Sabe
aquele filme que parece um abraço morno e ao mesmo tempo, te dá um chacoalhão
sobre como estamos vivendo depressa demais? É exatamente essa a sensação ao
assistir As Cores do Tempo, o novo trabalho do Cédric Klapisch.
Nesse novo
drama o diretor francês brinca com o tempo ao criar uma história que se divide
entre a calmaria de 1895 e a correria caótica dos nossos dias. O ponto de
encontro dessas duas realidades é um casarão antigo e charmoso na Normandia.
Quatro primos distantes, que mal se conhecem, herdam a propriedade e descobrem
que ela está na mira de uma grande construtora, que quer derrubar tudo para
fazer o estacionamento de um shopping. Só que, ao revirarem os cômodos, eles
encontram diários, segredos de família e um quadro misterioso de uma
antepassada chamada Adèle.
O que mais
brilha no filme é o visual. A fotografia é linda e não precisa de nenhum filtro
forçado para nos fazer viajar no tempo. O passado é filmado com calma, os
planos demoram mais na tela, lembrando quase uma pintura de Monet. Já o
presente é todo picotado, rápido, com o ritmo frenético de quem vive rolando a
tela do celular. Logo no início uma cena provocativa resume perfeitamente essa descritiva:
o protagonista Seb fica indignado quando sugerem mudar digitalmente a cor de
uma tela histórica só para combinar com o look da namorada numa foto do
Instagram. É o choque puro entre o que é eterno e o que é descartável.
Talvez seu
único deslize seja tentar abraçar o mundo. Com tanta subtrama romântica e
brigas de família, os primos Celine, Abdelkrim e Guy, que são ótimos
personagens, terminam um pouco superficiais. Temas profundos, como a luta de
Adèle para ser uma mulher independente no século XIX, mereciam um pouco mais de
tempo para respirar e nos emocionar de verdade.
Ainda
assim, esses tropeços não tiram o encanto da obra. As Cores do Tempo é um filme
delicioso e cheio de afeto. As transições entre os séculos são tão naturais que
a gente nem sente o tempo passar. É uma daquelas pequenas joias poéticas que
nos lembram de desacelerar e no fim das contas, gera um belo recado simples e
bonito: para entender a bagunça do nosso presente, a gente precisa aprender a
parar e admirar o que veio antes de nós.