Possessor possui uma ideia interessantíssima em mãos, uma
agência secreta detém uma poderosa tecnologia onde, após implantado um chip no
cérebro de uma vítima, conseguem usar uma máquina para sequestrar o corpo dessa
vítima, com o intuito de cometer assassinatos de alto escalão de modo
híper-secreto. Só essa premissa já é muito legal, muito potencial,
especialmente conforme vamos adicionando detalhes; como as pessoas que possuem
o corpo precisam estudar o alvo antes, aprender seus maneirismos, descobrir a
vida pessoal da pessoa, de modo a enganar o melhor possível os amigos e
familiares.
Mas apesar do grande
conceito inicial, Possessor se vê querendo explorar demais em tempo de menos,
porque tanto a parte de “suspense de espionagem”, da Vos ser uma grande
assassina de aluguel, e dessa grande agência, tanto como a exploração da psique
da pessoa que trabalha com isso, das consequências que essa tecnologia trás,
acabam ficando pouco exploradas.
Primeiro, sobre a
espionagem. É interessante a ideia da agência, mas tem furos demais na ideia,
desde, se essa tecnologia, tão secreta e poderosa existe, parece voar tão baixo
só cometer assassinatos de aluguel, é o tipo de tecnologia que, nas mãos de um
grupo seleto de pessoas, poderia dominar o mundo. Mas ok, vamos usar para
cometer esses assassinatos e pessoas de grandes riquezas de forma discreta…
porquê não só possuir o alvo e se matar? E de novo, dando o benefício da
dúvida, digamos que ficaria suspeito, etc. Como a agência mega secreta com
tecnologia que beira o mágico não tem mais gente trabalhando nisso, não prepara
seus agentes com tudo o que se pode de informação, a própria Vos, que é pra ser
a nata da nata, apesar de a vermos praticando, comete uns erros crassos dentro
da sua atuação. Toda essa agência é muito dita, mas pouco mostrada.
Já a parte
psicológica. É um conceito legal, bem evocativo de Black Mirror, porém, o que
os melhores episódios do seriado fazem, é pegar esse conceito e construir uma
narrativa em volta de um problema social ou humano e revirar essa ideia de
“soluções na tecnologia” com conclusões terríveis e traumáticas. Quase um
“desejo de gênio”, que essa tecnologia praticamente mágica terá consequências
irreparáveis. E no caso de Possessor a tecnologia até é explorada, mas por dividir
seu tempo com o plot de assassinato, eu sinto que não consegue ir tão fundo
quanto poderia na exploração da psique da Vos. É difícil saber o quanto era
específico à ela, se era tudo a máquina, se tinha a ver com os problemas
conjugais ou não, se ela estava dissociando ou não.
O que acabou
acontecendo pra mim é que eu fiquei com a sensação que o filme quis fazer
demais com pouco tempo, ou deveriam ter focado realmente nas consequências
psicológicas dessa tecnologia, mostrando várias missões, ou talvez até tirando
esse plot de assassinato e indo pra um caminho mais Black Mirror, usar a
tecnologia como uma grande crítica ao desenvolvimento da sociedade. Ou vai
totalmente pro caminho da espionagem e assassinato, me faz acreditar que a Vos
é foda no que faz, que essa agência é algo imparável, entra realmente na
logística, nos detalhes de como tudo isso funciona, na minúcia. A impressão que
fica é que Possessor é curto demais pro que quer explorar.
Dito tudo isso, o
filme não é ruim, particularmente a cinematografia tem umas sequências legais,
desde o uso de cor que demonstram a mente deteriorando, essas sequências da Vos
derretendo, perdendo seus sentidos, ou a briga dela com o Collin pelo corpo,
suas duas vontades e mentes batalhando por um corpo, e a imagem que se tornou o
poster é incrível, o rosto da Vos como uma máscara. O visual do filme é legal,
especialmente no que diz respeito a essa parte da psique se distorcendo. As
atuações também acho que são um destaque, por ser um filme que exige que os
atores ajam como pessoas diferentes acaba sendo legal ficar caçando nas
minúcias das atuações quem está sob controle do corpo no momento.
Enfim, Possessor foi
um filme meio frustrante pra mim, porque eu sinto que tinha tanto mais que
poderia ser feito, tanto potencial, tantas ideias legais e tudo pareceu meio
mal explorado e nisso acabou sendo uma sessão medíocre.