O QUE TRANSFORMA UM FILME EM ACONTECIMENTO?
Num momento em que ir ao cinema deixou de ser um hábito
automático, alguns lançamentos ainda conseguem produzir uma sensação decisiva:
é preciso assistir agora.
Na Edição #5 da FILMOTECA – Revista de Cinema,
perguntamos se as salas de cinema estão em crise. A queda de público e a
concorrência do streaming revelaram uma mudança importante: assistir a um novo
filme já não significa necessariamente comprar um ingresso. O espectador sabe
que pode esperar algumas semanas ou meses e encontrá-lo em casa.
Para investigar essa questão, a Filmoteca analisou uma
amostra de 76 filmes lançados entre 2010 e 2025, aleatoriamente sorteados entre os maiores
resultados mundiais de bilheteria e as maiores apostas em orçamento de produção
de cada ano. A comparação entre grandes sucessos e grandes investimentos que
ficaram abaixo das expectativas revelou que algumas explicações aparentemente
óbvias dizem menos do que imaginávamos.
Estrelas e grandes diretores podem ajudar, mas seu poder de
convocação depende de haver público disposto a responder. Singularidade também
não garante nada: aquilo que parece diferente pode despertar curiosidade ou
simplesmente estranheza. Mesmo a experiência cinematográfica perdeu parte de
seu poder de diferenciação. Grandes efeitos, som envolvente, IMAX e sequências
espetaculares tornaram-se características comuns aos blockbusters. E, entre
produções de orçamento elevado, campanhas publicitárias gigantescas são
praticamente uma condição de entrada no jogo.
Uma variável, porém, apareceu repetidamente: o capital
prévio.
Reconhecimento, entretanto, não é o mesmo que demanda. Uma
marca pode ser conhecida por milhões de pessoas sem que milhões estejam
esperando por um filme baseado nela.
O capital acumulado também precisa encontrar uma proposta
de valor para o agora. O novo lançamento deve oferecer alguma razão para
transformar predisposição em desejo imediato. Depois, entra a ativação:
a capacidade de fazer com que o lançamento deixe de ser apenas um filme
disponível e se transforme em algo de que vale a pena participar.
Nesse sentido, Barbie tornou-se exemplar. A campanha
não criou do zero sua relação com o público. Conseguiu ativar um capital
cultural existente, oferecendo uma nova experiência e transformando a estreia
em comportamento coletivo.
A investigação sugere, portanto, uma sequência: capital
prévio, proposta de valor e ativação produzem o potencial de urgência.
Mas a indústria controla esse processo apenas até certo
ponto.
O acontecimento potencial havia sido construído. A reação do
público ajudou a desmontá-lo.
O movimento inverso também existe. Filmes como Zootopia
e Sing, sem depender inicialmente de uma franquia cinematográfica
estabelecida, receberam CinemaScore A e encontraram no público uma força capaz
de ampliar sua trajetória. Em outros casos, crítica, festivais e premiações
funcionam como certificadores. Django Unchained e The Revenant,
por exemplo, continuaram acumulando atenção enquanto avançavam pela temporada
de prêmios.
Talvez isso ajude a enxergar a crise das salas por outro
ângulo. O público não necessariamente perdeu o interesse pelo cinema. Mas sua
decisão tornou-se mais seletiva. Num mundo em que esperar significa, muitas
vezes, apenas assistir depois no streaming, os filmes disputam algo mais
difícil do que atenção.
Disputam a capacidade de transformar vontade em urgência.
Hoje, um filme não precisa apenas convencer o público de
que merece ser visto. Precisa convencê-lo de que merece ser visto agora.
Leia o ensaio completo na BIBLIOTECA DA FILMOTECA.