Gostei do filme? Gostei. Gostei
do roteiro? Gostei. Gostei das atuações? Ãhaaammm, são ótimas. Assistiria
novamente? Não. “Anatomia de uma queda”, da diretora francesa Justine Triet, é
um ótimo e importante filme, mas não me empolgou.
Na era da pós verdade a qual
estamos inseridos, em que todos tentam ter as suas próprias narrativas, que
fatos objetivos perdem a importância para apelos e crenças pessoais, e que a
verdade acaba se desfazendo de forma líquida, “Anatomia de Uma Queda” vem para
nos mostrar na prática, em meio ao caos vivido por uma família, como esse
sistema de controle de narrativas pode prejudicá-la.
A partir da aqui: SPOILER!
Acidente, suicídio ou
assassinato? Jamais saberemos. Da mesma forma que jamais saberemos se Capitu
traiu ou não Bentinho em Dom Casmurro de Machado de Assis. O filme explora essa
questão quando nos deixa sem saber o que aconteceu com Samuel Maleski (Samuel
Theis), que é encontrado morte, em frente a própria casa, pelo filho Daniel
(Milo Machado Graner). A principal suspeita é sua mulher, Sandra (Sandra
Hüller), que estava em casa quando aconteceu o acidente, suicídio ou
assassinato.
Amparada por seu advogado Vincent
(Swann Arlaud) que não procura provar os fatos, que mostra não se importar com
a verdade quando Sandra diz ser inocente, mas que tenta imaginar todas as
narrativas possíveis que a acusação irá apresentar, para escolher a mais
defensável, Sandra vai a julgamento. Aqui fica nítido, na postura do advogado,
que verdade não importa. Simples assim. Ele abraça a tese, ou melhor, a
narrativa de que Samuel cometeu suicídio e segue com ela, agarrado a ela até o
fim.
Um longo julgamento se inicia. Nele
vemos a acusação ser extremamente apelativa. Ela tenta, a todo momento, mexer
com as crenças pessoais do júri, sem apresentar materialidade alguma para
provar a sua narrativa de que Sandra tenha assassinado o marido. Chega a ser
extremamente irritante para perfis mais pragmáticos.
As atuações são incríveis. Vale
cada minuto das 2h30m em frente a tela. Sandra Hüller dá um show ao transpor
suas emoções durante o julgamento, principalmente sua angústia por não dominar
a língua francesa e ter que usá-la para contar os fatos e se defender. Milo
Machado Graner, o menino que interpreta Daniel, filho de Sandra, que tem a visão
muito reduzida devido a um acidente, também nos tira o fôlego já nas primeiras
cenas. O seu luto pela morte do pai chega a doer na gente. Sem falar do
cachorro, que é um espetáculo à parte.
Enfim, um filme importante para
mostrar o quão difícil é, a cada dia, saber a verdade absoluta de um fato. Se é
que, em algum momento, foi possível. No filme, terminamos por saber que Sandra
foi absolvida da acusação de ser a assassina, graças a seu filho. Ele apresenta
uma hipótese, com resultado de experimentação, de um fato anterior ao
assassinato e que corrobora com a tese de que Samuel tenha se suicidado.
Detalhe, Daniel é o único que não enxerga.
Para finalizar, gostaria de
levantar uma hipótese. Logo no início do filme, Sandra vai com o advogado
Vincent ao sótão da casa, local onde o marido estava fazendo uma reforma e de
onde ele pode ter caído, se jogado ou ter sido jogado. Ela demonstra não ter
intimidade alguma com aquele lugar, se escora nas paredes, toma cuidado onde
pisa, demonstra total insegurança, se apoiando e se segurando nas vigas do teto.
A sensação é de que ela estava ali pela primeira vez. Creio eu que essa
movimentação dela não foi algo aleatório. Foi pensado. Acredito ser esta a
prova, para nós espectadores, de que ela nunca esteve ali. Portanto, Sandra, na
minha humilde opinião é inocente, assim como Capitu.
O cotidiano de um homem que limpa banheiros públicos em Tokyo é o argumento principal de uma obra prima cinematográfica do alemão Wim Wenders. Dias Perfeitos é um filme simples, rodado em poucos dias, mas que nos coloca para refletir profundamente sobre diversos aspectos da vida e da sociedade em que vivemos, além de nos ensinar a olhar. Isso mesmo, olhar para a vida e para nós mesmos.
Na tela, vemos um homem, Hirayama (interpretado por Kōji Yakusho), de pouquíssimas palavras, que vive sozinho, fazendo todos os dias as mesmas coisas. Desde a hora em que levanta, até a hora de dormir. Só muda a rotina nos dias de folga. O seu trabalho é limpar os banheiros públicos de Tóquio, o qual faz com maestria e pelo qual tem muito orgulho. Esse é o primeiro tapa. Como alguém pode se orgulhar de limpar banheiros públicos e ainda limpá-los extremamente bem, meticulosamente? Hirayama se orgulha. Em seu carro, tem produtos que ele mesmo compra para limpá-los. Em cada canto do vaso sanitário, da pia, ele usa um espelhinho, para que nenhuma sujeira fique pra trás.
Vivemos em uma sociedade que baliza o valor humano das pessoas pelo cargo ocupado em uma empresa, pelos títulos conquistados, entre outros sinais que são considerados de “sucesso”, quando nos deparamos com um limpador de banheiros públicos como protagonista de um filme, orgulhoso do que faz, vivendo em paz com isso, o soco bem dado no estômago é inevitável. Na nossa mídia, no jornalismo, jamais veremos reportagens mostrando pessoas orgulhosas com trabalhos conceituados socialmente de “menor valor”, por exemplo. No mundo competitivo em que vivemos, estar feliz nessa posição é uma afronta.
Assim como é uma afronta estar feliz e em paz com pouco. O personagem desta película tão singular vive modestamente, sem nenhum tipo de luxo, em um espaço pequeno. Em um cômodo ele dorme, lê, se troca, cuida das suas mudinhas de árvores e no outro, onde há uma pia, escova os dentes e faz uma higiene básica. Tudo extremamente organizado e funcional. E a paz que ele nos passa ali, no seu canto, na sua simplicidade, é tão grande, que chegamos a invejá-lo. Agora, um tapa na nossa cara.
E os tapas não são poucos, mas há também ensinamentos, como por exemplo, quando Hirayama é interrompido por alguém precisando urgentemente usar o banheiro que está limpando. Ele libera rapidamente, não se irrita e aproveita o momento para observar e admirar o que está a sua volta. Um morador de rua que dança livremente, o desenho formado pela copa das árvores, entre outras belezas que por ele não passam despercebidas. Ele nos ensina como olhar para a beleza do cotidiano. Mesmo que esteja no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, o momento é único. “A próxima vez é a próxima vez e o agora é o agora”, com essa frase repetida por ele e a sobrinha, que foge de casa e passa alguns dias com ele, é que a mensagem é verbalizada. Viver o agora é viver. Só ele existe.
Em entrevista ao site “Cinema em Portugal”, Wim Wenders fala sobre a origem de Hirayama “Imaginei um homem que tivera um passado privilegiado e rico e que resvalara [caíra, falira] profundamente. E que então, um dia, quando a sua vida estava no ponto mais baixo, tivera uma revelação, ao observar o reflexo das folhas criado pelo sol que brilhava milagrosamente no buraco do inferno em que ele estava a acordar. A língua japonesa tem um nome especial para essas aparições fugitivas que às vezes surgem do nada: komorebi, a dança das folhas ao vento, projetando-se como um jogo de sombras numa parede à sua frente, fruto de uma fonte de luz existente no universo, o sol. Tal aparição salvou Hirayama e ele escolheu viver outra vida, uma de simplicidade e modéstia.”
E ele tenta capturar esse momento, essas aparições, os komorebi, com uma câmera fotográfica analógica enquanto come um lanche em uma praça onde vai rotineiramente. Nos seus dias de folga, ele leva o filme das fotos da semana para revelar enquanto pega as fotos reveladas da semana anterior. Em casa, separa as melhores, descarta outras e arquiva em latas identificadas ano a ano. Ali, nos damos conta que ele vive a mesma rotina há muito tempo.
Assim como a câmera, tudo a sua volta é analógico, mesmo estando em uma das cidades mais tecnológicas do planeta, Tóquio. Seu celular só faz e recebe ligações. No carro, as músicas que formam a trilha sonora, como a belíssima “Perfect Day” do Lou Reed, que não sai da minha cabeça desde que assisti ao filme e que deu nome a ele, são de fitas cassetes, colocadas com cuidado no toca fitas.
O mesmo cuidado que Hirayama tem com as pessoas ao seu redor e que cruzam o seu caminho. Como o colega Takashi que o coloca em uma situação complicada, sua namorada Aya, a sobrinha Niko, a dona de um minúsculo restaurante frequentado por Hirayama nos seus dias de folga e até quem ele nunca viu, como alguém que deixa um papel com um jogo da velha começado em um dos banheiros. Hirayama aceita jogar e toda vez que vai limpar esse banheiro, há uma nova jogada preenchida. É lindo ver a grandiosidade de Hirayama, sua generosidade com tudo e com todos.
E para terminar, depois de esbofeteados, com o estômago em reviravoltas de tantos socos, quem sabe não aprendemos a viver o agora e a valorizar o que é essencialmente humano? Em ver na rotina, no cotidiano, a beleza de acontecimentos e momentos únicos? Desejar menos e viver mais. A felicidade não está naquilo que adquirimos e nem nos títulos que conquistamos, mas sim na singularidade dos momentos que vivemos e no trabalho do qual nos orgulhamos, seja ele qual for. Que a paz de Hirayama seja encontrada por todos nós.