<= Lucas Joel



Coyote vs. Acme (2026)







Após incontáveis inundações de remakes, reboots e revivals sem alma, que utilizam de fórmulas repetitivas, Coyote vs. Acme surge como um verdadeiro respiro dessa leva. Dirigido por Dave Green, baseado em uma ideia de James Gunn, o filme vai muito além daquela nostalgia boba. Ele transforma a eterna perseguição do desenho animado em uma comédia jurídica super afiada e emocionante, conseguindo resgatar o espírito do humor físico dos Looney Tunes enquanto cutuca, de um jeito bem atual, os monopólios empresariais modernos.

A sinopse é genial justamente por ser simples: cansado de explodir e de se machucar com produtos defeituosos, o Coyote decide processar a poderosa corporação ACME em um tribunal humano. É nesse contexto hilário que o humor nasce do choque entre o absurdo dos desenhos e a burocracia do mundo real. Além de tudo isso, o Coiote mesmo mudo, continua se comunicando só por placas e olhares e ainda assim ganha uma profundidade surpreendente. Ele deixa de ser apenas um predador azarado e vira o símbolo do consumidor frustrado, enquanto a ACME personifica as grandes e intocáveis empresas de tecnologia dos dias atuais.

Já por parte do elenco humano, Will Forte entrega um advogado azarão super cativante, trazendo um tom de seriedade que combina perfeitamente com o humor físico e a expressividade muda do protagonista animado. Do outro lado, John Cena também se destaca como o representante da empresa, sendo aquele vilão caricato na medida certa.

A história ganha ainda uma camada extra de ironia quando refletimos sobre os próprios bastidores turbulentos da produção. O filme quase foi cancelado pelo estúdio por manobras fiscais, espelhando de forma metalinguística a luta do protagonista contra uma grande corporação. Esse triunfo histórico de sobrevivência comercial dá ao projeto um charme a mais que vai além da nostalgia, e olha que as bigornas, as dinamites e até aquela clássica gravidade que só funciona quando o personagem olha para baixo honram demais o legado de Chuck Jones.

No fim das contas, o filme equilibra perfeitamente a diversão para as crianças com uma sátira inteligente para os adultos. Mais do que uma bela homenagem, Coyote vs. Acme virou uma metáfora da sua própria sobrevivência fora das telas. É uma vitória da persistência criativa e do carinho do público contra as decisões frias e corporativas de Hollywood.