O que transforma uma revelação em um verdadeiro plot
twist?
Começamos esta conversa tentando responder a uma pergunta
aparentemente simples: toda revelação surpreendente é um plot twist?
Nossa primeira impressão foi que não.
Uma revelação pode nos surpreender muito, acrescentar uma
informação que desconhecíamos e até produzir um enorme impacto emocional. Mas
começamos a perceber que, para nós, o plot twist exige alguma coisa além da
surpresa. Ele precisa modificar uma compreensão que já tínhamos sobre a
história.
Foi por isso que O Sexto Sentido apareceu tantas
vezes em nossa conversa. A revelação de Cole para a mãe é extremamente
emocionante, mas não muda a maneira como compreendíamos o filme. Descobrir que
Malcolm estava morto faz exatamente isso. De repente, situações que já havíamos
acompanhado precisam ser reconsideradas.
Chegamos então a uma ideia que atravessou boa parte da nossa
discussão: um plot twist não muda apenas aquilo que acontecerá depois. Ele
muda alguma coisa naquilo que já vimos.
Mas não achamos que precise mudar tudo. Pode mudar nossa
compreensão de um personagem, de uma relação ou de uma situação fundamental. Clube
da Luta e As Aventuras de Pi nos ajudaram a pensar nisso. Depois da
revelação, não assistimos mentalmente às cenas anteriores da mesma maneira.
Foi aí que apareceu outra questão: se o filme pretende mudar
nossa compreensão do que já vimos, ele deveria ter nos dado alguma
possibilidade de perceber a verdade?
Aqui houve bastante aproximação entre nossas opiniões. Gostamos da ideia de descobrir que as pistas estavam lá e nós não soubemos interpretá-las. Voltamos novamente a O Sexto Sentido. Depois que conhecemos o segredo de Malcolm, conseguimos reconhecer comportamentos, situações e detalhes que estavam diante de nós desde o início.
Isso nos pareceu diferente de simplesmente esconder do
espectador uma informação decisiva e apresentá-la no final.
Talvez uma das sensações mais interessantes provocadas por
um bom plot twist seja justamente esta: a informação estava diante de nós e
não percebemos o que ela significava.
Só que essa conclusão criou um problema que não havíamos previsto quando começamos a conversar. Se as pistas são importantes, o que acontece quando começamos um filme já sabendo que existe um plot twist?
Alguns de nós perceberam que isso muda bastante a
experiência. Passamos a desconfiar dos personagens, observar objetos, prestar
atenção a determinadas falas e procurar aquilo que o filme está escondendo. Um
de nós contou que aconteceu exatamente isso com Incêndios: não sabia
qual era a reviravolta, mas sabia que existia uma, começou a procurá-la e
acabou antecipando a revelação.
Não conseguimos dizer que procurar pistas seja necessariamente ruim. Pode ser divertido. Existe um prazer em tentar resolver o quebra-cabeça antes do filme. Mas também percebemos que alguma coisa pode se perder. Em vez de entrarmos na história que está sendo contada, podemos começar a assistir ao roteiro funcionando.
Talvez por isso tenhamos gostado tanto da ideia de duas experiências diferentes. Na primeira vez, sem conhecer a revelação, podemos ser conduzidos pelo filme. Na segunda, sabendo o que acontecerá, podemos observar como fomos conduzidos.
A Criada, O Sexto Sentido e Clube da Luta
apareceram como filmes capazes de oferecer essa segunda experiência. Já sabemos
o segredo, mas começamos a perceber detalhes, escolhas e pistas que haviam
passado despercebidos.
Um dos nossos participantes reviu Clube da Luta durante
a própria conversa e chegou a uma conclusão simples: a experiência foi
diferente, mas não menos prazerosa.
Foi então que chegamos à dúvida que acabou encerrando nossa
conversa.
O que precisa restar de um filme quando a surpresa acaba?
Aqui já não pensamos todos da mesma maneira. Parte de nós acha que um grande filme precisa sobreviver ao próprio plot twist. Quando conhecemos a revelação, ainda precisam existir personagens, direção, fotografia, atmosfera, diálogos e outras razões para continuarmos interessados. Se descobrir o segredo elimina completamente o interesse pela obra, talvez ela dependesse demais daquele momento.
Também apareceu entre nós a preocupação de que uma
reviravolta muito poderosa possa acabar "sequestrando" o filme. Tudo
o que havia antes fica em segundo plano e a obra passa a ser lembrada apenas
por sua revelação.
Mas outra parte de nós não viu nenhum problema nisso. Se aceitamos que um filme seja lembrado principalmente por sua fotografia, sua montagem ou sua direção, por que não poderia ser lembrado por um roteiro extraordinariamente eficaz e por um plot twist memorável?
Incêndios e Garota Exemplar apareceram
justamente nesse momento. Seus roteiros podem estar fortemente organizados em
torno das reviravoltas, mas isso não precisa ser entendido como um defeito. O
plot twist também é um recurso narrativo e pode ser uma das grandes realizações
de um filme.
E aqui não conseguimos chegar a uma única resposta.
Talvez um grande filme com plot twist precise continuar oferecendo muito quando já conhecemos seu segredo. Talvez existam também filmes cuja grande realização esteja justamente em construir uma surpresa tão poderosa que ela se torne inseparável de nossa lembrança da obra. Continuamos divididos sobre isso.
Mas terminamos a conversa menos divididos sobre outra coisa. Uma surpresa, por maior que seja, não nos parece suficiente para definir um plot twist. A reviravolta começa a se distinguir quando aquilo que descobrimos modifica a maneira como compreendemos algo que já havíamos visto. E gostamos especialmente quando, depois da revelação, podemos voltar ao filme e perceber que ele havia deixado diante de nós elementos que não soubemos interpretar.
Começamos querendo descobrir o que era um plot twist. Terminamos descobrindo que nossa maior dúvida talvez seja outra: quanto de um filme precisa continuar existindo quando já sabemos aquilo que ele mais queria esconder de nós?
Ainda não temos uma resposta. E talvez não precisemos ter.
Clube de Cinema Seu Manolo