Antonioni transformou um desaparecimento sem solução em
uma das rupturas fundamentais do cinema moderno.
Quando Anna desaparece durante uma viagem de barco pelas
ilhas Eólias, A Aventura parece estabelecer com bastante clareza o
problema que deverá conduzir sua narrativa. Uma mulher estava entre amigos,
desembarcou em uma pequena ilha rochosa e, pouco depois, já não pode ser
encontrada. Começam as buscas, surgem hipóteses, percorrem-se caminhos
possíveis. Claudia, sua amiga, e Sandro, seu companheiro, assumem
progressivamente o centro da procura. Para o espectador, existe uma pergunta
inevitável: o que aconteceu com Anna?
Michelangelo Antonioni, entretanto, não está particularmente interessado em responder a essa pergunta. O gesto decisivo de A Aventura, realizado em 1960, consiste justamente em permitir que aquilo que parecia constituir a razão de existência do filme perca gradualmente sua importância. Anna continua desaparecida, mas a investigação deixa de comandar a narrativa. Claudia e Sandro continuam se deslocando, porém seus movimentos já não obedecem exclusivamente à necessidade de encontrá-la. Entre os dois surge uma aproximação afetiva, depois um desejo, e a história que acreditávamos estar acompanhando começa a se transformar diante de nós.
Não existe um momento preciso em que o filme anuncia essa
mudança. Antonioni não encerra uma narrativa para iniciar outra. O
desaparecimento simplesmente vai deixando de ocupar o lugar que imaginávamos
reservado a ele, até que percebemos algo desconcertante: continuamos assistindo
a um filme que parece ter abandonado a própria história.
Essa sensação de abandono não é uma falha da narrativa. É o
princípio que a organiza.
A PROMESSA DE UMA HISTÓRIA
Durante décadas, o cinema narrativo havia aperfeiçoado
maneiras de orientar o espectador através dos acontecimentos. Personagens
desejavam alguma coisa, obstáculos impediam que a conseguissem, decisões
provocavam consequências e conflitos estabeleciam direções relativamente
identificáveis para a história. Mesmo quando não era possível prever exatamente
o que aconteceria, geralmente compreendíamos aquilo que precisava acontecer
para que o filme pudesse avançar.
Não se tratava de uma regra absoluta. A história do cinema
anterior a 1960 está repleta de experiências que desafiaram essas convenções, e
o neorrealismo italiano, particularmente importante para a formação de
Antonioni, já havia demonstrado que acontecimentos aparentemente banais, tempos
de espera e percursos sem resolução podiam adquirir uma relevância
cinematográfica própria. O que A Aventura faz, portanto, não pode ser
compreendido como uma invenção surgida repentinamente.
Sua importância está na radicalidade com que reorganiza
essas possibilidades.
O desaparecimento de Anna possui todas as características
necessárias para funcionar como motor de uma narrativa tradicional. Existe uma
pessoa desaparecida, existem pessoas procurando por ela e existe uma pergunta
cuja resposta parece capaz de encerrar o conflito. Antonioni utiliza essa
expectativa para estabelecer uma espécie de contrato com o espectador e, pouco
a pouco, deixa de cumpri-lo.
A busca não termina porque Anna foi encontrada. Também não
termina porque sua morte foi comprovada ou porque algum personagem solucionou o
mistério. Ela simplesmente perde intensidade. Outras preocupações ocupam o
espaço que antes lhe pertencia e, quando isso acontece, percebemos que nossa
expectativa de resolução talvez dissesse mais sobre a maneira como aprendemos a
assistir a filmes do que sobre aquilo que Antonioni pretendia narrar.
QUANDO NÃO ACONTECER TAMBÉM SE TORNA ACONTECIMENTO
Se retirarmos de uma narrativa a obrigação de avançar
continuamente em direção à solução de um conflito, surge imediatamente outro
problema: o que colocar no tempo que se abre?
Antonioni responde observando.
Em A Aventura, caminhar pode ser tão importante
quanto chegar. Esperar pode ocupar um espaço que outro filme eliminaria na
montagem. Uma conversa pode terminar sem produzir a informação necessária para
o acontecimento seguinte. Um personagem pode entrar em determinado lugar e
permanecer ali sem que sua presença desencadeie algo que reconheçamos
imediatamente como ação dramática.
Esses momentos foram frequentemente associados aos chamados
tempos mortos, expressão que pode ser enganosa se entendida literalmente. O
tempo de Antonioni está longe de estar morto. O que desaparece é a obrigação de
justificar cada instante pela função que ele desempenha no desenvolvimento da
intriga.
Enquanto aparentemente pouco acontece, observamos Claudia
hesitar diante do desejo que sente por Sandro, percebemos a facilidade com que
ele transfere sua atenção de uma mulher para outra e acompanhamos relações que
parecem incapazes de adquirir estabilidade. Pequenas mudanças de comportamento
passam a possuir um peso que uma narrativa mais orientada pela ação talvez
reservasse aos grandes acontecimentos.
A pergunta fundamental deixa então de ser apenas "o que
aconteceu?" e passa a incluir outra possibilidade: o que está acontecendo
com essas pessoas enquanto esperamos que alguma coisa aconteça?
Essa mudança ajuda a compreender por que a lentidão de
Antonioni não pode ser reduzida a uma questão de ritmo. Um filme não se torna
moderno simplesmente porque demora mais para contar sua história. O que está em
jogo é uma transformação da hierarquia narrativa. Aquilo que antes poderia ser
considerado intervalo passa a constituir parte essencial da experiência.
QUANDO O ESPAÇO COMEÇA A FALAR
Essa transformação também modifica profundamente a relação
entre os personagens e os lugares que ocupam.
Na sequência da ilha, as rochas não funcionam apenas como
cenário para a procura de Anna. Elas parecem progressivamente dominar as
pessoas que caminham sobre elas. A escala dos corpos diante da paisagem, os
vazios que separam os personagens e a maneira como Antonioni os distribui
dentro do quadro produzem uma sensação de isolamento que nenhum diálogo
precisaria explicar.
Essa lógica continua quando o filme abandona a ilha.
Cidades, ruas, praças, hotéis, igrejas, edifícios e interiores passam a
interferir constantemente na percepção que temos das relações. Antonioni
utiliza a arquitetura não apenas para localizar a ação, mas para construir
visualmente distâncias que já existem entre seus personagens.
Há algo importante nessa mudança. Quando a narrativa deixa
de fornecer explicações contínuas sobre aquilo que os personagens sentem, a
imagem precisa assumir uma parcela maior desse trabalho. Um afastamento dentro
do enquadramento, um corpo isolado diante de uma construção ou uma personagem
observada através de uma abertura arquitetônica podem sugerir relações que o
roteiro não transforma em declarações.
O espaço deixa, assim, de ser o lugar onde a história
acontece para participar da própria construção do sentido.
Essa característica se tornaria uma das marcas mais
reconhecíveis do cinema de Antonioni. Seus personagens frequentemente parecem
habitar ambientes que não conseguem verdadeiramente ocupar. Estão cercados por
paisagens, edifícios e objetos, mas existe uma dificuldade persistente em
estabelecer vínculos duradouros tanto com os lugares quanto com as pessoas.
Em A Aventura, essa sensação encontra sua expressão
mais evidente na própria ausência que desencadeia o filme.
ANNA DESAPARECE, MAS NÃO VAI EMBORA
Uma das consequências mais interessantes da estrutura criada
por Antonioni é que Anna pode desaparecer fisicamente sem jamais desaparecer
completamente da narrativa.
Claudia era sua amiga. Sandro era seu companheiro. A relação
que começa a surgir entre os dois não existe independentemente dela. Cada
aproximação carrega alguma forma de culpa, hesitação ou desconforto porque
ocupa o espaço deixado por alguém cuja situação permanece desconhecida.
Antonioni realiza então uma inversão particularmente
perturbadora. No início, perguntamos onde está Anna. Com o passar do tempo,
outra pergunta começa a se impor: como é possível que sua ausência tenha
deixado de comandar a vida daqueles que estavam tão próximos dela?
Talvez esse seja um mistério muito mais difícil de resolver.
Uma investigação sobre desaparecimento pressupõe que existe
uma verdade esperando para ser descoberta. Anna pode estar viva ou morta, pode
ter partido voluntariamente ou sofrido algum acidente. Em qualquer desses
casos, imaginamos que exista uma resposta objetiva, ainda que o filme decida
não revelá-la.
O comportamento de Claudia e Sandro pertence a outro
território. Não existe uma explicação equivalente para o desejo, para a culpa
ou para a velocidade com que alguém pode deixar de ocupar o centro emocional da
vida de outra pessoa. É justamente quando abandona a possibilidade de
solucionar o primeiro mistério que Antonioni começa a investigar o segundo.
O VERDADEIRO ENIGMA ESTÁ NOS PERSONAGENS
É comum associar Antonioni à incomunicabilidade, conceito
que certamente ajuda a compreender parte de sua obra, mas que também pode
empobrecê-la quando utilizado como explicação suficiente. Os personagens de A
Aventura não são simplesmente pessoas incapazes de conversar. Eles falam,
desejam, procuram, aproximam-se e afastam-se. O problema parece residir em algo
mais profundo: a dificuldade de transformar essas aproximações em vínculos
capazes de permanecer.
Sandro é particularmente revelador. Arquiteto que abandonou
ambições artísticas para dedicar-se a trabalhos mais lucrativos, ele parece
carregar uma insatisfação que não consegue formular completamente. Sua relação
com Anna já demonstrava sinais de desgaste antes do desaparecimento, e a
aproximação com Claudia não resolve aquilo que havia de instável nele.
Claudia, por sua vez, vive uma contradição que Antonioni se
recusa a organizar em termos morais simples. Ela deseja Sandro e
simultaneamente percebe a violência implícita nesse desejo. A amiga
desapareceu, não sabemos se está viva, e ainda assim uma nova relação começa a
ocupar o espaço da anterior.
Não existe uma trajetória psicológica perfeitamente ordenada
que explique essa transformação. As emoções mudam antes que os personagens
consigam compreendê-las. É precisamente por isso que a estrutura descontínua do
filme encontra sua coerência mais profunda: uma narrativa instável observa
pessoas incapazes de garantir estabilidade aos próprios sentimentos.
A ausência de Anna deixa então de representar apenas aquilo
que não sabemos. Ela passa a revelar a fragilidade daquilo que acreditávamos
conhecer.
CANNES E O ESCÂNDALO DE UMA HISTÓRIA QUE NÃO AVANÇAVA
Quando A Aventura foi apresentado no Festival de
Cannes de 1960, parte da plateia reagiu negativamente. A sessão tornou-se
célebre pela hostilidade dirigida ao filme, embora a recepção crítica
rapidamente tenha caminhado em outra direção e a obra tenha recebido o Prêmio do
Júri.
É tentador transformar esse episódio em uma das narrativas
favoritas da história do cinema: a obra-prima inicialmente incompreendida que
posteriormente conquista seu lugar no cânone. O caso, entretanto, torna-se mais
interessante quando observamos aquilo que provocou o desconforto.
Antonioni confrontava expectativas profundamente
incorporadas à experiência de assistir a uma história. O filme apresentava um
desaparecimento e não o solucionava. Iniciava uma investigação e permitia que
ela se dissolvesse. Alongava momentos que poderiam ter sido eliminados.
Dedicava atenção a espaços e comportamentos que não pareciam fazer a narrativa
avançar. Mesmo o relacionamento que progressivamente substitui a busca por Anna
recusava a estabilidade que poderia fornecer uma nova direção dramática.
O desconforto fazia parte da experiência porque A
Aventura exigia que o espectador reconsiderasse aquilo que entendia por
desenvolvimento narrativo.
Pouco tempo depois, o que havia provocado estranhamento
passaria a ser reconhecido como uma das manifestações decisivas do cinema
moderno.
DEPOIS DE A AVENTURA
Seria exagerado afirmar que A Aventura inaugurou
sozinho uma nova maneira de fazer cinema. Transformações dessa dimensão nunca
pertencem a um único filme. No final dos anos 1950 e início dos anos 1960,
diferentes cinematografias estavam questionando simultaneamente convenções
herdadas do cinema clássico. A Nouvelle Vague francesa, o cinema moderno
italiano e outras experiências europeias e asiáticas produziam novas relações
com a montagem, o tempo, o espaço, os personagens e a própria ideia de
narrativa.
Ainda assim, poucos filmes condensaram essa mudança de
maneira tão radical e visível quanto A Aventura.
Depois dela, tornou-se mais difícil considerar determinadas
convenções como necessidades naturais da narrativa cinematográfica. Uma
história podia apresentar perguntas e não respondê-las. Um personagem podia
perseguir um objetivo e abandoná-lo. Um acontecimento aparentemente central
podia perder importância. O tempo podia ser utilizado para observar em vez de
simplesmente avançar. O espaço podia produzir sentido sem precisar servir
diretamente à ação. A ambiguidade podia permanecer até depois do último plano.
Essas possibilidades atravessariam grande parte do cinema
moderno e continuariam reaparecendo, sob formas muito diferentes, no cinema
contemporâneo. Não porque todos os cineastas que as utilizaram tenham seguido
Antonioni, mas porque A Aventura se tornou uma das demonstrações
históricas mais poderosas de que essas escolhas podiam sustentar um
longa-metragem.
A mudança talvez seja mais profunda do que uma simples
substituição de regras. Antonioni ajudou a modificar a posição do espectador
diante do filme. Em uma narrativa convencional, grande parte de nossa atenção
está orientada para aquilo que acontecerá em seguida. Em A Aventura,
essa expectativa progressivamente deixa de ser suficiente. Precisamos observar
aquilo que está diante de nós sem a garantia de que receberá posteriormente uma
explicação.
O espectador deixa de ser apenas alguém que acompanha uma
história e passa a participar mais ativamente da construção de seu sentido.
UMA HISTÓRIA NÃO PRECISA CHEGAR AONDE PROMETEU
No início de A Aventura, uma mulher desaparece e
queremos saber onde ela está. Antonioni compreende perfeitamente a força dessa
pergunta. É justamente por compreendê-la que pode deixá-la para trás.
Quando percebemos que talvez nunca encontremos Anna, já
estamos envolvidos em outra investigação, embora o filme jamais a tenha
anunciado formalmente. Tentamos compreender Claudia, Sandro, o desejo que nasce
entre eles, a culpa que acompanha esse desejo e a facilidade perturbadora com
que os seres humanos reorganizam suas vidas em torno de uma ausência.
Nenhuma dessas questões possui uma solução comparável àquela
que esperávamos para o desaparecimento.
Talvez seja essa a ruptura mais duradoura de A Aventura.
Antonioni não demonstrou simplesmente que um filme podia terminar sem explicar
um mistério. Demonstrou algo mais radical: uma narrativa podia abandonar o
caminho que parecia ter prometido ao espectador porque, durante o percurso,
havia encontrado algo mais importante para observar.
O desaparecimento de Anna parecia ser a história. Aos
poucos, descobrimos que era a abertura através da qual outra história poderia
ser vista.
Mais de seis décadas depois, a experiência continua
desconcertante porque ainda carregamos conosco muitas das expectativas que
Antonioni decidiu enfrentar. Queremos que acontecimentos tenham consequências,
que perguntas produzam respostas e que histórias saibam para onde estão indo. A
Aventura não rejeita simplesmente esses desejos. Utiliza-os para nos fazer
perceber que o cinema pode existir também quando eles deixam de ser
satisfeitos.
Entramos no filme procurando uma mulher desaparecida. Quando
ele termina, continuamos sem saber onde Anna está, mas talvez tenhamos
compreendido por que Antonioni deixou de procurá-la.
A verdadeira aventura estava justamente em descobrir até onde o cinema poderia continuar depois que a história que esperávamos já não estava mais lá.