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Vivemos em uma época em que muitos filmes parecem preocupados em manter o espectador permanentemente estimulado. A montagem acelera, os conflitos se sucedem e cada cena parece buscar um impacto imediato. As Oito Montanhas segue exatamente o caminho oposto. O longa dirigido por Felix Van Groeningen e Charlotte Vandermeersch convida o público a desacelerar e descobrir que algumas das histórias mais profundas são aquelas construídas a partir do silêncio, do tempo e das pequenas transformações da vida.
Baseado no romance de Paolo Cognetti, vencedor do Prêmio Strega, o filme acompanha a amizade entre Pietro, um garoto da cidade, e Bruno, filho de um agricultor que permanece vivendo nas montanhas italianas. Ao longo de décadas, suas trajetórias se aproximam e se afastam, acompanhando as mudanças inevitáveis da vida adulta, das relações familiares e da própria maneira como cada um escolhe habitar o mundo.
À primeira vista, trata-se de uma narrativa sobre amizade. Pouco a pouco, porém, o filme revela uma ambição muito maior. As montanhas deixam de ser apenas cenário para se transformarem na verdadeira linguagem da obra. Elas representam permanência, memória, isolamento, liberdade e pertencimento, tornando-se um espelho das escolhas feitas pelos personagens.
Essa dimensão simbólica nunca compromete a naturalidade da narrativa. Pelo contrário. Felix Van Groeningen e Charlotte Vandermeersch demonstram grande confiança na inteligência do espectador, recusando explicações excessivas e permitindo que emoções e significados surjam da observação dos gestos, dos silêncios e da passagem do tempo.
Visualmente, As Oito Montanhas é um espetáculo de rara elegância. A fotografia aproveita a imponência dos Alpes italianos sem transformá-los em mero cartão-postal. Cada paisagem dialoga com o estado emocional dos personagens, fazendo com que natureza e narrativa avancem sempre juntas. Poucos filmes recentes utilizam o espaço físico de maneira tão orgânica e expressiva.
As interpretações seguem a mesma linha de contenção. Alessandro Borghi e Luca Marinelli constroem personagens profundamente humanos, marcados por afeto, diferenças e dificuldades de comunicação. A amizade entre Pietro e Bruno nunca é idealizada. Ela amadurece, enfrenta distâncias, sofre mudanças e encontra novas formas de existir ao longo dos anos, justamente como acontece nas relações mais importantes da vida.
O ritmo contemplativo pode surpreender espectadores acostumados a narrativas mais aceleradas. No entanto, é precisamente essa cadência que permite ao filme construir seu impacto emocional. Em vez de buscar grandes reviravoltas, a direção aposta na acumulação de pequenos momentos, permitindo que o espectador compartilhe o tempo vivido pelos personagens.
Premiado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, As Oito Montanhas confirma que ainda há espaço para um cinema profundamente humanista, interessado menos no espetáculo do que na experiência interior de seus personagens. É uma obra que recompensa a atenção, a paciência e a disposição para contemplar.
Uma das produções europeias mais sensíveis dos últimos anos.
CLC Score: 8,1
O filme está disponível na Reserva Imovision, plataforma que reúne alguns dos principais títulos do cinema de autor contemporâneo.
Quer compreender por que as montanhas são muito mais do que um cenário nesta história? No Crítica Livre de Cinema, você encontra nossa análise completa de As Oito Montanhas, inclusive com uma seção com spoiler para você ler depois de assisti-lo.