horror e a comédia, ao retratar o enfrentamento de um monstro, criado a partir de um crime ambiental. Novamente a história é o pano de fundo para uma crítica mordaz do funcionamento da sociedade coreana. 

Parasita acaba por mostrar que o núcleo familiar dos Kim que comete todas essas vigarices que acabam virando uma bola de neve de situações que vão se sucedendo, ignorando suas consequências apesar de tudo o que se percebe é que a motivação por trás de tudo era trabalhar!! Não existiam pessoas querendo "destruir algo" ou "roubar". Apesar dos sonhos do rapaz apaixonado ao imaginar como seria entrar para a família, fica claro como eles viam nisso uma forma de transpor a barreira de "casta"/classe social, onde almejavam apenas ter uma vida decente, não ficar milionários, há exemplos de filme onde essa ascensão social era diferente como no Talentoso Ripley. Algo que se destaca é a aparente gentileza dos ricos, denotada pelos diversos diálogos e/ou situações sutis, em contraponto temos às cenas tristes dos personagens pobres que foram uma opção do Diretor para retratar as contradições de classes cada vez mais absurdas. 

Então o filme trabalha a partir de alguns contrapontos, onde vemos as pequenas tragédias dos pobres em comparação com à vida dos ricos, mas o Diretor aproxima as duas famílias, pois os patrões não são mostrados como um inimigo, mas sim um ideal, mesmo que inalcançável. Mas tal ironia não é cínica, mas sim trágica. Joon-ho Bong transita pela tragicomédia, onde ele traz a discussão com inteligência sobre o complicado e nem sempre claro confronto entre classes sociais na sociedade contemporânea. Pois o que poderia ser pior do que não ser uma mercadoria atraente no mundo do consumismo desenfreado?? 

O conflito entre as famílias, mesmo que não seja direto, se estabelece nestas pequenas diferenças do cotidiano, como no caso da chuva, que é motivo de felicidade para a família rica, pois irá proporcionar um dia agradável para uma festa na mansão no dia seguinte, mas essa mesma chuva é motivo de desespero para a família pobre, que acaba por perder tudo na inundação. Existem outras cenas como quando o pai da família pobre após ser aceito como motorista, é exaltado por sua presença pouco invasiva, quase invisível, embora seu cheiro sempre esteja presente. O mesmo cheiro que percebido pelo patrão, comenta que sentiu nas poucas vezes em que andou no metrô ( que para eles seria o equivalente a nossa lotação ); então depois de muitas cenas que mostravam que o plano deles corria bem, chegamos ao ponto crucial do filme, com a volta da antiga governanta que funciona como uma puxada de tapete, um soco no estômago, justamente quando parecia que estava tudo correndo dentro dos planos, tudo vira de cabeça para baixo novamente e os Kim se veem em uma situação limite, pois assim como na vida, em questão de segundos eles ficam a mercê de uma nova descoberta e essa ‘’queda’’ será o primeiro passo rumo ao inferno social que ditará o ritmo da reta final da obra que vinha sempre nos antecipando com uma gama de reviravoltas ao inserir um novo personagem que vai fazer com que se choquem os dois núcleos na disputa de poder, aliado a um sentimento de vingança e pela tentativa de retomada do território pela antiga governanta. Isso bagunça as já tensas relações sócio-econômicas vistas até aqui, tudo mostrado com um recorte que mescla humor ácido, mas que se dissipa rapidamente, para nos colocar em dúvida sobre quem era o verdadeiro parasita nessa situação, trazendo a discussão para o nível das relações parentais, matrimoniais e até de como vai funcionar tudo a partir deste momento. 

O filme que foi marcado sempre por duas cadências que se chocam, através de vários simbolismos como a pedra familiar que ao final da Obra é recolocada no rio, nos remete diretamente ao fato da impossibilidade da ascensão social, como não relacionar com a punição de Sísifo que foi condenado por toda a eternidade, para rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. Essa analogia com a expressão "trabalho de Sísifo", traduzida para nosso contexto atual, denota a esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso, assim como um infinito ciclo que além de não levarem a nada, se provam irresistíveis de qualquer tentativa de desistência ou mesmo recusa. 

Para finalizar, revisitando a filmografia do Diretor, há que se destacar que na divulgação do filme ao responder entrevistas, o Diretor relatou que enquanto seu filme O Expresso do Amanhã era um filme sobre corredores, quando começou a desenvolver o argumento de Parasita, que escreveu o roteiro com Jin Won Han, tinha em mente um filme sobre escadarias, fora esse comparativo, a declaração de Bong só vem a confirmar a intenção do filme de ser uma montanha-russa de gêneros, esse sobe e desce de expectativas e surpresas é proposital, como se cada degrau, também fosse uma nova situação onde poderá haver um tombo, a partir dos enquadramentos precisos que sempre dividem os personagens em cena, como que se houvesse uma ‘’parede’’ que os separasse devido a diferença de classe social a que pertencem e principalmente na composição de cenas que são quadros em movimentos, como quando o filho mais novo volta para sua casa na cena da chuva e percebe que quanto mais ele desce para perto de sua casa, mais o nível da agua sobe, sendo um prenúncio da tragédia que os espera. 

Após o inevitável embate das duas famílias no que podemos chamar de ‘’Duelo Final’’, onde não há vencedores, o filme corta para um final que tanto pode ser lido como esperançoso como pode ser lido como cínico, pois ele se torna ambíguo, ao abrir uma dupla via de interpretação para o que assistimos em tela. Embora fique até certo ponto clara a mensagem a ser passada, ainda assim persiste a intenção referente a “sonho e/ou desejo” onde podemos pensar que existe uma chance de ascender a certas camadas sociais. O que se pode afirmar com certeza é que Bong Joon Ho, mais que problematizar a questão social, nos lançou a questão em um âmbito mais amplo ao nos convidar a se perguntar onde começa e onde termina o limite de quem parasita quem?? 

 

Nota: 10/10 

Parasita (Gisaengchung / 기생충) – Coreia do Sul, 2019 

Direção: Bong Joon Ho 

Roteiro: Bong Joon Ho, Jin Won Han 

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Kang Echae, Jeong Esuz, Andreas Fronk, Hyun-jun Jung, Ik-han Jung, Ji-so Jung, Jeong-eun Lee, Ji-hye Lee, Joo-hyung Lee, Hyo-shin Pak, JaeWook Park, Keun-rok Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park 

Duração: 132 min.