TRILHA 1 - PASSOS PARA AMPLIAR A CULTURA CINÉFILA

Capítulo 3 – Como escolher bem os filmes.




Nunca tivemos tantos filmes ao nosso alcance. Plataformas de streaming, canais especializados, mostras, festivais e acervos digitais oferecem milhares de possibilidades. Diante dessa abundância, porém, surge um problema que parece contraditório: quanto maior a oferta, mais difícil pode ser decidir o que assistir.

A escolha importa porque ampliar repertório não significa simplesmente aumentar a quantidade de filmes vistos. Como vimos no capítulo anterior, podemos assistir a centenas de obras concentradas nos mesmos gêneros, países, períodos e formas narrativas. Nossa lista cresce, mas as referências que adquirimos podem continuar percorrendo um território relativamente estreito.

Escolher bem, portanto, não significa escolher apenas grandes filmes. Significa perceber o que cada escolha pode acrescentar ao caminho que estamos construindo.

Isso também não exige abandonar nossos gostos. Se alguém gosta de terror, comédia romântica, ação ou ficção científica, não há razão para deixar de assistir a esses filmes em nome de alguma ideia abstrata de formação. Nossos gostos são parte importante da relação que construímos com o cinema. O problema aparece quando eles se transformam em fronteiras que raramente atravessamos.

É muito fácil permanecer dentro delas. Depois de assistir a um filme de que gostamos, procuramos outro parecido. As plataformas aprendem rapidamente esse comportamento e passam a nos oferecer novas variações daquilo que já consumimos. Recomendações de amigos, campanhas de divulgação e lançamentos também concentram nossa atenção em uma parcela relativamente pequena da produção disponível.

Nada disso torna essas escolhas ruins. Significa apenas que, se quisermos ampliar nossa cultura cinéfila, algumas descobertas precisarão ser procuradas deliberadamente.

NÃO EXISTE UMA LISTA DEFINITIVA

Uma solução aparentemente simples seria procurar uma relação dos melhores filmes de todos os tempos e começar a assisti-los. Essas listas podem ser excelentes fontes de descoberta e ajudam a identificar obras que adquiriram importância histórica ou crítica. Mas não conseguem determinar qual deveria ser o próximo filme de cada pessoa.

Isso depende do caminho já percorrido.

Para alguém que conhece pouco cinema anterior aos anos 1960, um clássico de Hollywood pode abrir um território inteiro. Para quem já conhece bastante o cinema americano, talvez seja mais interessante descobrir o neorrealismo italiano, o cinema japonês, o Cinema Novo brasileiro ou alguma cinematografia contemporânea pouco explorada. Para outro espectador, o passo seguinte pode simplesmente ser experimentar um documentário, uma animação ou um musical.

Por isso, uma pergunta costuma ser mais produtiva do que “quais são os filmes que preciso assistir?”:

Que parte do cinema conheço pouco e gostaria de começar a descobrir?

A resposta transforma uma lista genérica em um percurso pessoal.

UM FILME PODE LEVAR A OUTRO

Nem todo percurso precisa começar com um plano previamente estabelecido. Muitas vezes, o próprio cinema indica o caminho.

Gostamos de um filme e procuramos outras obras do diretor. Descobrimos que ele foi influenciado por determinado cineasta e seguimos essa referência. Uma obra desperta curiosidade pelo período histórico em que foi realizada. Um movimento cinematográfico nos conduz a outro que reagiu contra suas propostas. Um ator nos leva a um diretor que ainda não conhecíamos.

Assim, em vez de saltarmos continuamente entre recomendações sem relação entre si, começamos a construir pequenas sequências de descoberta.

Um filme deixa de ser apenas aquilo que acabamos de assistir e passa a funcionar também como porta de entrada para aquilo que poderemos assistir depois.

Essa talvez seja uma das maneiras mais naturais de ampliar repertório. Não precisamos conhecer antecipadamente todo o caminho. Basta aprender a reconhecer as portas que cada descoberta abre.

A IMPORTÂNCIA DE VARIAR

Existe, porém, um princípio simples que pode ajudar quando não sabemos para onde seguir: variar deliberadamente nossas escolhas.

Podemos alternar períodos históricos, países, gêneros, autores e maneiras de fazer cinema. Se assistimos predominantemente a produções contemporâneas, podemos procurar filmes de outras décadas. Se nosso repertório é majoritariamente americano e europeu, podemos explorar cinematografias asiáticas, africanas ou latino-americanas. Se a ficção domina nossas escolhas, documentários podem abrir outro território.

A variedade não é uma obrigação nem precisa obedecer a cotas. Sua função é criar oportunidades de encontro com aquilo que nossos hábitos dificilmente nos apresentariam.

Nem todos esses encontros serão bem-sucedidos. Alguns filmes podem nos entediar, provocar rejeição ou simplesmente não produzir interesse. Isso também faz parte da construção de repertório.

Ampliar a cultura cinéfila não significa gostar cada vez mais de tudo. Significa conhecer o suficiente para descobrir melhor aquilo que nos interessa e compreender melhor aquilo que não nos interessa.

ACESSIBILIDADE TAMBÉM IMPORTA

Existe outro aspecto frequentemente ignorado na escolha de um filme: nem todas as obras oferecem a mesma facilidade de aproximação.

Isso não tem relação direta com qualidade. Um filme extraordinário pode exigir familiaridade com determinada linguagem, ritmo ou tradição cinematográfica. Encontrá-lo cedo demais pode produzir apenas distanciamento. Outra obra do mesmo universo pode oferecer uma entrada mais acessível e preparar referências que tornarão aquela experiência futura mais interessante.

Foi pensando nisso que a FILMOTECA criou o Índice de Acessibilidade Cinematográfica, o IAC.

O índice não avalia se um filme é bom ou ruim. Ele procura indicar o grau de facilidade de aproximação que determinada obra tende a oferecer ao espectador, considerando aspectos como estrutura narrativa, ritmo, familiaridade da linguagem e grau de exigência interpretativa.

Isso permite pensar a escolha não apenas em termos de importância, mas também de percurso.

Começar por uma obra mais acessível não significa procurar um cinema mais simples. Significa reconhecer que determinadas experiências podem funcionar como portas de entrada para outras.

CONSTRUA PERCURSOS, NÃO OBRIGAÇÕES

Uma boa formação de repertório não deveria transformar o cinema em uma lista de tarefas.

Quando cada clássico passa a representar uma obrigação pendente, existe o risco de substituir a curiosidade pela sensação de dever. O objetivo é exatamente o contrário: utilizar algum método para aumentar as possibilidades de descoberta.

Podemos criar pequenos percursos dedicados a um diretor, um país, um movimento, um gênero ou determinado período. Podemos acompanhar uma referência encontrada em outro filme. Podemos participar de uma mostra, seguir uma curadoria ou simplesmente decidir que, durante algum tempo, uma parte de nossas escolhas será dedicada a territórios que conhecemos pouco.

Não existe proporção correta entre filmes familiares e desconhecidos. O importante é impedir que nossos hábitos decidam tudo por nós.

Escolher bem significa encontrar algum equilíbrio entre aquilo que já sabemos que queremos assistir e aquilo que ainda não sabemos que poderá nos interessar.

Para colocar essa ideia em prática, preparamos um percurso de formação de repertório com 12 portas de entrada para diferentes momentos, movimentos e cinematografias. Em cada etapa, cinco filmes oferecem diferentes graus de acessibilidade, indicados pelo Índice de Acessibilidade Cinematográfica (IAC). A proposta não é completar uma lista de obras obrigatórias, mas escolher um filme em cada etapa e experimentar territórios que talvez ainda estejam fora de seus caminhos habituais.

O PRÓXIMO FILME

Talvez essa seja a melhor maneira de pensar a construção de repertório. Não precisamos planejar centenas de sessões nem estabelecer antecipadamente o caminho completo de nossa cultura cinéfila.

Precisamos apenas cuidar um pouco melhor da próxima escolha.

Cada filme pode confirmar um interesse, abrir uma nova direção, apresentar um autor, revelar uma cinematografia ou nos fazer procurar algo completamente diferente. Depois dele, haverá outra escolha. E depois outra.

É assim que um repertório se amplia: não pela quantidade de títulos que conseguimos acumular, mas pela diversidade e pelas relações que progressivamente construímos entre nossas experiências.

Diante de um universo cinematográfico que ninguém conseguirá conhecer por inteiro, escolher bem não significa encontrar sempre o melhor filme disponível.

Significa fazer com que algumas de nossas escolhas nos levem a lugares aos quais provavelmente não chegaríamos se continuássemos escolhendo apenas da maneira habitual.

Para refletir

Observe seus últimos dez filmes. Quantos foram escolhidos porque já pertenciam aos seus gêneros, autores ou tipos de narrativa preferidos? Quantos levaram você para algum território pouco conhecido?

Não existe uma resposta ideal. O exercício serve apenas para tornar visível uma coisa que normalmente acontece sem percebermos: nossas escolhas estão construindo nosso repertório antes mesmo que pensemos sobre ele.

Próximo capítulo

Como assistir melhor

Depois de escolher um filme, começa outra parte da experiência. E algumas condições aparentemente simples podem determinar quanto conseguimos realmente receber daquilo que escolhemos assistir.