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7 mitos sobre cinema que limitam nosso olhar


Algumas das maiores barreiras para descobrir novos filmes começam antes mesmo de a sessão começar

Há filmes que rejeitamos antes de assistir. Às vezes basta saber que foram realizados em preto e branco. Em outros casos, descobrimos que duram quase três horas, que possuem um ritmo lento, que terminam sem explicar tudo ou que pertencem à categoria imprecisa do chamado “cinema de arte”. A resistência aparece antes que o filme tenha qualquer oportunidade de mostrar o que pretende fazer.

Não há nada de errado em ter preferências. Algumas pessoas gostam de narrativas rápidas, outras preferem filmes contemplativos. Há quem procure histórias claramente concluídas e quem se interesse justamente pela ambiguidade. O problema começa quando transformamos essas preferências em critérios universais de qualidade. É nesse momento que surgem alguns dos mitos mais persistentes sobre cinema.

Eles não são necessariamente afirmações que repetimos conscientemente. Muitas vezes funcionam como expectativas silenciosas. Esperamos que um bom filme tenha determinado ritmo, conte sua história de determinada maneira, ofereça determinadas respostas e provoque determinadas emoções. Quando uma obra rompe essas expectativas, podemos interpretar a diferença como defeito.

Aprender a ver cinema também significa reconhecer essas expectativas. Não para eliminá-las, mas para impedir que decidam antecipadamente quais filmes merecem nossa atenção.

1. FILME LENTO É FILME RUIM

Talvez nenhuma crítica cotidiana seja tão frequente quanto esta: “O filme é muito parado”. Em muitos casos, a observação é perfeitamente legítima. Há filmes cujo ritmo realmente compromete a experiência. Mas lentidão e qualidade são coisas diferentes.

O cinema pode organizar o tempo de inúmeras maneiras. Algumas narrativas eliminam quase todos os momentos considerados desnecessários para fazer a história avançar. Outras desejam justamente permanecer nesses momentos. Observam personagens caminhando, esperando, trabalhando, olhando uma paisagem ou simplesmente permanecendo em silêncio.

Cineastas como Yasujirō Ozu, Andrei Tarkóvski, Béla Tarr e Apichatpong Weerasethakul fizeram do tempo uma matéria fundamental de suas obras. Nesses filmes, a duração não é um intervalo entre acontecimentos. Ela própria produz significado.

Parte de nosso desconforto diante dessas experiências vem do hábito. Grande parcela do cinema comercial contemporâneo trabalha para reduzir qualquer sensação de espera. Cortes rápidos, música, diálogos constantes e acontecimentos sucessivos mantêm nossa atenção permanentemente estimulada.

Quando encontramos outra relação com o tempo, podemos confundir estranhamento com incompetência. Nem todo filme lento é bom. Mas nenhum filme é ruim simplesmente porque é lento.

2. FINAL ABERTO É FALTA DE CONCLUSÃO

“Mas afinal, o que aconteceu?”

A pergunta surge frequentemente quando os créditos começam e alguma resposta esperada não chegou.

Estamos acostumados a associar conclusão ao esclarecimento. O mistério é solucionado, o conflito termina, os personagens encontram seu destino e o espectador deixa a sala sabendo exatamente o que aconteceu. Mas existem outras maneiras de concluir uma obra.

Um filme pode encerrar sua narrativa e manter aberto seu significado. Pode deliberadamente omitir uma informação porque a dúvida é parte essencial daquilo que deseja provocar. Pode até colocar o espectador diante de duas interpretações igualmente possíveis.

Em A Separação, de Asghar Farhadi, a ausência de uma resposta definitiva no encerramento não representa uma falha narrativa. Ela prolonga para além da sessão os conflitos morais e afetivos que atravessaram toda a história.

Mesmo produções extremamente populares utilizam esse recurso. O célebre encerramento de A Origem, de Christopher Nolan, transforma uma pequena dúvida em parte fundamental da experiência do filme.

Um bom final aberto não abandona a história. Ele apenas transfere ao espectador a responsabilidade por uma parte da conclusão.

3. PRETO E BRANCO É ULTRAPASSADO

Durante boa parte da história do cinema, filmar em preto e branco não era necessariamente uma escolha estética. Era consequência das tecnologias disponíveis e dos custos de produção. Com a consolidação do cinema colorido, essa situação mudou.

Quando um cineasta contemporâneo decide retirar as cores de uma imagem, geralmente está fazendo uma escolha deliberada. Luz, sombra, contraste, textura e composição passam a funcionar de outra maneira.

Filmes como Roma, de Alfonso Cuarón, Cold War, de Paweł Pawlikowski, O Farol, de Robert Eggers, e Belfast, de Kenneth Branagh, demonstram que o preto e branco continua plenamente disponível como linguagem cinematográfica. O mesmo vale para os filmes antigos.

Assistir hoje a uma obra realizada em preto e branco não significa aceitar uma versão incompleta do cinema moderno. Significa entrar em contato com uma forma visual que possui regras, possibilidades e expressividade próprias.

A ausência de cor deixou há muito tempo de ser apenas uma limitação tecnológica. Tornou-se também uma escolha artística.

4. CINEMA COMERCIAL NÃO PODE TER GRANDE VALOR ARTÍSTICO

Existe uma tentação recorrente de dividir o cinema em dois territórios. De um lado estaria o cinema comercial, produzido para alcançar grandes públicos. Do outro, o cinema artístico, comprometido com expressão, linguagem e inovação. A história do cinema torna essa divisão difícil de sustentar.

Alfred Hitchcock realizou filmes destinados ao grande público e, ao mesmo tempo, desenvolveu algumas das experiências mais sofisticadas de narrativa visual do cinema americano. Steven Spielberg construiu espetáculos populares sem abandonar uma extraordinária capacidade de encenação.

Tubarão, por exemplo, tornou-se um marco da indústria cinematográfica e ajudou a consolidar o modelo do blockbuster moderno. Nada disso impede que seja também uma demonstração excepcional de construção de suspense, montagem, ponto de vista e administração da informação.

O fato de um filme desejar alcançar milhões de espectadores não determina sua qualidade estética. Da mesma forma, pertencer ao circuito de festivais não garante profundidade artística. Popularidade não comprova qualidade. Mas também não a impede.

5. FILME PREMIADO DEVE AGRADAR TODO MUNDO

Prêmios exercem enorme influência sobre a maneira como escolhemos filmes. Oscar, Palma de Ouro, Leão de Ouro, Urso de Ouro e tantos outros reconhecimentos ajudam determinadas obras a conquistar visibilidade e permanecer na história. Mas nenhum prêmio transforma uma experiência artística em consenso obrigatório.

Premiações resultam de escolhas realizadas por pessoas específicas, em determinado momento, entre determinados concorrentes e segundo determinados critérios. Mesmo os júris mais respeitados discordam entre si. Filmes ignorados em sua época podem se tornar clássicos. Vencedores celebrados podem perder importância algumas décadas depois.

O espectador não precisa gostar de uma obra porque ela recebeu uma Palma de Ouro. Mais interessante é perguntar por que aquele filme foi valorizado.

Essa mudança parece pequena, mas é importante. Em vez de considerar nossa reação pessoal como confirmação ou negação absoluta da qualidade da obra, começamos a investigar aquilo que outros espectadores perceberam nela.

Discordar também pode ser uma forma de aprender.

6. PARA ENTENDER CINEMA É PRECISO FORMAÇÃO ESPECIALIZADA

Termos como mise-en-scène, profundidade de campo, montagem paralela ou plano-sequência podem fazer o cinema parecer um território reservado aos especialistas.

Não é. Muito antes de conhecer qualquer vocabulário técnico, o espectador já percebe inúmeras escolhas cinematográficas.

Percebemos quando uma música cria tensão. Quando determinado personagem parece isolado dentro do quadro. Quando uma montagem acelera a ação. Quando uma câmera próxima de um rosto aumenta nossa intimidade com alguém. Quando uma longa ausência de cortes produz desconforto. Talvez não saibamos nomear o procedimento, mas já sentimos seus efeitos.

Estudar cinema permite avançar. Conhecer sua história, compreender sua linguagem e descobrir diferentes cinematografias aumenta nossa capacidade de observação. O conhecimento oferece palavras para descrever aquilo que percebemos e ferramentas para enxergar coisas que anteriormente poderiam passar despercebidas.

Mas a formação não deveria funcionar como barreira de entrada. Ninguém precisa possuir repertório para começar. O repertório é justamente aquilo que construímos ao longo do caminho.

7. SE RECONHEÇO OS DEFEITOS DE UM FILME, NÃO POSSO GOSTAR DELE

Talvez este seja um dos mitos mais difíceis de abandonar porque estamos acostumados a transformar nossa relação com os filmes em veredictos. Gostei ou não gostei. É bom ou é ruim. Funciona ou não funciona.

A experiência cinematográfica pode ser muito mais contraditória. Podemos reconhecer problemas evidentes em um filme e ainda assim ser profundamente afetados por ele. Uma atuação pode ser irregular, determinadas situações podem parecer artificiais e parte do roteiro pode não funcionar, enquanto alguma outra dimensão da obra permanece conosco durante anos.

O contrário também acontece. Podemos reconhecer que um filme é tecnicamente extraordinário, historicamente importante e profundamente influente sem sentir qualquer ligação pessoal com ele. Isso acontece porque frequentemente tentamos responder com uma única avaliação a perguntas diferentes:

O filme é bem realizado?

O filme é importante?

Eu gostei do filme?

Não existe qualquer obrigação de oferecer a mesma resposta às três.

Perceber essa diferença representa um passo importante na formação do olhar crítico. Gostar de um filme não exige defendê-lo de todos os seus defeitos. Não gostar dele também não exige negar suas qualidades. A crítica começa justamente quando conseguimos conviver com essas contradições.

MUDAR O FILME OU MUDAR O OLHAR?

Nenhum desses sete mitos precisa ser substituído por uma regra contrária. Não precisamos concluir que filmes lentos são melhores, que finais abertos são mais inteligentes, que preto e branco é superior à cor ou que devemos aprender a gostar de toda obra consagrada pela crítica. Seria apenas trocar um conjunto de preconceitos por outro.

A questão é mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil. Quando encontramos um filme diferente daquilo a que estamos acostumados, podemos tentar substituir a rejeição imediata por uma pergunta:

O que este filme está tentando fazer?

Talvez descubramos que seu ritmo lento possui uma função. Talvez percebamos que a ausência de uma resposta é justamente o que torna seu final interessante. Talvez entendamos por que determinado cineasta escolheu filmar em preto e branco.

E talvez, depois de compreender tudo isso, continuemos não gostando do filme. Não há problema algum. Formar repertório não significa aprender a admirar tudo. Significa ampliar as condições pelas quais decidimos o que admiramos, rejeitamos, questionamos ou desejamos conhecer melhor.

É justamente nesse território que nasce UM NOVO OLHAR, a nova seção da Filmoteca.

Existem filmes que abandonamos porque parecem lentos, antigos, longos, confusos ou diferentes demais. Em vez de simplesmente afirmar que precisamos aprender a gostar deles, a proposta será investigar essas resistências, compreender de onde vêm e experimentar outras formas de aproximação.

Não para transformar todos os espectadores nos mesmos espectadores. Mas para descobrir quanto cinema ainda pode existir além daquilo que já sabemos gostar.