UM BLOCKBUSTER ORIGINAL FEITO DE VELHAS LEMBRANÇAS
David Robert Mitchell passou boa parte da carreira fazendo
filmes que pareciam deslocados do lugar habitual. Corrente do Mal partia
de uma ideia típica do terror adolescente, mas logo encontrava um ritmo e uma
atmosfera próprios. Under the Silver Lake fazia algo semelhante com o
mistério, transformando Los Angeles em um emaranhado de códigos, pistas,
obsessões e cultura pop.
O Fim da Rua é outra história. Pela primeira vez, Mitchell trabalha com as dimensões de um grande lançamento de Hollywood. Anne Hathaway e Ewan McGregor encabeçam o elenco, J.J. Abrams está entre os produtores e os efeitos visuais precisam colocar dinossauros diante de uma família suburbana. É uma mudança e tanto.
A história começa nos anos 1980, com Denise e Greg Platt
enfrentando problemas no casamento. Eles vivem com os filhos em Oak Street, uma
rua que poderia pertencer a dezenas de filmes americanos daquele período. Casas
confortáveis, gramados, bicicletas, vizinhos e crianças ocupam um mundo
aparentemente protegido. Até que o bairro inteiro é transportado para um
ambiente pré-histórico. A partir daí, sobreviver passa a ser o problema mais
urgente.
As primeiras críticas ao filme rapidamente encontraram um
nome para falar sobre tudo isso: Steven Spielberg. Não é difícil entender por
quê. Há Spielberg no subúrbio, na família colocada diante do extraordinário, na
aventura vista também pelos olhos dos mais jovens e, claro, nos dinossauros. A
tradição da Amblin também está muito próxima. Mitchell não parece interessado
em esconder essas referências.
É justamente aqui que as opiniões começam a se separar. Há
críticos que receberam bem esse retorno a um tipo de aventura que Hollywood
fazia com frequência décadas atrás. O filme teria energia, humor e um gosto
pelo espetáculo que não dispensa os personagens. Nessa leitura, Mitchell
conhece os modelos que está usando e consegue brincar com eles sem perder
completamente sua personalidade.
Outros viram algo bem menos estimulante. As referências
seriam numerosas e reconhecíveis demais. Em vez de recuperar aquele cinema, O
Fim da Rua acabaria lembrando constantemente que outros filmes já fizeram
aquilo antes, muitas vezes melhor.
As duas posições partem praticamente da mesma constatação. O
desacordo começa naquilo que cada crítico entende como homenagem. Isso torna a
recepção de O Fim da Rua mais curiosa do que indicaria uma simples
divisão entre críticas positivas e negativas. Quase ninguém precisa ser
convencido de que Mitchell está trabalhando com a memória de um determinado
cinema americano. A discussão é sobre o resultado. E há uma ironia nisso.
Num período em que Hollywood depende intensamente de
continuações, remakes e franquias, O Fim da Rua chega como uma produção
original. Não há numeral no título, personagem recuperado depois de vinte anos
ou universo cinematográfico ao qual o espectador precise retornar. Mesmo assim,
poucas coisas no filme parecem inteiramente desconhecidas.
Isso não é necessariamente um defeito. Cinema nunca foi
sinônimo de invenção a partir do nada. Spielberg também carregava consigo os
filmes e gêneros que havia visto. George Lucas fez o mesmo. Quentin Tarantino
construiu uma carreira inteira transformando suas referências em matéria-prima.
A questão, no caso de Mitchell, é quanto essa matéria-prima muda ao passar por
suas mãos.
É uma discussão especialmente pertinente porque seus filmes
anteriores tornaram o diretor reconhecível. Mesmo quando trabalhava dentro de
gêneros conhecidos, havia neles uma sensação de que alguma coisa estava
ligeiramente fora do lugar. Em O Fim da Rua, essa personalidade precisa
dividir espaço com uma produção muito maior. E produção grande cobra suas
contas.
O filme precisa apresentar seus personagens, estabelecer o
conflito familiar, criar o acontecimento fantástico, sustentar cenas de ação,
mostrar suas criaturas, encontrar espaço para humor e entregar a dimensão de
espetáculo esperada de um lançamento desse porte. Nem todos os críticos acham
que Mitchell conseguiu equilibrar essas exigências.
O drama familiar tornou-se outro ponto de divisão. Denise e
Greg já estão em crise quando Oak Street é transportada. Portanto, os
dinossauros não criam o conflito entre eles. Apenas tornam impossível continuar
adiando aquilo que já existia.
Para os críticos mais favoráveis, isso dá alguma substância
ao filme. A aventura não envolve apenas escapar de criaturas pré-históricas. Há
uma família tentando não se desfazer enquanto o mundo ao redor literalmente
deixou de ser aquele que conhecia.
Os menos convencidos consideram essa camada previsível e
insuficiente. O casamento em crise funcionaria mais como uma engrenagem do
roteiro do que como um drama capaz de sustentar o peso emocional que o filme
lhe atribui.
É provavelmente nesse ponto que O Fim da Rua mais
depende de seus atores. Anne Hathaway e Ewan McGregor precisam manter Denise e
Greg vivos enquanto dinossauros e efeitos visuais disputam nossa atenção.
Não é uma dificuldade exclusiva deste filme. O blockbuster
sempre precisou resolver o mesmo problema: quanto maior fica o espetáculo,
maior o risco de as pessoas no meio dele parecerem pequenas demais. A presença
de Mitchell torna essa disputa particularmente visível.
Corrente do Mal podia esperar. Podia deixar uma
figura caminhar lentamente ao fundo de um plano e confiar que o espectador
perceberia alguma coisa errada. Under the Silver Lake podia se perder
deliberadamente em suas próprias obsessões. Um grande lançamento de estúdio tem
menos liberdade para esse tipo de desvio.
Talvez por isso parte da crítica tenha procurado tão
insistentemente pelo antigo Mitchell dentro do novo filme. Alguns o
encontraram. Outros, não.
É cedo para saber qual leitura vai prevalecer, e talvez
nenhuma delas prevaleça completamente. O filme ainda está chegando ao público,
novas críticas serão publicadas e a conversa provavelmente mudará quando a
primeira curiosidade em torno do lançamento diminuir.
Por enquanto, O Fim da Rua ocupa uma posição
peculiar. É um blockbuster original que provoca uma sensação constante de
reconhecimento. É o maior filme de um diretor conhecido por trabalhar melhor
nas frestas. E tenta recuperar uma forma de aventura hollywoodiana justamente
quando Hollywood parece ter dificuldade para produzir grandes espetáculos sem
recorrer a marcas já estabelecidas.
Pode ser que Mitchell tenha encontrado uma maneira de fazer
algo novo com esse passado. Pode ser também que tenha feito um filme competente
demais em lembrar aquilo que já conhecemos. Nos primeiros dias de O Fim da
Rua, é principalmente em torno dessa diferença que a conversa está
acontecendo.
E a conversa está apenas começando.