Um filme de US$ 200 milhões não nasce simplesmente de um
cheque do estúdio. Por trás das maiores produções de Hollywood existe uma
engenharia financeira que reúne capital próprio, parceiros, incentivos fiscais,
acordos comerciais e diferentes maneiras de dividir o risco.
A resposta mais simples seria o estúdio cujo logotipo
aparece antes dos créditos. Na prática, embora algumas produções sejam de fato
bancadas majoritariamente por uma única companhia, um blockbuster pode ser
resultado de uma estrutura financeira bem mais complexa. Grandes estúdios
utilizam recursos próprios, mas também podem dividir custos com outras
produtoras, investidores e parceiros, aproveitar incentivos fiscais oferecidos
por diferentes países e regiões e estabelecer acordos que diminuem sua exposição
financeira.
Não existe uma fórmula única. Cada filme pode ser
estruturado de maneira diferente. O princípio, porém, é relativamente fácil de
compreender: quanto maior o investimento, maior a preocupação em distribuir ou
reduzir o risco.
O primeiro dinheiro vem do estúdio
Os grandes conglomerados de entretenimento possuem
capacidade para financiar diretamente suas produções. Quando um estúdio aprova
um projeto, parte do dinheiro necessário pode vir de seus próprios recursos e
ser liberada ao longo das diferentes etapas de desenvolvimento e produção.
Antes disso, porém, o projeto passa por avaliações que
incluem muito mais do que sua qualidade artística. Executivos analisam
orçamento, elenco, potencial internacional, classificação indicativa,
calendário de lançamento, existência de propriedades intelectuais conhecidas e
possibilidades de receitas futuras.
Um filme de US$ 20 milhões pode encontrar caminhos para
recuperar seu investimento com um público relativamente limitado. Uma produção
que exige centenas de milhões precisa operar em outra escala. Ela normalmente
precisa alcançar milhões de espectadores em muitos mercados e, em vários casos,
continuar produzindo valor depois da passagem pelos cinemas.
É por isso que financiar um blockbuster começa pela
tentativa de responder a uma pergunta impossível de eliminar completamente: qual
é o tamanho do risco que estamos assumindo?
Dividir o filme pode significar dividir o risco
Para o estúdio principal, a vantagem é reduzir a quantidade
de capital próprio exposta a um único projeto. Para o parceiro, existe a
possibilidade de participar dos resultados de uma produção que talvez não
tivesse condições ou interesse de realizar sozinho.
Essa divisão ajuda a explicar por que os créditos iniciais
de grandes filmes frequentemente apresentam uma sucessão de empresas. Nem todas
necessariamente exerceram a mesma função, mas aquela lista pode revelar parte
da arquitetura empresarial que permitiu colocar a produção de pé.
Governos também podem ajudar a pagar a conta
Esses mecanismos podem assumir diferentes formas, como
créditos tributários, abatimentos ou devoluções vinculadas aos gastos
realizados naquele território. Para uma produção de grande porte, a economia
pode ser suficientemente relevante para influenciar a escolha do local das
filmagens.
É por isso que a geografia vista na tela nem sempre
corresponde à geografia da produção. Uma cidade pode representar outra e um
país pode servir de cenário para uma história situada em um lugar completamente
diferente. A decisão artística continua importante, mas passa a conviver com
uma pergunta bastante concreta: quanto custa filmar aqui em comparação com
outro lugar?
Direitos podem ser negociados antes da estreia
Uma produção com atores conhecidos, baseada em uma franquia
estabelecida ou comandada por nomes com forte apelo comercial possui valor
antes mesmo de estar pronta. Direitos relacionados a determinados mercados
podem ser negociados e compromissos comerciais estabelecidos antecipadamente.
Isso significa que um filme pode começar sua vida econômica
muito antes de vender o primeiro ingresso. O que está sendo negociado naquele
momento não é apenas uma obra concluída, mas uma expectativa sobre seu futuro
valor.
E onde entram as marcas?
A presença de grandes marcas nos blockbusters também pode
fazer parte dessa engrenagem, embora o chamado product placement seja
mais variado do que parece.
Uma empresa pode pagar pela exposição de seu produto,
fornecer veículos, equipamentos ou outros recursos, participar de campanhas
promocionais ou estabelecer acordos de divulgação conjunta. Nem todo produto
identificável na tela representa dinheiro diretamente entregue à produção, mas
as parcerias comerciais podem reduzir custos ou ampliar enormemente a campanha
de lançamento.
Para uma marca global, aparecer associada a personagens e
franquias conhecidos oferece acesso a milhões de consumidores. Para Hollywood,
a parceria pode representar recursos e exposição publicitária adicional.
Os US$ 200 milhões não são o custo total
Divulgar um blockbuster também custa caro. Campanhas
publicitárias, trailers, eventos, mídia, promoção internacional e inúmeras
outras ações podem acrescentar dezenas ou mesmo centenas de milhões de dólares
à operação.
Por isso, a comparação direta entre orçamento e bilheteria
costuma produzir conclusões equivocadas. Se um filme custou US$ 200 milhões e
arrecadou US$ 300 milhões, isso não significa que tenha produzido US$ 100
milhões de lucro.
Primeiro porque existem outros custos. Segundo porque o
valor pago pelo espectador na bilheteria não vai integralmente para o estúdio.
Para onde vai o dinheiro do ingresso?
A partir daí, a contabilidade pode se tornar ainda mais
complexa. Existem custos de distribuição, compromissos com parceiros e, em
algumas produções, contratos que concedem a atores, diretores, produtores ou
outros participantes parcelas vinculadas ao desempenho comercial.
Isso explica por que não existe uma fórmula universal capaz
de determinar, olhando apenas para orçamento e bilheteria, exatamente quanto
determinado filme ganhou ou perdeu.
A conta continua depois que o filme deixa os cinemas
A bilheteria também não representa o fim da vida econômica
de um blockbuster. Durante décadas, Hollywood construiu sucessivas janelas de
exploração, que passaram pelo mercado de vídeo doméstico, televisão,
licenciamento internacional e produtos derivados.
O streaming acrescentou outra camada. Quando o conglomerado
responsável pelo filme também possui uma plataforma, uma produção pode ter
valor estratégico mesmo que esse valor não apareça diretamente como receita de
bilheteria. Ela pode atrair assinantes, ajudar a mantê-los, fortalecer uma
franquia e aumentar o valor do catálogo da empresa.
Personagens também podem continuar gerando receitas por meio
de licenciamento, produtos, jogos, atrações e novas produções. Em uma grande
franquia, o filme pode ser apenas uma parte de um sistema econômico muito
maior.
O financiamento ajuda a explicar os filmes que chegam às
telas
É justamente aqui que uma questão aparentemente financeira
começa a afetar aquilo que assistimos.
Nenhum estúdio sabe antecipadamente se um filme será um
sucesso. Quanto maior o orçamento, porém, mais importante se torna tentar
reduzir essa incerteza. E uma das maneiras de fazer isso é investir em algo que
já tenha demonstrado capacidade de atrair público.
Uma sequência possui espectadores que conhecem o filme
anterior. Um super-herói chega acompanhado por décadas de reconhecimento. Um
best-seller oferece uma comunidade de leitores. Uma franquia estabelecida
fornece personagens, universo e uma marca que não precisam ser apresentados do
zero.
Nada disso garante sucesso, como os inúmeros fracassos de
grandes franquias demonstram. Mas oferece aos responsáveis pelo investimento
mais informações sobre o possível tamanho do público.
Compreender como um blockbuster é financiado ajuda a
perceber uma parte importante do cinema contemporâneo. Antes que as câmeras
sejam ligadas, Hollywood precisa decidir não apenas qual filme deseja realizar,
mas quanto está disposta a arriscar, quem participará desse risco e de que
maneira o investimento poderá retornar.
Essas decisões permanecem quase sempre fora do campo de
visão do espectador, mas suas consequências podem chegar até a tela. Elas
ajudam a compreender por que determinadas produções são filmadas em certos
países, por que grandes estúdios dividem projetos com outras empresas, por que
propriedades intelectuais conhecidas se tornam tão valiosas e por que uma
produção de centenas de milhões de dólares precisa ser pensada para alcançar
públicos muito amplos.
A reportagem termina aqui, mas a investigação pode avançar.
Na Biblioteca da FILMOTECA, o ensaio ampliado
acompanha essa engrenagem mais de perto, mostrando como diferentes fontes de
financiamento podem se combinar em uma grande produção e examinando situações
concretas em que incentivos fiscais, parceiros financeiros, distribuição, marketing
e necessidade de reduzir riscos interferem nas decisões tomadas antes e durante
a realização de um filme.
A proposta é passar da pergunta “de onde vem o dinheiro?”
para outra, menos evidente e talvez mais importante para quem deseja aprender a
ler o cinema:
o que acontece com um filme quando centenas de milhões de
dólares precisam encontrar um caminho de volta?
Continue a investigação na Biblioteca da FILMOTECA.