FILMOTECA - Revista de Cinema: Pág. 6


TEMPORADA 1 - O que realmente é Hollywood?

Capítulo 3. Como um blockbuster é financiado?




Um filme de US$ 200 milhões não nasce simplesmente de um cheque do estúdio. Por trás das maiores produções de Hollywood existe uma engenharia financeira que reúne capital próprio, parceiros, incentivos fiscais, acordos comerciais e diferentes maneiras de dividir o risco.

Quando um novo blockbuster chega aos cinemas, uma informação quase sempre acompanha as notícias sobre seu lançamento: o orçamento. US$ 150 milhões, US$ 200 milhões, às vezes muito mais. O número ajuda a dimensionar o tamanho da produção, mas esconde uma pergunta fundamental. Quem colocou esse dinheiro no filme?

A resposta mais simples seria o estúdio cujo logotipo aparece antes dos créditos. Na prática, embora algumas produções sejam de fato bancadas majoritariamente por uma única companhia, um blockbuster pode ser resultado de uma estrutura financeira bem mais complexa. Grandes estúdios utilizam recursos próprios, mas também podem dividir custos com outras produtoras, investidores e parceiros, aproveitar incentivos fiscais oferecidos por diferentes países e regiões e estabelecer acordos que diminuem sua exposição financeira.

Não existe uma fórmula única. Cada filme pode ser estruturado de maneira diferente. O princípio, porém, é relativamente fácil de compreender: quanto maior o investimento, maior a preocupação em distribuir ou reduzir o risco.

O primeiro dinheiro vem do estúdio

Os grandes conglomerados de entretenimento possuem capacidade para financiar diretamente suas produções. Quando um estúdio aprova um projeto, parte do dinheiro necessário pode vir de seus próprios recursos e ser liberada ao longo das diferentes etapas de desenvolvimento e produção.

Antes disso, porém, o projeto passa por avaliações que incluem muito mais do que sua qualidade artística. Executivos analisam orçamento, elenco, potencial internacional, classificação indicativa, calendário de lançamento, existência de propriedades intelectuais conhecidas e possibilidades de receitas futuras.

Um filme de US$ 20 milhões pode encontrar caminhos para recuperar seu investimento com um público relativamente limitado. Uma produção que exige centenas de milhões precisa operar em outra escala. Ela normalmente precisa alcançar milhões de espectadores em muitos mercados e, em vários casos, continuar produzindo valor depois da passagem pelos cinemas.

É por isso que financiar um blockbuster começa pela tentativa de responder a uma pergunta impossível de eliminar completamente: qual é o tamanho do risco que estamos assumindo?

Dividir o filme pode significar dividir o risco

Mesmo empresas capazes de financiar integralmente uma produção podem preferir compartilhar parte do investimento. Coproduções e diferentes formas de parceria permitem que duas ou mais companhias participem do financiamento e, conforme os contratos, também dos resultados.

Para o estúdio principal, a vantagem é reduzir a quantidade de capital próprio exposta a um único projeto. Para o parceiro, existe a possibilidade de participar dos resultados de uma produção que talvez não tivesse condições ou interesse de realizar sozinho.

Essa divisão ajuda a explicar por que os créditos iniciais de grandes filmes frequentemente apresentam uma sucessão de empresas. Nem todas necessariamente exerceram a mesma função, mas aquela lista pode revelar parte da arquitetura empresarial que permitiu colocar a produção de pé.

Governos também podem ajudar a pagar a conta

Uma parcela importante do financiamento contemporâneo aparece longe de Hollywood. Países, estados e regiões oferecem incentivos para atrair produções audiovisuais porque uma grande filmagem movimenta a economia local, empregando técnicos e fornecedores e consumindo serviços de transporte, hospedagem, alimentação, construção e infraestrutura.

Esses mecanismos podem assumir diferentes formas, como créditos tributários, abatimentos ou devoluções vinculadas aos gastos realizados naquele território. Para uma produção de grande porte, a economia pode ser suficientemente relevante para influenciar a escolha do local das filmagens.

É por isso que a geografia vista na tela nem sempre corresponde à geografia da produção. Uma cidade pode representar outra e um país pode servir de cenário para uma história situada em um lugar completamente diferente. A decisão artística continua importante, mas passa a conviver com uma pergunta bastante concreta: quanto custa filmar aqui em comparação com outro lugar?

Direitos podem ser negociados antes da estreia

Dependendo da estrutura do projeto, outra maneira de diminuir a exposição financeira é negociar antecipadamente determinados direitos de distribuição ou exploração.

Uma produção com atores conhecidos, baseada em uma franquia estabelecida ou comandada por nomes com forte apelo comercial possui valor antes mesmo de estar pronta. Direitos relacionados a determinados mercados podem ser negociados e compromissos comerciais estabelecidos antecipadamente.

Isso significa que um filme pode começar sua vida econômica muito antes de vender o primeiro ingresso. O que está sendo negociado naquele momento não é apenas uma obra concluída, mas uma expectativa sobre seu futuro valor.

E onde entram as marcas?

A presença de grandes marcas nos blockbusters também pode fazer parte dessa engrenagem, embora o chamado product placement seja mais variado do que parece.

Uma empresa pode pagar pela exposição de seu produto, fornecer veículos, equipamentos ou outros recursos, participar de campanhas promocionais ou estabelecer acordos de divulgação conjunta. Nem todo produto identificável na tela representa dinheiro diretamente entregue à produção, mas as parcerias comerciais podem reduzir custos ou ampliar enormemente a campanha de lançamento.

Para uma marca global, aparecer associada a personagens e franquias conhecidos oferece acesso a milhões de consumidores. Para Hollywood, a parceria pode representar recursos e exposição publicitária adicional.

Os US$ 200 milhões não são o custo total

Existe ainda uma distinção essencial para compreender as notícias sobre orçamento. Quando se informa que um filme custou US$ 200 milhões, normalmente o valor se refere à produção, e não necessariamente a tudo o que será gasto para transformá-lo em um lançamento mundial.

Divulgar um blockbuster também custa caro. Campanhas publicitárias, trailers, eventos, mídia, promoção internacional e inúmeras outras ações podem acrescentar dezenas ou mesmo centenas de milhões de dólares à operação.

Por isso, a comparação direta entre orçamento e bilheteria costuma produzir conclusões equivocadas. Se um filme custou US$ 200 milhões e arrecadou US$ 300 milhões, isso não significa que tenha produzido US$ 100 milhões de lucro.

Primeiro porque existem outros custos. Segundo porque o valor pago pelo espectador na bilheteria não vai integralmente para o estúdio.

Para onde vai o dinheiro do ingresso?

Quando alguém compra um ingresso, a receita é dividida entre os participantes da cadeia de exibição e distribuição. A parcela destinada ao estúdio varia conforme contratos, mercados e período de exibição, enquanto os cinemas permanecem com outra parte.

A partir daí, a contabilidade pode se tornar ainda mais complexa. Existem custos de distribuição, compromissos com parceiros e, em algumas produções, contratos que concedem a atores, diretores, produtores ou outros participantes parcelas vinculadas ao desempenho comercial.

Isso explica por que não existe uma fórmula universal capaz de determinar, olhando apenas para orçamento e bilheteria, exatamente quanto determinado filme ganhou ou perdeu.

A conta continua depois que o filme deixa os cinemas

A bilheteria também não representa o fim da vida econômica de um blockbuster. Durante décadas, Hollywood construiu sucessivas janelas de exploração, que passaram pelo mercado de vídeo doméstico, televisão, licenciamento internacional e produtos derivados.

O streaming acrescentou outra camada. Quando o conglomerado responsável pelo filme também possui uma plataforma, uma produção pode ter valor estratégico mesmo que esse valor não apareça diretamente como receita de bilheteria. Ela pode atrair assinantes, ajudar a mantê-los, fortalecer uma franquia e aumentar o valor do catálogo da empresa.

Personagens também podem continuar gerando receitas por meio de licenciamento, produtos, jogos, atrações e novas produções. Em uma grande franquia, o filme pode ser apenas uma parte de um sistema econômico muito maior.

O financiamento ajuda a explicar os filmes que chegam às telas

É justamente aqui que uma questão aparentemente financeira começa a afetar aquilo que assistimos.

Nenhum estúdio sabe antecipadamente se um filme será um sucesso. Quanto maior o orçamento, porém, mais importante se torna tentar reduzir essa incerteza. E uma das maneiras de fazer isso é investir em algo que já tenha demonstrado capacidade de atrair público.

Uma sequência possui espectadores que conhecem o filme anterior. Um super-herói chega acompanhado por décadas de reconhecimento. Um best-seller oferece uma comunidade de leitores. Uma franquia estabelecida fornece personagens, universo e uma marca que não precisam ser apresentados do zero.

Nada disso garante sucesso, como os inúmeros fracassos de grandes franquias demonstram. Mas oferece aos responsáveis pelo investimento mais informações sobre o possível tamanho do público.

Compreender como um blockbuster é financiado ajuda a perceber uma parte importante do cinema contemporâneo. Antes que as câmeras sejam ligadas, Hollywood precisa decidir não apenas qual filme deseja realizar, mas quanto está disposta a arriscar, quem participará desse risco e de que maneira o investimento poderá retornar.

Essas decisões permanecem quase sempre fora do campo de visão do espectador, mas suas consequências podem chegar até a tela. Elas ajudam a compreender por que determinadas produções são filmadas em certos países, por que grandes estúdios dividem projetos com outras empresas, por que propriedades intelectuais conhecidas se tornam tão valiosas e por que uma produção de centenas de milhões de dólares precisa ser pensada para alcançar públicos muito amplos.

A reportagem termina aqui, mas a investigação pode avançar.

Na Biblioteca da FILMOTECA, o ensaio ampliado acompanha essa engrenagem mais de perto, mostrando como diferentes fontes de financiamento podem se combinar em uma grande produção e examinando situações concretas em que incentivos fiscais, parceiros financeiros, distribuição, marketing e necessidade de reduzir riscos interferem nas decisões tomadas antes e durante a realização de um filme.

A proposta é passar da pergunta “de onde vem o dinheiro?” para outra, menos evidente e talvez mais importante para quem deseja aprender a ler o cinema:

o que acontece com um filme quando centenas de milhões de dólares precisam encontrar um caminho de volta?

Continue a investigação na Biblioteca da FILMOTECA.