Primeiras Leituras - 15 agosto 2026
Dir: David Robert Mitchell
Ação, Aventura, Ficção Científica, Mistério, Suspense


UM BLOCKBUSTER ORIGINAL FEITO DE VELHAS LEMBRANÇAS

David Robert Mitchell passou boa parte da carreira fazendo filmes que pareciam deslocados do lugar habitual. Corrente do Mal partia de uma ideia típica do terror adolescente, mas logo encontrava um ritmo e uma atmosfera próprios. Under the Silver Lake fazia algo semelhante com o mistério, transformando Los Angeles em um emaranhado de códigos, pistas, obsessões e cultura pop.

O Fim da Rua é outra história. Pela primeira vez, Mitchell trabalha com as dimensões de um grande lançamento de Hollywood. Anne Hathaway e Ewan McGregor encabeçam o elenco, J.J. Abrams está entre os produtores e os efeitos visuais precisam colocar dinossauros diante de uma família suburbana. É uma mudança e tanto.

A história começa nos anos 1980, com Denise e Greg Platt enfrentando problemas no casamento. Eles vivem com os filhos em Oak Street, uma rua que poderia pertencer a dezenas de filmes americanos daquele período. Casas confortáveis, gramados, bicicletas, vizinhos e crianças ocupam um mundo aparentemente protegido. Até que o bairro inteiro é transportado para um ambiente pré-histórico. A partir daí, sobreviver passa a ser o problema mais urgente.

As primeiras críticas ao filme rapidamente encontraram um nome para falar sobre tudo isso: Steven Spielberg. Não é difícil entender por quê. Há Spielberg no subúrbio, na família colocada diante do extraordinário, na aventura vista também pelos olhos dos mais jovens e, claro, nos dinossauros. A tradição da Amblin também está muito próxima. Mitchell não parece interessado em esconder essas referências.

É justamente aqui que as opiniões começam a se separar. Há críticos que receberam bem esse retorno a um tipo de aventura que Hollywood fazia com frequência décadas atrás. O filme teria energia, humor e um gosto pelo espetáculo que não dispensa os personagens. Nessa leitura, Mitchell conhece os modelos que está usando e consegue brincar com eles sem perder completamente sua personalidade.

Outros viram algo bem menos estimulante. As referências seriam numerosas e reconhecíveis demais. Em vez de recuperar aquele cinema, O Fim da Rua acabaria lembrando constantemente que outros filmes já fizeram aquilo antes, muitas vezes melhor.

As duas posições partem praticamente da mesma constatação. O desacordo começa naquilo que cada crítico entende como homenagem. Isso torna a recepção de O Fim da Rua mais curiosa do que indicaria uma simples divisão entre críticas positivas e negativas. Quase ninguém precisa ser convencido de que Mitchell está trabalhando com a memória de um determinado cinema americano. A discussão é sobre o resultado. E há uma ironia nisso.

Num período em que Hollywood depende intensamente de continuações, remakes e franquias, O Fim da Rua chega como uma produção original. Não há numeral no título, personagem recuperado depois de vinte anos ou universo cinematográfico ao qual o espectador precise retornar. Mesmo assim, poucas coisas no filme parecem inteiramente desconhecidas.

Isso não é necessariamente um defeito. Cinema nunca foi sinônimo de invenção a partir do nada. Spielberg também carregava consigo os filmes e gêneros que havia visto. George Lucas fez o mesmo. Quentin Tarantino construiu uma carreira inteira transformando suas referências em matéria-prima. A questão, no caso de Mitchell, é quanto essa matéria-prima muda ao passar por suas mãos.

É uma discussão especialmente pertinente porque seus filmes anteriores tornaram o diretor reconhecível. Mesmo quando trabalhava dentro de gêneros conhecidos, havia neles uma sensação de que alguma coisa estava ligeiramente fora do lugar. Em O Fim da Rua, essa personalidade precisa dividir espaço com uma produção muito maior. E produção grande cobra suas contas.

O filme precisa apresentar seus personagens, estabelecer o conflito familiar, criar o acontecimento fantástico, sustentar cenas de ação, mostrar suas criaturas, encontrar espaço para humor e entregar a dimensão de espetáculo esperada de um lançamento desse porte. Nem todos os críticos acham que Mitchell conseguiu equilibrar essas exigências.

O drama familiar tornou-se outro ponto de divisão. Denise e Greg já estão em crise quando Oak Street é transportada. Portanto, os dinossauros não criam o conflito entre eles. Apenas tornam impossível continuar adiando aquilo que já existia.

Para os críticos mais favoráveis, isso dá alguma substância ao filme. A aventura não envolve apenas escapar de criaturas pré-históricas. Há uma família tentando não se desfazer enquanto o mundo ao redor literalmente deixou de ser aquele que conhecia.

Os menos convencidos consideram essa camada previsível e insuficiente. O casamento em crise funcionaria mais como uma engrenagem do roteiro do que como um drama capaz de sustentar o peso emocional que o filme lhe atribui.

É provavelmente nesse ponto que O Fim da Rua mais depende de seus atores. Anne Hathaway e Ewan McGregor precisam manter Denise e Greg vivos enquanto dinossauros e efeitos visuais disputam nossa atenção.

Não é uma dificuldade exclusiva deste filme. O blockbuster sempre precisou resolver o mesmo problema: quanto maior fica o espetáculo, maior o risco de as pessoas no meio dele parecerem pequenas demais. A presença de Mitchell torna essa disputa particularmente visível.

Corrente do Mal podia esperar. Podia deixar uma figura caminhar lentamente ao fundo de um plano e confiar que o espectador perceberia alguma coisa errada. Under the Silver Lake podia se perder deliberadamente em suas próprias obsessões. Um grande lançamento de estúdio tem menos liberdade para esse tipo de desvio.

Talvez por isso parte da crítica tenha procurado tão insistentemente pelo antigo Mitchell dentro do novo filme. Alguns o encontraram. Outros, não.

É cedo para saber qual leitura vai prevalecer, e talvez nenhuma delas prevaleça completamente. O filme ainda está chegando ao público, novas críticas serão publicadas e a conversa provavelmente mudará quando a primeira curiosidade em torno do lançamento diminuir.

Por enquanto, O Fim da Rua ocupa uma posição peculiar. É um blockbuster original que provoca uma sensação constante de reconhecimento. É o maior filme de um diretor conhecido por trabalhar melhor nas frestas. E tenta recuperar uma forma de aventura hollywoodiana justamente quando Hollywood parece ter dificuldade para produzir grandes espetáculos sem recorrer a marcas já estabelecidas.

Pode ser que Mitchell tenha encontrado uma maneira de fazer algo novo com esse passado. Pode ser também que tenha feito um filme competente demais em lembrar aquilo que já conhecemos. Nos primeiros dias de O Fim da Rua, é principalmente em torno dessa diferença que a conversa está acontecendo.

E a conversa está apenas começando.