Taís Kerche

Amante do cinema, da literatura, da música e da vida. Não sei falar sobre os filmes de forma teórica ou técnica, mas sei falar o que vejo e sinto. Bora celebrar a sétima arte, bora respirar cinema e sejam bem-vindos ao meu ponto de vista




RESENHAS E CRÍTICAS



Acidente, suicídio ou assassinato? O controle de narrativas em ANATOMIA DE UMA QUEDA (2023), filme de Justine Triet

Texto de Taís Kerche

Gostei do filme? Gostei. Gostei do roteiro? Gostei. Gostei das atuações? Ãhaaammm, são ótimas. Assistiria novamente? Não. “Anatomia de uma queda”, da diretora francesa Justine Triet, é um ótimo e importante filme, mas não me empolgou. 

Na era da pós verdade a qual estamos inseridos, em que todos tentam ter as suas próprias narrativas, que fatos objetivos perdem a importância para apelos e crenças pessoais, e que a verdade acaba se desfazendo de forma líquida, “Anatomia de Uma Queda” vem para nos mostrar na prática, em meio ao caos vivido por uma família, como esse sistema de controle de narrativas pode prejudicá-la. 

A partir da aqui: SPOILER!

Acidente, suicídio ou assassinato? Jamais saberemos. Da mesma forma que jamais saberemos se Capitu traiu ou não Bentinho em Dom Casmurro de Machado de Assis. O filme explora essa questão quando nos deixa sem saber o que aconteceu com Samuel Maleski (Samuel Theis), que é encontrado morte, em frente a própria casa, pelo filho Daniel (Milo Machado Graner). A principal suspeita é sua mulher, Sandra (Sandra Hüller), que estava em casa quando aconteceu o acidente, suicídio ou assassinato. 

Amparada por seu advogado Vincent (Swann Arlaud) que não procura provar os fatos, que mostra não se importar com a verdade quando Sandra diz ser inocente, mas que tenta imaginar todas as narrativas possíveis que a acusação irá apresentar, para escolher a mais defensável, Sandra vai a julgamento. Aqui fica nítido, na postura do advogado, que verdade não importa. Simples assim. Ele abraça a tese, ou melhor, a narrativa de que Samuel cometeu suicídio e segue com ela, agarrado a ela até o fim.

Um longo julgamento se inicia. Nele vemos a acusação ser extremamente apelativa. Ela tenta, a todo momento, mexer com as crenças pessoais do júri, sem apresentar materialidade alguma para provar a sua narrativa de que Sandra tenha assassinado o marido. Chega a ser extremamente irritante para perfis mais pragmáticos. 

As atuações são incríveis. Vale cada minuto das 2h30m em frente a tela. Sandra Hüller dá um show ao transpor suas emoções durante o julgamento, principalmente sua angústia por não dominar a língua francesa e ter que usá-la para contar os fatos e se defender. Milo Machado Graner, o menino que interpreta Daniel, filho de Sandra, que tem a visão muito reduzida devido a um acidente, também nos tira o fôlego já nas primeiras cenas. O seu luto pela morte do pai chega a doer na gente. Sem falar do cachorro, que é um espetáculo à parte. 

Enfim, um filme importante para mostrar o quão difícil é, a cada dia, saber a verdade absoluta de um fato. Se é que, em algum momento, foi possível. No filme, terminamos por saber que Sandra foi absolvida da acusação de ser a assassina, graças a seu filho. Ele apresenta uma hipótese, com resultado de experimentação, de um fato anterior ao assassinato e que corrobora com a tese de que Samuel tenha se suicidado. Detalhe, Daniel é o único que não enxerga.

Para finalizar, gostaria de levantar uma hipótese. Logo no início do filme, Sandra vai com o advogado Vincent ao sótão da casa, local onde o marido estava fazendo uma reforma e de onde ele pode ter caído, se jogado ou ter sido jogado. Ela demonstra não ter intimidade alguma com aquele lugar, se escora nas paredes, toma cuidado onde pisa, demonstra total insegurança, se apoiando e se segurando nas vigas do teto. A sensação é de que ela estava ali pela primeira vez. Creio eu que essa movimentação dela não foi algo aleatório. Foi pensado. Acredito ser esta a prova, para nós espectadores, de que ela nunca esteve ali. Portanto, Sandra, na minha humilde opinião é inocente, assim como Capitu. 




INTERPRETANDO BACURAU de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles

Texto de Taís Kerche

Interpretações são totalmente subjetivas e com toda a subjetividade da qual tenho direito, exponho aqui o que vi no polêmico filme BACURAU, de 2019, dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. 

Quantas mensagens, quanto simbolismo pode um filme nos mostrar? Bacurau nos traz muitos. Nada parece ser ao acaso e acredito que não é. Se você já assistiu ao filme, esse texto é para você. Contém Spoiler.

Ambientado em “alguns anos no futuro”, a história se passa em um povoado fictício do sertão de Pernambuco, que dá nome ao filme.

Um povoado que não está mais no mapa, não pode ser encontrado no Google Maps. Descobrimos essa ausência nos minutos iniciais, junto ao professor Plínio, interpretado pelo excelente Wilson Rabelo. Durante uma aula para crianças da comunidade, ele procura por Bacurau em seu tablete e não o encontra, o que lhe causa espanto, pois sempre esteve ali.  

Logo em seguida, eventos estranhos começam a acontecer. Sem entender, vemos cavalos trotando à noite pelas ruas desertas, o caminhão de água chega ao povoado com três furos de bala não percebidos pelo motorista, um dos membros da comunidade é perseguido por um drone disfarçado de nave espacial, entre outros eventos. Assim como aquela pequena população não está entendendo nada, nós, espectadores, também não. 

Até que o mistério é desvelado. Um grupo de turistas estrangeiros, que está hospedado nos arredores, tem como diversão atirar em pessoas e obviamente, matá-las. Estrategicamente, tentam amedrontar o povoado para que fiquem mais vulneráveis e assim não encontrem resistência quando iniciarem o grande ataque. Entre eles, há dois membros brasileiros, vindos da cidade de São Paulo e que disfarçados de turistas, visitam Bacurau para fazer um reconhecimento de campo. É explícito o ar de superioridade com que olham e tratam a todos. Uma evidente crítica a determinadas pessoas do sul e sudeste do país, que acreditam ser superiores ao Nordeste. Não é por acaso que ficamos sabendo que um deles é ‘assessor do poder judiciário’ e que está disposto a entregar nosso patrimônio aos estrangeiros e realmente tirar Bacurau do mapa. Só que eles não contavam com uma característica imprescindível para a sobrevivência de uma sociedade em tempos de crise, a união, o pensamento coletivo.  

Essa união pode ser vista nas primeiras cenas, quando a personagem Teresa (Bárbara Colen) retorna a Bacurau para o velório da avó e as ruas estão desertas. Todos os cidadãos estão na casa de seu pai, o professor Plínio, velando Carmelita, interpretada pela incrível Lia de Itamaracá, patrimônio cultural do nosso Brasil.

Minutos depois, outra cena nos explica que existe um esquema de segurança. Na entrada da cidade, há um morador que avisa a todos, por mensagem no Whatsapp, quem está chegando, principalmente quando se trata da visita do prefeito, que não mora ali. Ninguém chega sem que todos fiquem sabendo. E quando todos sabem da chegada do prefeito, imediatamente se retiram e deixam a pequena cidade deserta, para deixar claro, que ali, a figura política não é bem quista. Ela é quem traz os males.

Males estes que estão simbolizados com o caminhão da prefeitura despejando livros em frente à escola para que os cidadãos façam uma triagem. Os que “prestam”, irão compor a biblioteca. Quando se trata de alimentação, a prefeitura manda alimentos vencidos e para a saúde, eles distribuem medicamentos que são avaliados pela personagem de Sônia Braga, a Dra. Domingas, como perigosos. Em cena emblemática, ela alerta a comunidade que o remédio recebido é tarja preta e que tem em sua composição um anestésico, que servirá para mergulhar o povo na inércia. O nome do remédio? “Brasol IV”. Ela ainda complementa que quem quiser, pode tomar, é uma questão de escolha, demonstrando que ali há respeito pela vontade individual.

Outro aspecto a ser observado e que faz o coletivo de Bacurau dar certo, a religião. Eles não têm influência religiosa. A única igreja da cidade está fechada e serve como depósito. Em contraponto, eles veneram a sua história e cultura. O único museu é orgulho para a comunidade.

É justamente do museu que retiram as armas para resistirem ao ataque dos turistas estrangeiros e vencerem. A resistência e a vitória vêm da união, do coletivo, do folclore e história de um povo.

Uma noite antes do grande ataque, os atiradores, sorrateiramente, matam uma das crianças e um casal de moradores que resolve fugir. Mesmo que outros da comunidade insistam para que não façam isso, que permaneçam ali, pois não é seguro pegar a estrada à noite, decidem ir. No meio da estrada se deparam com dois atiradores, que friamente disparam metralhadoras contra o carro.  Sozinhos ficaram extremamente vulneráveis. O individualismo não pode dar certo e não é bem quisto em sociedade.

Assim, nessa história não há protagonista. Alguns personagens ficam em evidência, por serem indispensáveis para a sociedade, como o professor Plínio, que representa a educação, o ex guerrilheiro Pacote (Thomas Aquino) que tem um papel de liderança e o antigo líder que está fugido, o Lunga (Silvero Pereira). Este último é adorado por todos, mas precisa se esconder da perseguição do poder público, assim como fez Lampião. É uma homenagem ao cangaço, à história de Pernambuco.

Assim como esses homens têm sua evidência, são indispensáveis as mulheres. Elas são retratadas nesta primorosa película como possuidoras de coragem, sabedoria e zeladoras da história. A medicina é exercida por uma mulher, Domingas. O museu tem como sua curadora Isa (Luciana Sousa), que faz questão de deixar nas paredes marcas de sangue para que todos lembrem o ataque pelo qual cidade passou e resistiu. Como escreveu lindamente a jornalista Lídice Leão em um artigo no Jornal do Brasil  “(...) Que coisa linda aquelas mulheres de Bacurau. Que falam de igual para igual com os homens porque assim são vistas e tratadas. Que são bravas e corajosas. Cheias de charme e autenticidade. Teresa é assim. Com cachos, pele morena, sorriso aberto. Vai para o enterro da avó, mas quando reencontra Bacurau e suas raízes, decide ficar de vez. E incorpora o dia-a-dia do povo com intensidade, alegria, vontade de viver, muita vontade. (...)” Concordo com ela, que coisa linda!

E ela ainda ressalta “(...) ao lado de Domingas em força e poder, está Carmelita, Dona Carmelita, a matriarca que reúne todos os afetos de Bacurau. Assim como a cirandeira Lia de Itamaracá, patrimônio vivo de Pernambuco, doutora honoris causa pela Universidade Federal do estado, que emprestou toda a sua sabedoria, cor e sorriso para Dona Carmelita. A forte ligação entre as duas mulheres fica evidente logo nas primeiras cenas do filme, carregadas de demonstrações da admiração que a população bacurauense nutre por Domingas e Carmelita. (...)”.

Para finalizar, Bacurau é um filme de resistência. Ele resiste ao dizer para nossa sociedade polarizada, que só podemos vencer os desmandos políticos e econômicos coletivamente, unidos. Ele mostra que é olhando para o passado que é possível viver o presente e construir o futuro. Ele reverencia a ciência, a cultura, por meio de demonstrações folclóricas, como a ciranda, o povo do sertão e especialmente o povo nordestino.  Ele resiste quando vence o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, em 2019. Ele resiste quando mostra a nossa história, o verdadeiro Brasil fora do eixo Rio-São Paulo. Ele resiste porque é cinema. 

Link para o artigo de Lídice Leão na íntegra: https://www.jb.com.br/pais/artigo/2019/09/1016870-as-mulheres-de-bacurau.html




DIAS PERFEITOS, de Wim Wenders, é um sutil tapa na cara e alguns pequenos socos no estômago.

Texto de Taís Kerche

O cotidiano de um homem que limpa banheiros públicos em Tokyo é o argumento principal de uma obra prima cinematográfica do alemão Wim Wenders. Dias Perfeitos é um filme simples, rodado em poucos dias, mas que nos coloca para refletir profundamente sobre diversos aspectos da vida e da sociedade em que vivemos, além de nos ensinar a olhar. Isso mesmo, olhar para a vida e para nós mesmos.  

Na tela, vemos um homem, Hirayama (interpretado por Kōji Yakusho), de pouquíssimas palavras, que vive sozinho, fazendo todos os dias as mesmas coisas. Desde a hora em que levanta, até a hora de dormir. Só muda a rotina nos dias de folga. O seu trabalho é limpar os banheiros públicos de Tóquio, o qual faz com maestria e pelo qual tem muito orgulho. Esse é o primeiro tapa. Como alguém pode se orgulhar de limpar banheiros públicos e ainda limpá-los extremamente bem, meticulosamente? Hirayama se orgulha. Em seu carro, tem produtos que ele mesmo compra para limpá-los. Em cada canto do vaso sanitário, da pia, ele usa um espelhinho, para que nenhuma sujeira fique pra trás.

Vivemos em uma sociedade que baliza o valor humano das pessoas pelo cargo ocupado em uma empresa, pelos títulos conquistados, entre outros sinais que são considerados de “sucesso”, quando nos deparamos com um limpador de banheiros públicos como protagonista de um filme, orgulhoso do que faz, vivendo em paz com isso, o soco bem dado no estômago é inevitável. Na nossa mídia, no jornalismo, jamais veremos reportagens mostrando pessoas orgulhosas com trabalhos conceituados socialmente de “menor valor”, por exemplo. No mundo competitivo em que vivemos, estar feliz nessa posição é uma afronta.

Assim como é uma afronta estar feliz e em paz com pouco. O personagem desta película tão singular vive modestamente, sem nenhum tipo de luxo, em um espaço pequeno. Em um cômodo ele dorme, lê, se troca, cuida das suas mudinhas de árvores e no outro, onde há uma pia, escova os dentes e faz uma higiene básica. Tudo extremamente organizado e funcional. E a paz que ele nos passa ali, no seu canto, na sua simplicidade, é tão grande, que chegamos a invejá-lo. Agora, um tapa na nossa cara.

E os tapas não são poucos, mas há também ensinamentos, como por exemplo, quando Hirayama é interrompido por alguém precisando urgentemente usar o banheiro que está limpando. Ele libera rapidamente, não se irrita e aproveita o momento para observar e admirar o que está a sua volta. Um morador de rua que dança livremente, o desenho formado pela copa das árvores, entre outras belezas que por ele não passam despercebidas. Ele nos ensina como olhar para a beleza do cotidiano. Mesmo que esteja no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, o momento é único. “A próxima vez é a próxima vez e o agora é o agora”, com essa frase repetida por ele e a sobrinha, que foge de casa e passa alguns dias com ele, é que a mensagem é verbalizada. Viver o agora é viver. Só ele existe.


Em entrevista ao site “Cinema em Portugal”, Wim Wenders fala sobre a origem de Hirayama “Imaginei um homem que tivera um passado privilegiado e rico e que resvalara [caíra, falira] profundamente. E que então, um dia, quando a sua vida estava no ponto mais baixo, tivera uma revelação, ao observar o reflexo das folhas criado pelo sol que brilhava milagrosamente no buraco do inferno em que ele estava a acordar. A língua japonesa tem um nome especial para essas aparições fugitivas que às vezes surgem do nada: komorebi, a dança das folhas ao vento, projetando-se como um jogo de sombras numa parede à sua frente, fruto de uma fonte de luz existente no universo, o sol. Tal aparição salvou Hirayama e ele escolheu viver outra vida, uma de simplicidade e modéstia.”

E ele tenta capturar esse momento, essas aparições, os komorebi, com uma câmera fotográfica analógica enquanto come um lanche em uma praça onde vai rotineiramente. Nos seus dias de folga, ele leva o filme das fotos da semana para revelar enquanto pega as fotos reveladas da semana anterior. Em casa, separa as melhores, descarta outras e arquiva em latas identificadas ano a ano. Ali, nos damos conta que ele vive a mesma rotina há muito tempo.

Assim como a câmera, tudo a sua volta é analógico, mesmo estando em uma das cidades mais tecnológicas do planeta, Tóquio. Seu celular só faz e recebe ligações. No carro, as músicas que formam a trilha sonora, como a belíssima “Perfect Day” do Lou Reed, que não sai da minha cabeça desde que assisti ao filme e que deu nome a ele, são de fitas cassetes, colocadas com cuidado no toca fitas.

O mesmo cuidado que Hirayama tem com as pessoas ao seu redor e que cruzam o seu caminho. Como o colega Takashi que o coloca em uma situação complicada, sua namorada Aya, a sobrinha Niko, a dona de um minúsculo restaurante frequentado por Hirayama nos seus dias de folga e até quem ele nunca viu, como alguém que deixa um papel com um jogo da velha começado em um dos banheiros. Hirayama aceita jogar e toda vez que vai limpar esse banheiro, há uma nova jogada preenchida. É lindo ver a grandiosidade de Hirayama, sua generosidade com tudo e com todos.

E para terminar, depois de esbofeteados, com o estômago em reviravoltas de tantos socos, quem sabe não aprendemos a viver o agora e a valorizar o que é essencialmente humano? Em ver na rotina, no cotidiano, a beleza de acontecimentos e momentos únicos? Desejar menos e viver mais. A felicidade não está naquilo que adquirimos e nem nos títulos que conquistamos, mas sim na singularidade dos momentos que vivemos e no trabalho do qual nos orgulhamos, seja ele qual for. Que a paz de Hirayama seja encontrada por todos nós. 



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