TRILHA 1 - PASSOS PARA AMPLIAR A CULTURA CINÉFILA

Capítulo 4 – Como assistir melhor



Pequenas mudanças de hábito podem transformar nossa experiência diante de um filme. Não porque exista uma maneira correta de assistir, mas porque atenção, preparação e reflexão podem nos ajudar a perceber mais daquilo que o cinema oferece.

DA ESCOLHA DO FILME À EXPERIÊNCIA DE ASSISTIR

Nos três primeiros capítulos desta Trilha, começamos a construir um percurso. Primeiro, discutimos o que significa ser cinéfilo e vimos que a cinefilia não depende de um grande repertório ou de conhecimentos especializados. Depois, investigamos por que ampliar repertório pode enriquecer nossa relação com o cinema. No capítulo anterior, avançamos para uma questão prática: como escolher filmes capazes de nos levar também para além dos territórios que já conhecemos.

Agora chegamos ao momento seguinte.

Escolhemos o filme. Como podemos aproveitar melhor esse encontro?

Antes de responder, é importante fazer uma ressalva.

Assistir melhor não é transformar todo filme em estudo.

Você não precisa pesquisar antes de cada sessão, fazer anotações, analisar cada enquadramento, escrever sobre tudo o que assiste ou procurar interpretações depois dos créditos. Às vezes queremos simplesmente assistir. E isso também faz parte de nossa relação com o cinema.

O que veremos neste capítulo são possibilidades. Pequenas práticas que podem ser incorporadas quando um filme, um diretor, um período ou simplesmente nossa curiosidade nos convidarem a ir além.

Podemos pensar em três momentos: antes, durante e depois do filme.

I - ANTES DO FILME: PREPARAR O ENCONTRO

Assistir melhor pode começar antes mesmo do play.

A primeira preparação é bastante simples: considerar se aquele é um bom momento para assistir àquele filme. Tempo disponível, cansaço, ambiente, possibilidade de interrupções e nossa própria disposição interferem na experiência. Um filme longo ou particularmente contemplativo pode exigir uma disponibilidade diferente daquela necessária para uma comédia escolhida apenas para relaxar no fim do dia.

Não existem condições perfeitas e nem sempre podemos controlá-las. Mas reconhecer que elas interferem na experiência já representa uma mudança.

Escolher quando assistir também pode fazer parte de escolher um filme.

Existe outra preparação possível: conhecer um pouco do mundo no qual a obra está inserida. Nem todo filme exige isso, mas determinadas obras pressupõem conhecimentos históricos, políticos, sociais ou culturais que talvez não possuamos.

Imagine que você decidiu assistir a O Último Metrô, de François Truffaut. Saber que a história acontece durante a ocupação alemã da França e conhecer minimamente aquela situação histórica pode tornar mais claras diversas situações que o filme não precisa explicar detalhadamente.

A pesquisa, entretanto, precisa saber onde parar. Não é necessário descobrir o que acontecerá com os personagens, conhecer previamente as principais interpretações ou procurar uma explicação para o final.

Uma orientação simples pode ajudar:

Pesquise o mundo em torno do filme, não aquilo que acontece dentro dele.

Também vale descobrir quem dirigiu e consultar rapidamente sua filmografia. Talvez você perceba que já assistiu a outro filme daquele cineasta. Nesse caso, tente lembrar o que permaneceu daquela experiência. A intenção não é estudar previamente seu estilo, mas ativar algo que você já possui: seu repertório.

Uma preparação de poucos minutos pode responder apenas a três perguntas:

Onde e quando essa história acontece?

Existe algum contexto histórico, social ou cultural que seria útil conhecer?

Quem dirigiu e eu já assisti a algum filme desse cineasta?

Depois disso, pare de pesquisar.

É hora de encontrar o filme.

II - DURANTE O FILME: ESTAR PRESENTE

Parece evidente, mas talvez seja a mudança de hábito mais importante de todas.

Para perceber um filme, precisamos estar diante dele.

O cinema não comunica apenas através dos diálogos ou dos acontecimentos da história. Um olhar, um objeto colocado no cenário, uma mudança de iluminação, um ruído, um silêncio, a distância entre duas pessoas ou simplesmente o tempo durante o qual uma imagem permanece diante de nós também podem participar da experiência.

Não é necessário procurar conscientemente todas essas coisas. Isso poderia transformar a sessão em uma caça a detalhes e significados. Basta estar disponível para percebê-las.

É nesse ponto que as distrações fazem diferença. Olhar rapidamente uma mensagem pode parecer uma interrupção insignificante. Muitas vezes será. Mas podemos também perder uma mudança de expressão, uma informação visual ou o início de uma atmosfera que o filme estava construindo.

E a interrupção não afeta apenas aquilo que deixamos de ver. Ela rompe temporariamente nossa relação com o ritmo e a continuidade da obra.

Nem tudo o que perdemos ao desviar os olhos pode ser recuperado voltando dez segundos.

Isso não significa estabelecer regras rígidas para uma sessão doméstica. Significa apenas reconhecer que, quando determinado filme merece nossa atenção, reduzir interrupções pode modificar consideravelmente a experiência.

NÃO PRECISAMOS ENTENDER TUDO IMEDIATAMENTE

Existe outra maneira de nos afastarmos do filme sem sequer tirar os olhos da tela: tentar explicá-lo enquanto ainda estamos assistindo.

Quem é essa pessoa? Por que ele fez isso? O que aquela imagem significa? Será que perdi alguma coisa? Por que o diretor não explicou?

A vontade de compreender é natural. Mas nem toda pergunta precisa de resposta imediata.

Alguns filmes apresentam informações que somente ganharão sentido posteriormente. Outros trabalham deliberadamente com incerteza. Há ainda aqueles que jamais responderão completamente algumas das perguntas que provocam.

Parte da experiência consiste justamente em aceitar essa situação.

Permita que o filme termine antes de exigir que ele se explique.

Pelo mesmo motivo, evite interromper a sessão para pesquisar um ator, consultar uma referência ou procurar uma explicação. Haverá tempo para isso.

Até mesmo assistir a filmes legendados se torna mais natural com a prática. No início, dividir a atenção entre legenda e imagem pode exigir esforço. Gradualmente, aprendemos a fazer essa alternância com maior facilidade. É uma competência adquirida e uma das que mais ampliam o universo cinematográfico ao qual podemos ter acesso.

III - DEPOIS DO FILME: A EXPERIÊNCIA PODE CONTINUAR

Os créditos começaram. Antes de abrir uma crítica, consultar uma nota ou descobrir o que outras pessoas acharam, experimente permanecer alguns minutos com sua própria experiência.

O que ficou? O que você compreendeu? O que não compreendeu? Que cena permanece mais viva na memória? O que surpreendeu? O que incomodou? Do que você gostou e do que não gostou?

Não é necessário transformar essas perguntas em questionário. Elas servem para algo importante: reconhecer nossa própria leitura antes de entrar em contato com a leitura dos outros.

Às vezes descobrimos que sabemos dizer se gostamos de um filme, mas ainda não conseguimos explicar por quê. É aí que colocar a experiência em palavras pode ajudar.

ESCREVER E CONVERSAR TAMBÉM SÃO FORMAS DE COMPREENDER

Uma sensação pode permanecer vaga enquanto existe apenas em nossa cabeça. Quando tentamos transformá-la em palavras, precisamos organizá-la.

Não é necessário escrever uma crítica. Algumas frases em um caderno, arquivo pessoal ou plataforma de registro já podem cumprir essa função. Podemos anotar o que mais chamou nossa atenção, o que o filme nos fez pensar ou sentir, aquilo que não compreendemos e as cenas ou imagens que permaneceram conosco.

Há uma diferença importante entre simplesmente atribuir uma nota e escrever algumas frases.

Registrar não é apenas avaliar.

Quando tentamos explicar por que tivemos determinada reação, começamos a compreender melhor nossa própria experiência. E esses registros, acumulados ao longo do tempo, também formam uma memória pessoal de nosso percurso pelo cinema.

Conversar produz um efeito semelhante. Tentar explicar para alguém o que pensamos nos obriga a recuperar cenas, estabelecer relações e formular argumentos. Às vezes começamos uma conversa acreditando saber exatamente o que pensamos e descobrimos, enquanto falamos, que nossa leitura é mais complexa do que parecia.

Falar sobre um filme também é uma maneira de compreendê-lo.

Mas a conversa oferece algo que escrever sozinho não consegue oferecer: o olhar do outro.

DESCUBRA O FILME QUE OUTRAS PESSOAS VIRAM

Duas pessoas podem assistir exatamente à mesma obra e sair da sessão tendo percebido coisas muito diferentes. Uma se interessou principalmente por determinado personagem. Outra percebeu uma relação entre duas cenas. Alguém encontrou esperança no final. Outra pessoa enxergou pessimismo.

Essa diferença não significa necessariamente que alguém compreendeu o filme e outra pessoa não. Ela revela algo fundamental:

Não assistimos apenas com os olhos. Assistimos também com as experiências e referências que carregamos.

Por isso, quando houver oportunidade, converse sobre os filmes. Cineclubes e grupos dedicados ao cinema são particularmente interessantes porque transformam essa troca em hábito.

No Clube de Cinema Seu Manolo, por exemplo, os encontros em torno de um filme não procuram estabelecer coletivamente uma interpretação correta. A proposta é colocar diferentes experiências e leituras em circulação.

Às vezes, uma pergunta feita por outro espectador é suficiente para nos fazer enxergar algo que havia passado despercebido.

DEPOIS DA SUA LEITURA, PROCURE OUTRAS

Chega então um momento em que pesquisar deixa de antecipar a descoberta e passa a ampliá-la.

Agora vale procurar críticas, ensaios, entrevistas, informações sobre a produção, contexto histórico e diferentes interpretações.

Mas existe uma mudança importante de atitude. Não estamos pesquisando para descobrir o que o filme realmente significa. Estamos colocando nossa leitura em contato com outras.

Uma análise pode revelar algo que não percebemos, estabelecer uma relação entre cenas ou propor uma interpretação completamente diferente da nossa. Também podemos discordar. E essa discordância pode ser produtiva quando conseguimos compreender por que nossa leitura seguiu outro caminho.

Na Biblioteca da FILMOTECA, análises do Crítica Livre de Cinema oferecem uma dessas possibilidades. Os textos procuram discutir direção, narrativa, fotografia, montagem, atuação e outras escolhas cinematográficas e, quando pertinente, avançam para possíveis leituras, ambiguidades, temas e relações entre forma e conteúdo.

Não existe a pretensão de oferecer uma interpretação definitiva.

A orientação vale para qualquer crítica ou análise:

Não leia para substituir sua interpretação. Leia para colocá-la à prova.

Depois, compare. O que você já havia percebido? O que surgiu na conversa com outras pessoas? O que a pesquisa acrescentou? Alguma interpretação modificou sua leitura? Existe alguma da qual você discorda?

E, principalmente:

O que agora você gostaria de observar novamente no filme?

QUANDO VOLTAR SIGNIFICA DESCOBRIR NOVAMENTE

Nem sempre haverá vontade de assistir ao filme outra vez. Mas algumas obras nos provocam o suficiente para justificar uma revisita.

Há uma diferença interessante entre simplesmente rever e revisitar. Podemos rever um filme porque gostamos dele e queremos repetir aquela experiência. Quando revisitamos, voltamos levando algo que não possuíamos na primeira sessão: novas informações, outras interpretações, perguntas, conhecimento sobre o diretor ou simplesmente maior consciência sobre aspectos que queremos observar.

Na primeira vez, grande parte de nossa atenção estava dedicada a descobrir o que aconteceria. Agora conhecemos esse caminho e podemos olhar para outras coisas. Uma cena aparentemente simples ganha importância. Um detalhe revela uma relação com algo que acontecerá depois. Uma interpretação encontrada posteriormente pode se fortalecer diante do filme ou podemos descobrir que discordamos ainda mais dela.

O filme continua o mesmo. O espectador já não é.

É por isso que revisitar determinadas obras pode ser uma das experiências mais interessantes para ampliar nossa cultura cinéfila.

O FILME TERMINA QUANDO VOCÊ QUISER

Nada do que apresentamos neste capítulo precisa acompanhar todas as sessões.

Nem todo filme precisa de preparação. Nem todo filme precisa gerar um texto. Nem sempre haverá alguém com quem conversar. Não precisamos pesquisar tudo o que assistimos e certamente não precisamos rever cada obra.

Isso transformaria nossa relação com o cinema em obrigação e produziria justamente o contrário do que buscamos. Às vezes, assistir com atenção, pensar alguns minutos e guardar uma impressão será suficiente.

Mas alguns filmes nos pedirão mais. Nesses casos, temos outras possibilidades. Podemos chegar um pouco mais preparados, estar mais presentes durante a sessão, permanecer com a experiência depois dos créditos, colocá-la em palavras, descobrir o que outras pessoas viram, pesquisar, confrontar interpretações e, quando surgir vontade, voltar ao filme levando um olhar diferente.

É assim que uma sessão pode deixar de ser apenas mais um título acrescentado à lista e passar a integrar verdadeiramente nossa cultura cinéfila.

Assistir melhor não significa fazer mais coisas enquanto vemos um filme. Significa preparar melhor o encontro, estar mais presente durante a sessão e permitir que o filme continue conosco depois que termina.