TRILHA 1 - PASSOS PARA AMPLIAR A CULTURA CINÉFILA
Cap 2 - Por que desenvolver repertório?
No capítulo anterior vimos que não é necessário conhecer centenas de clássicos, dominar a história do cinema ou possuir grande capacidade de análise para ser cinéfilo. O interesse, o entusiasmo ou a paixão pelo cinema podem ser suficientes. Surge então uma pergunta importante: se um grande repertório não é condição para a cinefilia, por que deveríamos nos preocupar em desenvolvê-lo?
A resposta começa pelo próprio significado de repertório. Ele não é simplesmente uma coleção de filmes vistos. Podemos assistir a centenas de títulos concentrados nos mesmos gêneros, períodos, países e formas narrativas. Nossa lista terá crescido muito, mas o território percorrido talvez permaneça relativamente pequeno. Desenvolver repertório significa ampliar progressivamente esse território, incorporando experiências, referências e conhecimentos capazes de estabelecer relações entre aquilo que já conhecemos e aquilo que ainda vamos descobrir.
Essa diferença importa porque repertório não é um objetivo em si mesmo. Seu valor está naquilo que passamos a poder fazer com ele.
No capítulo anterior vimos que não é necessário conhecer centenas de clássicos, dominar a história do cinema ou possuir grande capacidade de análise para ser cinéfilo. O interesse, o entusiasmo ou a paixão pelo cinema podem ser suficientes. Surge então uma pergunta importante: se um grande repertório não é condição para a cinefilia, por que deveríamos nos preocupar em desenvolvê-lo?
A resposta começa pelo próprio significado de repertório. Ele não é simplesmente uma coleção de filmes vistos. Podemos assistir a centenas de títulos concentrados nos mesmos gêneros, períodos, países e formas narrativas. Nossa lista terá crescido muito, mas o território percorrido talvez permaneça relativamente pequeno. Desenvolver repertório significa ampliar progressivamente esse território, incorporando experiências, referências e conhecimentos capazes de estabelecer relações entre aquilo que já conhecemos e aquilo que ainda vamos descobrir.
Essa diferença importa porque repertório não é um objetivo em si mesmo. Seu valor está naquilo que passamos a poder fazer com ele.
MAIS REFERÊNCIAS PARA COMPREENDER O CINEMA
Assistir a um filme isoladamente produz uma experiência. Assistir ao mesmo filme depois de conhecer outras obras pode produzir uma experiência bastante diferente. O filme não mudou. Mudaram as referências que levamos até ele.
Alguém que nunca tenha assistido a um filme noir pode encontrar em Pacto de Sangue um excelente suspense. Quem conhece outros exemplares do gênero e seu contexto histórico poderá perceber também recorrências narrativas, determinadas maneiras de trabalhar luz e sombra, tipos de personagens e escolhas que dialogam com uma tradição cinematográfica.
O mesmo acontece quando conhecemos diferentes autores e cinematografias. O contato com Ozu pode revelar possibilidades de encenação muito diferentes daquelas encontradas em Kurosawa. Fellini e Antonioni oferecem maneiras distintas de representar a sociedade italiana de seu tempo. Conhecer Kiarostami, Panahi e Farhadi permite perceber diferenças importantes mesmo entre cineastas frequentemente reunidos sob a expressão genérica “cinema iraniano”.
Cada nova referência cria possibilidades de relação.
Aos poucos, percebemos que os filmes não existem isoladamente. Eles respondem a tradições, transformam convenções, dialogam com seu tempo e influenciam obras posteriores. Quanto maior e mais diverso nosso repertório, mais elementos temos para reconhecer essas relações.
O repertório não altera os filmes. Amplia aquilo que somos capazes de perceber neles.
Assistir a um filme isoladamente produz uma experiência. Assistir ao mesmo filme depois de conhecer outras obras pode produzir uma experiência bastante diferente. O filme não mudou. Mudaram as referências que levamos até ele.
Alguém que nunca tenha assistido a um filme noir pode encontrar em Pacto de Sangue um excelente suspense. Quem conhece outros exemplares do gênero e seu contexto histórico poderá perceber também recorrências narrativas, determinadas maneiras de trabalhar luz e sombra, tipos de personagens e escolhas que dialogam com uma tradição cinematográfica.
O mesmo acontece quando conhecemos diferentes autores e cinematografias. O contato com Ozu pode revelar possibilidades de encenação muito diferentes daquelas encontradas em Kurosawa. Fellini e Antonioni oferecem maneiras distintas de representar a sociedade italiana de seu tempo. Conhecer Kiarostami, Panahi e Farhadi permite perceber diferenças importantes mesmo entre cineastas frequentemente reunidos sob a expressão genérica “cinema iraniano”.
Cada nova referência cria possibilidades de relação.
Aos poucos, percebemos que os filmes não existem isoladamente. Eles respondem a tradições, transformam convenções, dialogam com seu tempo e influenciam obras posteriores. Quanto maior e mais diverso nosso repertório, mais elementos temos para reconhecer essas relações.
O repertório não altera os filmes. Amplia aquilo que somos capazes de perceber neles.
MAIS REFERÊNCIAS PARA PENSAR O MUNDO
Mas o ganho não termina no cinema.
Um filme pode nos colocar diante de uma sociedade que desconhecemos, de um acontecimento histórico sobre o qual pouco sabemos ou de uma maneira de compreender família, trabalho, amor, religião, envelhecimento, liberdade ou morte muito diferente da nossa.
Isso não significa que assistir a um filme seja suficiente para compreender um país, um período histórico ou uma questão social. O cinema não substitui o estudo. Muitas vezes, porém, pode despertar a vontade de estudar.
Uma obra pode nos levar a procurar um livro, investigar um acontecimento histórico, conhecer uma manifestação artística ou tentar compreender uma questão política, científica, filosófica ou social que até então não despertava nosso interesse.
Há ainda um efeito menos evidente. O contato continuado com experiências e perspectivas diferentes pode colocar algumas de nossas próprias certezas em questão. Aquilo que considerávamos natural pode revelar-se apenas uma entre várias maneiras possíveis de organizar a vida. Um problema que enxergávamos por um único ângulo pode adquirir outras perspectivas.
É nesse sentido que repertório cinematográfico pode contribuir para algo maior: nosso enriquecimento cultural e pessoal.
Não porque os filmes nos forneçam respostas prontas, mas porque podem aumentar o número de referências com as quais formulamos nossas próprias perguntas.
Mas o ganho não termina no cinema.
Um filme pode nos colocar diante de uma sociedade que desconhecemos, de um acontecimento histórico sobre o qual pouco sabemos ou de uma maneira de compreender família, trabalho, amor, religião, envelhecimento, liberdade ou morte muito diferente da nossa.
Isso não significa que assistir a um filme seja suficiente para compreender um país, um período histórico ou uma questão social. O cinema não substitui o estudo. Muitas vezes, porém, pode despertar a vontade de estudar.
Uma obra pode nos levar a procurar um livro, investigar um acontecimento histórico, conhecer uma manifestação artística ou tentar compreender uma questão política, científica, filosófica ou social que até então não despertava nosso interesse.
Há ainda um efeito menos evidente. O contato continuado com experiências e perspectivas diferentes pode colocar algumas de nossas próprias certezas em questão. Aquilo que considerávamos natural pode revelar-se apenas uma entre várias maneiras possíveis de organizar a vida. Um problema que enxergávamos por um único ângulo pode adquirir outras perspectivas.
É nesse sentido que repertório cinematográfico pode contribuir para algo maior: nosso enriquecimento cultural e pessoal.
Não porque os filmes nos forneçam respostas prontas, mas porque podem aumentar o número de referências com as quais formulamos nossas próprias perguntas.
MAIS MANEIRAS DE SENTIR PRAZER
Desenvolver repertório também pode modificar algo muito elementar: aquilo que nos dá prazer quando assistimos a um filme.
Podemos inicialmente procurar cinema principalmente por uma boa história, personagens envolventes, emoção, humor, suspense ou surpresa. Nenhuma dessas formas de prazer precisa desaparecer quando nosso repertório aumenta.
Outras simplesmente se acrescentam.
Podemos começar a apreciar a maneira como um cineasta organiza o espaço, utiliza o silêncio ou constrói o tempo. Podemos encontrar prazer em reconhecer uma referência, perceber uma ruptura narrativa ou descobrir como dois diretores encontraram soluções completamente diferentes para problemas semelhantes.
Isso ajuda a explicar por que nossa relação com determinados filmes pode mudar ao longo dos anos. Uma obra que em outro momento parecia lenta, estranha ou difícil pode revelar novas possibilidades quando voltamos a ela carregando outras experiências.
Desenvolver repertório não significa aprender a gostar de tudo.
Significa ampliar as maneiras pelas quais podemos encontrar interesse e prazer no cinema.
Desenvolver repertório também pode modificar algo muito elementar: aquilo que nos dá prazer quando assistimos a um filme.
Podemos inicialmente procurar cinema principalmente por uma boa história, personagens envolventes, emoção, humor, suspense ou surpresa. Nenhuma dessas formas de prazer precisa desaparecer quando nosso repertório aumenta.
Outras simplesmente se acrescentam.
Podemos começar a apreciar a maneira como um cineasta organiza o espaço, utiliza o silêncio ou constrói o tempo. Podemos encontrar prazer em reconhecer uma referência, perceber uma ruptura narrativa ou descobrir como dois diretores encontraram soluções completamente diferentes para problemas semelhantes.
Isso ajuda a explicar por que nossa relação com determinados filmes pode mudar ao longo dos anos. Uma obra que em outro momento parecia lenta, estranha ou difícil pode revelar novas possibilidades quando voltamos a ela carregando outras experiências.
Desenvolver repertório não significa aprender a gostar de tudo.
Significa ampliar as maneiras pelas quais podemos encontrar interesse e prazer no cinema.
MAIS CONDIÇÕES PARA PARTICIPAR DAS CONVERSAS
Existe também uma dimensão social na cultura cinéfila.
Quem começa a frequentar conversas entre pessoas com repertórios diferentes encontra inevitavelmente referências que desconhece. Cineastas, movimentos, períodos, comparações entre obras e acontecimentos da história do cinema aparecem naturalmente.
Quanto mais nosso repertório se amplia, mais essas conversas se tornam acessíveis. Podemos compreender uma comparação porque conhecemos os filmes mencionados, acrescentar outra referência, formular nossa própria interpretação ou discordar de uma avaliação apresentando razões para isso.
Não se trata de adquirir conhecimento para demonstrar erudição. Trata-se de possuir referências suficientes para participar mais ativamente de uma cultura que também se constrói coletivamente.
Conversar sobre cinema, afinal, é uma das maneiras pelas quais o próprio repertório continua crescendo.
Existe também uma dimensão social na cultura cinéfila.
Quem começa a frequentar conversas entre pessoas com repertórios diferentes encontra inevitavelmente referências que desconhece. Cineastas, movimentos, períodos, comparações entre obras e acontecimentos da história do cinema aparecem naturalmente.
Quanto mais nosso repertório se amplia, mais essas conversas se tornam acessíveis. Podemos compreender uma comparação porque conhecemos os filmes mencionados, acrescentar outra referência, formular nossa própria interpretação ou discordar de uma avaliação apresentando razões para isso.
Não se trata de adquirir conhecimento para demonstrar erudição. Trata-se de possuir referências suficientes para participar mais ativamente de uma cultura que também se constrói coletivamente.
Conversar sobre cinema, afinal, é uma das maneiras pelas quais o próprio repertório continua crescendo.
MAIS AUTONOMIA PARA ESCOLHER
Há ainda outra consequência importante.
Nossas escolhas tendem naturalmente a retornar ao que já conhecemos. Gostamos de determinado gênero e procuramos algo semelhante. Descobrimos um ator ou diretor e seguimos seus trabalhos. As plataformas identificam esses comportamentos e passam a recomendar obras próximas daquilo que já consumimos.
Nada há de errado nisso. O problema aparece quando esse circuito se torna praticamente nossa única fonte de descoberta.
O repertório oferece alternativas.
Um filme pode nos levar a um diretor. O diretor pode despertar interesse por um movimento. Esse movimento pode conduzir a outra cinematografia. Uma referência mencionada em uma entrevista pode nos fazer procurar um filme realizado cinquenta anos antes.
Nesse momento, nossas próprias descobertas começam a indicar o caminho.
Deixamos de escolher apenas entre aquilo que chega até nós e começamos também a procurar aquilo que queremos conhecer.
Há ainda outra consequência importante.
Nossas escolhas tendem naturalmente a retornar ao que já conhecemos. Gostamos de determinado gênero e procuramos algo semelhante. Descobrimos um ator ou diretor e seguimos seus trabalhos. As plataformas identificam esses comportamentos e passam a recomendar obras próximas daquilo que já consumimos.
Nada há de errado nisso. O problema aparece quando esse circuito se torna praticamente nossa única fonte de descoberta.
O repertório oferece alternativas.
Um filme pode nos levar a um diretor. O diretor pode despertar interesse por um movimento. Esse movimento pode conduzir a outra cinematografia. Uma referência mencionada em uma entrevista pode nos fazer procurar um filme realizado cinquenta anos antes.
Nesse momento, nossas próprias descobertas começam a indicar o caminho.
Deixamos de escolher apenas entre aquilo que chega até nós e começamos também a procurar aquilo que queremos conhecer.
REPERTÓRIO NÃO É UMA LISTA A COMPLETAR
Por tudo isso, talvez seja um erro procurar uma lista definitiva de filmes indispensáveis à formação de um cinéfilo.
Existem obras fundamentais para compreender determinados períodos, movimentos e transformações do cinema. Conhecê-las certamente amplia nossas referências. Mas nenhuma lista poderá representar um universo construído por mais de um século de produção cinematográfica em diferentes partes do mundo.
O repertório cresce de maneira mais interessante quando uma descoberta produz outra.
Assistimos a Bergman e sentimos curiosidade por Dreyer. Descobrimos o neorrealismo italiano e começamos a perceber algumas das condições que favoreceram o surgimento da Nouvelle Vague. Um filme sul-coreano desperta interesse por outros períodos daquela cinematografia. Um documentário nos conduz a uma forma de cinema que raramente procurávamos.
Quanto mais variados forem esses caminhos, maior será o conjunto de referências disponível para nossas próximas experiências.
E há uma consequência inevitável: quanto mais conhecemos cinema, maior costuma parecer aquilo que ainda desconhecemos.
Isso não é uma deficiência do repertório. É uma de suas maiores virtudes. Ele não precisa produzir a sensação de domínio. Pode produzir curiosidade.
Talvez seja melhor imaginá-lo como uma biblioteca interior em permanente reorganização. Cada novo filme encontra outros já guardados ali. Alguns se aproximam pelos temas, outros pela linguagem, pelo período histórico, pelas influências ou pela maneira como representam determinada experiência humana. E cada nova relação pode modificar a maneira como compreendemos aquilo que já conhecíamos.
Desenvolver repertório, portanto, não significa simplesmente assistir a mais filmes.
Significa aumentar aquilo que o cinema pode nos oferecer: mais referências para compreender os filmes e o mundo, mais possibilidades de conversa, mais autonomia para descobrir novos caminhos e mais maneiras de encontrar prazer diante de uma tela.
É por isso que o repertório ocupa um lugar tão importante na ampliação da cultura cinéfila.
Por tudo isso, talvez seja um erro procurar uma lista definitiva de filmes indispensáveis à formação de um cinéfilo.
Existem obras fundamentais para compreender determinados períodos, movimentos e transformações do cinema. Conhecê-las certamente amplia nossas referências. Mas nenhuma lista poderá representar um universo construído por mais de um século de produção cinematográfica em diferentes partes do mundo.
O repertório cresce de maneira mais interessante quando uma descoberta produz outra.
Assistimos a Bergman e sentimos curiosidade por Dreyer. Descobrimos o neorrealismo italiano e começamos a perceber algumas das condições que favoreceram o surgimento da Nouvelle Vague. Um filme sul-coreano desperta interesse por outros períodos daquela cinematografia. Um documentário nos conduz a uma forma de cinema que raramente procurávamos.
Quanto mais variados forem esses caminhos, maior será o conjunto de referências disponível para nossas próximas experiências.
E há uma consequência inevitável: quanto mais conhecemos cinema, maior costuma parecer aquilo que ainda desconhecemos.
Isso não é uma deficiência do repertório. É uma de suas maiores virtudes. Ele não precisa produzir a sensação de domínio. Pode produzir curiosidade.
Talvez seja melhor imaginá-lo como uma biblioteca interior em permanente reorganização. Cada novo filme encontra outros já guardados ali. Alguns se aproximam pelos temas, outros pela linguagem, pelo período histórico, pelas influências ou pela maneira como representam determinada experiência humana. E cada nova relação pode modificar a maneira como compreendemos aquilo que já conhecíamos.
Desenvolver repertório, portanto, não significa simplesmente assistir a mais filmes.
Significa aumentar aquilo que o cinema pode nos oferecer: mais referências para compreender os filmes e o mundo, mais possibilidades de conversa, mais autonomia para descobrir novos caminhos e mais maneiras de encontrar prazer diante de uma tela.
É por isso que o repertório ocupa um lugar tão importante na ampliação da cultura cinéfila.
Para refletir
Observe os filmes que você assistiu recentemente. Eles vêm principalmente dos mesmos países, períodos, gêneros e estilos ou estão levando você a territórios que antes conhecia pouco?
Não existe uma combinação correta. A pergunta serve para perceber se sua lista de filmes vistos está apenas aumentando ou se, junto com ela, também estão aumentando as referências e as possibilidades que você leva para cada nova experiência cinematográfica.
Observe os filmes que você assistiu recentemente. Eles vêm principalmente dos mesmos países, períodos, gêneros e estilos ou estão levando você a territórios que antes conhecia pouco?
Não existe uma combinação correta. A pergunta serve para perceber se sua lista de filmes vistos está apenas aumentando ou se, junto com ela, também estão aumentando as referências e as possibilidades que você leva para cada nova experiência cinematográfica.
Próximo capítulo
Como escolher bem os filmes
Se ampliar repertório significa percorrer territórios diferentes, surge uma questão prática: diante de uma quantidade praticamente inesgotável de filmes disponíveis, como escolher aqueles que podem abrir novos caminhos?
Como escolher bem os filmes
Se ampliar repertório significa percorrer territórios diferentes, surge uma questão prática: diante de uma quantidade praticamente inesgotável de filmes disponíveis, como escolher aqueles que podem abrir novos caminhos?