Dir: Brandon Cronenberg

Ficção Científica, Mistério, Suspense, Terror




Possessor possui uma ideia interessantíssima em mãos, uma agência secreta detém uma poderosa tecnologia onde, após implantado um chip no cérebro de uma vítima, conseguem usar uma máquina para sequestrar o corpo dessa vítima, com o intuito de cometer assassinatos de alto escalão de modo híper-secreto. Só essa premissa já é muito legal, muito potencial, especialmente conforme vamos adicionando detalhes; como as pessoas que possuem o corpo precisam estudar o alvo antes, aprender seus maneirismos, descobrir a vida pessoal da pessoa, de modo a enganar o melhor possível os amigos e familiares.

 

Mas apesar do grande conceito inicial, Possessor se vê querendo explorar demais em tempo de menos, porque tanto a parte de “suspense de espionagem”, da Vos ser uma grande assassina de aluguel, e dessa grande agência, tanto como a exploração da psique da pessoa que trabalha com isso, das consequências que essa tecnologia trás, acabam ficando pouco exploradas.

 

Primeiro, sobre a espionagem. É interessante a ideia da agência, mas tem furos demais na ideia, desde, se essa tecnologia, tão secreta e poderosa existe, parece voar tão baixo só cometer assassinatos de aluguel, é o tipo de tecnologia que, nas mãos de um grupo seleto de pessoas, poderia dominar o mundo. Mas ok, vamos usar para cometer esses assassinatos e pessoas de grandes riquezas de forma discreta… porquê não só possuir o alvo e se matar? E de novo, dando o benefício da dúvida, digamos que ficaria suspeito, etc. Como a agência mega secreta com tecnologia que beira o mágico não tem mais gente trabalhando nisso, não prepara seus agentes com tudo o que se pode de informação, a própria Vos, que é pra ser a nata da nata, apesar de a vermos praticando, comete uns erros crassos dentro da sua atuação. Toda essa agência é muito dita, mas pouco mostrada.

 

Já a parte psicológica. É um conceito legal, bem evocativo de Black Mirror, porém, o que os melhores episódios do seriado fazem, é pegar esse conceito e construir uma narrativa em volta de um problema social ou humano e revirar essa ideia de “soluções na tecnologia” com conclusões terríveis e traumáticas. Quase um “desejo de gênio”, que essa tecnologia praticamente mágica terá consequências irreparáveis. E no caso de Possessor a tecnologia até é explorada, mas por dividir seu tempo com o plot de assassinato, eu sinto que não consegue ir tão fundo quanto poderia na exploração da psique da Vos. É difícil saber o quanto era específico à ela, se era tudo a máquina, se tinha a ver com os problemas conjugais ou não, se ela estava dissociando ou não.

 

O que acabou acontecendo pra mim é que eu fiquei com a sensação que o filme quis fazer demais com pouco tempo, ou deveriam ter focado realmente nas consequências psicológicas dessa tecnologia, mostrando várias missões, ou talvez até tirando esse plot de assassinato e indo pra um caminho mais Black Mirror, usar a tecnologia como uma grande crítica ao desenvolvimento da sociedade. Ou vai totalmente pro caminho da espionagem e assassinato, me faz acreditar que a Vos é foda no que faz, que essa agência é algo imparável, entra realmente na logística, nos detalhes de como tudo isso funciona, na minúcia. A impressão que fica é que Possessor é curto demais pro que quer explorar.

 

Dito tudo isso, o filme não é ruim, particularmente a cinematografia tem umas sequências legais, desde o uso de cor que demonstram a mente deteriorando, essas sequências da Vos derretendo, perdendo seus sentidos, ou a briga dela com o Collin pelo corpo, suas duas vontades e mentes batalhando por um corpo, e a imagem que se tornou o poster é incrível, o rosto da Vos como uma máscara. O visual do filme é legal, especialmente no que diz respeito a essa parte da psique se distorcendo. As atuações também acho que são um destaque, por ser um filme que exige que os atores ajam como pessoas diferentes acaba sendo legal ficar caçando nas minúcias das atuações quem está sob controle do corpo no momento.

 

Enfim, Possessor foi um filme meio frustrante pra mim, porque eu sinto que tinha tanto mais que poderia ser feito, tanto potencial, tantas ideias legais e tudo pareceu meio mal explorado e nisso acabou sendo uma sessão medíocre.