Há filmes que parecem pedir mais tempo do que estamos
dispostos a dar, e isso não tem necessariamente relação com sua duração. Um
filme de pouco mais de uma hora pode exigir mais da nossa atenção do que outro
com o dobro do tempo. Os acontecimentos são poucos, as cenas permanecem, as
paisagens ocupam a tela e os personagens observam, esperam, caminham. Em algum
momento, pode surgir aquela sensação conhecida: parece que nada está
acontecendo.
É a partir dela que começa este primeiro capítulo de Um
Novo Olhar.
O que podemos estar perdendo
Existe um vasto território do cinema que estabelece uma relação diferente com o tempo. Filmes como Era uma Vez em Tóquio, de Yasujirō Ozu, Stalker, de Andrei Tarkóvski, e Jeanne Dielman, de Chantal Akerman, assim como as obras de cineastas como Tsai Ming-liang, Béla Tarr e Kelly Reichardt, encontraram na espera, na repetição, na rotina e na observação uma matéria tão importante quanto os acontecimentos de uma história.
Descobrir esse cinema pode ampliar consideravelmente o
universo de experiências de um espectador. Há formas de emoção, beleza, tensão
e contemplação que dependem justamente de um tempo que não esteja continuamente
ocupado por novas informações. A dificuldade é que, para chegar a elas, muitas
vezes precisamos atravessar uma resistência inicial.
Quando os acontecimentos diminuem, nossa atenção pode se
dispersar. O celular começa a parecer mais atraente, surge a impaciência e, em
alguns casos, até o sono. Não é preciso considerar essa reação um defeito do
espectador. Grande parte do cinema que consumimos nos habituou a reconhecer com
facilidade uma história avançando quando alguma coisa nova acontece. Quando
esse mecanismo se torna menos presente, podemos simplesmente não saber ainda
onde procurar o movimento do filme.
É isso que vamos experimentar neste capítulo. Não se trata
de aprender a gostar de filmes lentos, mas de descobrir se há algo diante de
nós que talvez estejamos deixando de perceber.
Vamos começar com 75 minutos
Não faria sentido iniciar esse percurso com uma experiência de três ou quatro horas. Nosso primeiro filme será Viajo Porque Preciso,Volto Porque Te Amo, dirigido por Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, justamente porque seus 75 minutos permitem enfrentar essa resistência em uma escala bastante administrável.
José Renato é um geólogo que atravessa o sertão nordestino
realizando um levantamento para uma obra que pretende construir um canal.
Durante a viagem, trabalha, observa lugares e encontra pessoas. Há, porém, uma
particularidade importante: nunca o vemos. Conhecemos José Renato pelas imagens
que surgem durante o percurso e, principalmente, por sua voz.
À primeira vista, estamos acompanhando uma viagem de
trabalho. Por enquanto, isso é tudo o que precisamos saber.
Também não será necessário assistir aos 75 minutos de uma só
vez. Vamos dividir a experiência em três partes, com duas pequenas
interrupções. Elas não servirão para explicar o filme, mas para permitir que
você observe o que está acontecendo com sua própria percepção antes de
continuar.
Prepare seu Caderno de Experiência
Esta experiência será acompanhada por um pequeno registro
pessoal. Em dois momentos, você interromperá o filme e responderá a algumas
perguntas. Haverá ainda um último conjunto depois da sessão.
Essas perguntas não constituem um teste sobre Viajo
Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e não existem respostas que esperamos
que você encontre. A finalidade do registro é preservar aquilo que você
percebeu em diferentes momentos da experiência.
Antes de começar, abra o Caderno de Experiência do
Episódio 1, copie integralmente seu conteúdo e cole em um documento do Word
ou em outro editor de texto. Salve esse documento e mantenha-o disponível
durante a sessão.
Preencha agora apenas o bloco ANTES DE COMEÇAR. Evite ler as perguntas das etapas seguintes e, quando avançar no filme, não volte para modificar aquilo que já escreveu. Uma resposta dada aos 24 minutos não precisa continuar representando sua opinião depois do final. Essa possível diferença é justamente uma das coisas que queremos observar.
ABRIR O CADERNO DE EXPERIÊNCIA
Uma chave para experimentar
Quando acompanhamos uma história, costumamos reconhecer seu
movimento por aquilo que acontece. Alguém toma uma decisão, encontra outra
pessoa, descobre uma informação, enfrenta um problema ou muda de situação. Um
acontecimento conduz ao seguinte e temos a sensação clara de que a narrativa
está avançando.
Existe, porém, outra possibilidade. Pouca coisa pode
acontecer enquanto muita coisa muda. Pode mudar aquilo que um personagem
deseja, sua maneira de observar o mundo, sua relação com outras pessoas ou
nossa própria percepção sobre ele. Algo que vimos no início também pode
adquirir outro significado sem que nenhum grande acontecimento tenha ocorrido.
Durante este filme, portanto, vamos manter próximas duas
perguntas:
O QUE ACONTECE × O QUE MUDA
Não é necessário procurar símbolos, interpretar cada imagem
ou tentar descobrir o que os diretores quiseram dizer. A proposta é bem mais
simples: perceber se aquilo que acontece e aquilo que muda caminham
necessariamente juntos.
Enquanto assiste à primeira parte, preste atenção
especialmente à maneira como José Renato fala, àquilo para que dirige sua
atenção e à forma como parece se relacionar com a viagem. Não é preciso fazer
anotações durante a projeção. Apenas assista tendo essas questões em mente.
PARTE 1 | O que está acontecendo?
Assista ao filme desde o início até aproximadamente 24
minutos. O ponto de parada ocorre logo depois de José Renato refletir sobre
o fim de um casamento. Como o tempo pode variar ligeiramente entre diferentes
versões do filme, utilize essa passagem como referência.
Quando chegar a ela, interrompa a sessão e abra seu Caderno
de Experiência. Responda apenas ao bloco DEPOIS DA PARTE 1, sem
pesquisar informações sobre o filme e sem voltar às cenas para conferir aquilo
que escreveu. Depois, retorne a esta página.
Você percorreu quase um terço do filme. Talvez, se alguém
lhe pedisse agora uma relação de tudo o que aconteceu, a lista não fosse muito
extensa. Mas existe outra maneira de avaliar o percurso já realizado: comparar
o homem dos primeiros minutos com aquele que você conhece agora.
A estrada avançou muitos quilômetros e José Renato continua
viajando. A questão que levaremos para a segunda parte é saber se ele também
continua no mesmo lugar.
PARTE 2 | O que está mudando?
Continue o filme a partir de aproximadamente 24 minutos.
Agora, além de acompanhar os acontecimentos, observe novamente a voz de José
Renato, as coisas que atraem sua atenção e a maneira como se relaciona com a
própria viagem.
Assista até aproximadamente 51 minutos. O segundo
ponto de parada acontece depois que José Renato retorna à ideia que dá título
ao filme e passa a relacionar-se com ela de outra maneira. Quando identificar
essa passagem, interrompa novamente a sessão e responda ao bloco DEPOIS DA
PARTE 2 do Caderno.
Só depois volte para cá.
Estradas, lugares, pessoas e deslocamentos continuam
ocupando boa parte das imagens. Algumas situações podem até produzir uma
sensação de repetição. A pergunta agora é se repetir significa necessariamente
permanecer no mesmo lugar.
Você já registrou sua percepção e não precisa responder
novamente aqui. Falta apenas o trecho final, mas a pergunta que o acompanha já
é diferente daquela com que começamos: se alguma coisa está mudando, para onde
essa mudança está levando José Renato?
PARTE 3 | Onde chegamos?
Assista agora de aproximadamente 51 minutos até o final.
Nesta última parte, não há uma nova orientação. As duas primeiras etapas já
forneceram tudo aquilo de que você precisa para acompanhar o restante da
viagem.
Quando terminar, não procure imediatamente críticas ou
explicações sobre o filme. Abra primeiro seu Caderno e preencha, nesta ordem,
os blocos DEPOIS DA PARTE 3, VOLTANDO AO PRIMEIRO OLHAR e MEU
NOVO OLHAR. Depois, retorne ao texto.
O que aconteceu e o que mudou?
Chegou o momento de colocar lado a lado as duas perguntas
que nos acompanharam. Seu Caderno pediu que você identificasse acontecimentos
importantes e, separadamente, mudanças importantes. Compare agora aquilo que
escreveu.
Talvez os acontecimentos descrevam melhor sua experiência.
Talvez as mudanças sejam mais importantes para explicar o percurso que acabou
de acompanhar. Também é possível que, depois de assistir ao filme, a separação
entre essas duas coisas já não pareça tão simples.
Não procuramos uma conclusão determinada. A experiência
serve para testar uma ideia: quando dizemos que em determinado filme “não
acontece nada”, podemos estar utilizando apenas a quantidade de acontecimentos
como medida de seu movimento. Uma história, porém, também pode avançar porque
alguém, alguma relação ou nossa própria compreensão vai deixando de ser aquilo
que era.
Isso não significa que o filme tenha deixado de ser lento
para você. Talvez você tenha sentido impaciência ou perdido a atenção em
determinados momentos. Talvez considere algumas passagens demoradas demais.
Também é perfeitamente possível compreender melhor a proposta da experiência e
concluir que não gosta do filme.
Um Novo Olhar não pretende substituir seu gosto pelo
gosto de outra pessoa. A mudança que nos interessa é mais modesta. Existe uma
diferença entre terminar dizendo “não gosto dessa maneira de contar uma
história” e concluir simplesmente que “não acontece nada”. Perceber essa
diferença já significa ter uma possibilidade a mais diante do próximo filme que
utilizar o tempo dessa maneira.
Agora converse com o seu próprio percurso
Há uma razão para termos pedido que as respostas fossem
registradas durante a sessão. O documento que você tem agora não contém apenas
sua opinião final sobre o filme. Ele preserva aquilo que você percebeu em
momentos diferentes.
Quem respondeu ao primeiro bloco ainda não conhecia aquilo
que aconteceria na segunda parte. Quem respondeu ao segundo ainda não tinha
visto o final. Como as respostas anteriores não foram corrigidas
posteriormente, o Caderno permite observar possíveis mudanças que a memória,
sozinha, talvez apagasse.
É esse material que utilizaremos agora.
Salve o Caderno de Experiência preenchido. Em
seguida, abra uma nova conversa com uma inteligência artificial, anexe o
documento e envie o Prompt Filmoteca abaixo. A função dessa conversa não será
analisar o filme para você, mas ajudá-lo a confrontar aquilo que escreveu em
momentos diferentes.
PROMPT FILMOTECA | UM NOVO OLHAR #1
Estou participando da experiência UM NOVO OLHAR, da
Filmoteca Seu Manolo.
Assisti a Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo
dividido em três partes e, durante a experiência, preenchi o Caderno de
Experiência que estou anexando a esta conversa.
Leia integralmente o documento antes de iniciar nossa
conversa.
O objetivo desta experiência foi investigar minha percepção
diante de um filme em que aparentemente poucos acontecimentos ocorrem. A chave
proposta foi distinguir duas perguntas: “O que acontece?” e “O que muda?”
O Caderno foi preenchido progressivamente. Minhas respostas
depois da Parte 1 foram escritas antes de eu assistir à Parte 2. As respostas
da Parte 2 foram escritas antes da Parte 3. As respostas finais foram escritas
somente depois de terminar o filme. Portanto, não trate o documento como um
conjunto de respostas independentes. A ordem em que aparecem registra meu olhar
em diferentes momentos da experiência.
Sua função é me ajudar a perceber se houve alguma mudança na
maneira como acompanhei o filme. Compare especialmente o que eu inicialmente
reconhecia como acontecimentos, aquilo que comecei a identificar como mudanças,
minha percepção de José Renato ao longo das três partes, minha reação ao ritmo
do filme e aquilo que registrei em MEU NOVO OLHAR.
Procure mudanças, permanências, dúvidas e contradições entre
minhas próprias respostas. Quando encontrar uma relação significativa, mostre-a
utilizando aquilo que eu mesmo escrevi e me ajude a pensar sobre ela.
Não avalie minhas respostas como certas ou erradas. Não faça
uma análise crítica do filme, não explique a linguagem cinematográfica
utilizada pelos realizadores, não me diga o que eu deveria ter percebido e não
tente me convencer de que o filme é bom ou de que eu deveria gostar de filmes
lentos.
Se eu continuar não gostando do filme ou desse tipo de
experiência, considere isso uma conclusão legítima. Também não presuma que meu
olhar necessariamente mudou. Se minhas respostas mostrarem que a resistência
permaneceu, ajude-me a perceber e compreender essa permanência.
Conduza a conversa progressivamente, fazendo apenas uma
pergunta de cada vez e esperando minha resposta antes de continuar. Use cada
nova resposta para decidir qual deverá ser a próxima pergunta e, sempre que for
pertinente, confronte aquilo que eu disser durante nossa conversa com aquilo
que escrevi anteriormente no Caderno.
O objetivo final não é chegar a uma interpretação correta de
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, mas descobrir se, depois da
experiência, consigo perceber alguma coisa que não percebia antes.
Comece identificando o contraste, a mudança ou a permanência
mais significativa entre minhas primeiras e minhas últimas respostas. Explique
brevemente o que encontrou a partir do que escrevi e faça sua primeira
pergunta.
O próximo desafio
Durante Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo,
tivemos uma companhia importante mesmo sem jamais vermos José Renato. Sua voz
nos permitia acompanhar aquilo que observava, lembrava, desejava e sentia.
Quando havia poucos acontecimentos para orientar nossa atenção, ainda existia
alguém capaz de falar conosco.
No próximo episódio, retiraremos quase completamente esse
apoio.
Em A Tartaruga Vermelha, novamente encontraremos uma
narrativa com poucos acontecimentos e uma relação paciente com o tempo, mas
quase ninguém poderá nos contar aquilo que está acontecendo por dentro. O
desafio aumenta um pouco, enquanto a experiência adquirida neste primeiro filme
permanece conosco.
Episódio 2 | A Tartaruga Vermelha
Um outro caminho também se abre
Neste episódio, não investigamos como Karim Aïnouz e Marcelo
Gomes construíram cinematograficamente aquilo que percebemos. Não era essa a
proposta de Um Novo Olhar. Nosso objetivo foi experimentar uma maneira
diferente de dirigir a atenção para um filme que poderia provocar a sensação de
que pouco ou nada estava acontecendo.
Existe, porém, outra investigação possível. Quando começamos
a compreender enquadramento, montagem, som, espaço, atuação, tempo e outros
elementos da linguagem cinematográfica, podemos perguntar não apenas o que
percebemos, mas também como o cinema conseguiu produzir aquela experiência.
Esse é o território do Laboratório de Leitura do Cinema,
uma experiência complementar da Filmoteca Seu Manolo.
Por enquanto, basta levar deste primeiro episódio uma
pergunta. Da próxima vez que um filme parecer parado, antes de concluir que
nada está acontecendo, talvez valha a pena observar também o que está
mudando.