No primeiro episódio deste percurso, acompanhamos os 75
minutos de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo procurando
distinguir duas coisas que nem sempre caminham juntas: aquilo que acontece em
uma história e aquilo que muda enquanto ela acontece. José Renato atravessava
estradas, realizava seu trabalho e encontrava pessoas, mas aos poucos
descobríamos que outra viagem também estava em curso. A pergunta O QUE
ACONTECE × O QUE MUDA nos ofereceu uma possibilidade para acompanhar um
filme no qual os acontecimentos pareciam pouco numerosos.
Agora vamos retirar um apoio importante. Durante toda aquela viagem, José Renato estava conosco. Não podíamos vê-lo, mas podíamos ouvi-lo. Sua voz revelava pensamentos, lembranças, desejos, incômodos e contradições. Mesmo quando as imagens pareciam permanecer durante muito tempo nas estradas e paisagens, havia alguém nos oferecendo palavras às quais nossa atenção podia se agarrar.
Em A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit, quase todas essas palavras desaparecem. Durante aproximadamente 80 minutos, acompanharemos um homem que chega a uma ilha deserta depois de um naufrágio. Ele praticamente não fala. Outros personagens surgirão, mas também não explicarão o que pensam ou sentem. Não haverá uma voz nos contando aquilo que acontece por dentro, e o filme tampouco tentará preencher esse espaço com uma sucessão constante de acontecimentos.
É um pequeno passo adiante na experiência iniciada no episódio anterior. A questão agora é descobrir o que acontece com nossa atenção quando, além de poucas coisas acontecerem, quase ninguém nos conta o que está acontecendo.
O que retiramos desta vez
Quando assistimos a um filme, as palavras constituem um dos
nossos apoios mais familiares. Os personagens conversam, dizem o que querem,
discutem seus problemas, contam aquilo que aconteceu e frequentemente antecipam
o que pretendem fazer. Mesmo sem perceber, utilizamos essas informações para
organizar a experiência e criar expectativas sobre aquilo que virá depois.
Retirar quase completamente os diálogos pode produzir uma sensação diferente daquela que encontramos no primeiro episódio. Talvez não seja apenas “parece que nada está acontecendo”. Pode surgir algo próximo de “não sei mais o que estou esperando”. Essa diferença é importante.
Uma das forças que nos mantém diante de uma história é a
curiosidade. Queremos descobrir quem fez alguma coisa, se duas pessoas ficarão
juntas, se alguém conseguirá chegar a determinado lugar, como um conflito será
resolvido. Quando essas perguntas são muito claras, quase não precisamos fazer
esforço para continuar. A própria narrativa nos puxa para a frente.
Mas será que toda curiosidade depende desse tipo de pergunta? É isso que vamos experimentar.
O segundo desafio
A Tartaruga Vermelha é uma animação de 2016 dirigida
pelo holandês Michael Dudok de Wit e realizada em coprodução com o Studio
Ghibli. Seu ponto de partida poderia pertencer a uma aventura bastante
convencional: depois de um naufrágio, um homem se vê sozinho em uma ilha e precisa
encontrar uma maneira de sobreviver e escapar.
Por enquanto, não precisamos saber mais. Também não precisamos procurar interpretações sobre a tartaruga, descobrir antecipadamente o significado da ilha ou pesquisar aquilo que o diretor pretendia dizer. Essas informações poderiam dirigir nosso olhar antes que tivéssemos nossa própria experiência. Nosso desafio será outro.
No primeiro episódio, levamos para o filme uma chave:
O QUE ACONTECE × O QUE MUDA
Ela continua disponível. Aquilo que você descobriu naquela experiência não precisa ser abandonado. Mas acrescentaremos agora uma segunda pergunta:
O QUE ME FAZ QUERER SABER O QUE VEM DEPOIS?
Não procure responder enquanto o filme está acontecendo.
Apenas deixe a pergunta disponível.
Talvez sua curiosidade esteja ligada a um acontecimento que você espera. Talvez esteja em um personagem. Talvez alguma coisa que você não compreendeu faça você querer continuar. Também é possível que, em determinados momentos, você simplesmente não encontre nenhuma razão especial para saber o que virá depois. Isso também nos interessa.
A experiência não pretende provar que A Tartaruga
Vermelha conseguirá manter sua atenção. Queremos observar o que acontece
com sua vontade de continuar quando alguns dos apoios aos quais estamos
acostumados começam a desaparecer.
Prepare novamente seu Caderno de Experiência
Como no episódio anterior, vamos preservar aquilo que você
percebe em diferentes momentos da sessão.
Abra o Caderno de Experiência do Episódio 2, copie
integralmente seu conteúdo e cole em um documento do Word ou em outro editor de
texto. Salve o arquivo e mantenha-o disponível.
[ABRIR O CADERNO DE EXPERIÊNCIA]
Preencha apenas o bloco ANTES DE COMEÇAR.
Não leia antecipadamente as perguntas das outras etapas. Quando avançar, não modifique suas respostas anteriores. Talvez algo que pareça importante depois da primeira parte deixe de parecer importante no final. Talvez aconteça o contrário. Queremos preservar justamente essas diferenças.
Depois de preencher o primeiro bloco, comece o filme.
PARTE 1 | O que ainda nos leva adiante?
Assista desde o início até o momento em que as sucessivas tentativas do homem de deixar a ilha estabelecem claramente uma situação que começa a se repetir. O tempo exato pode variar entre as versões disponíveis, por isso o Caderno e esta página devem utilizar a passagem narrativa como principal referência para a parada.
Durante esse primeiro trecho, não tente descobrir o significado das imagens. Acompanhe simplesmente o homem, aquilo que ele faz e as expectativas que começam a surgir em você. Quando chegar ao ponto indicado, interrompa a sessão e responda apenas ao bloco DEPOIS DA PARTE 1 do Caderno. Depois, volte para cá.
Até este momento, provavelmente não seria difícil resumir os acontecimentos do filme em poucas linhas. Um homem chegou a uma ilha, tentou sobreviver e procurou uma maneira de sair dali. Mas seu Caderno registrou outra coisa: aquilo que, neste momento específico, faz você querer ou não querer continuar.
Talvez exista uma pergunta bastante clara. Talvez você esteja interessado no destino daquele homem. Talvez uma situação inesperada tenha criado curiosidade. Talvez esteja simplesmente esperando que alguma coisa diferente aconteça. Não precisamos escolher entre essas possibilidades. Há, porém, algo que podemos levar para a próxima parte.
Até agora, o homem sabe o que deseja: sair da ilha. Nós também sabemos disso. A questão é saber por quanto tempo essa será suficiente para sustentar tanto a trajetória dele quanto a nossa curiosidade.
PARTE 2 | Ainda estamos esperando a mesma coisa?
Continue a sessão. Agora existe uma pequena diferença em relação à primeira parte. Não estamos apenas esperando para descobrir se o homem conseguirá deixar a ilha. Podemos observar também se aquilo que nos faz querer continuar permanece igual.
Não anote durante o filme. Apenas assista. Em determinado momento, a situação inicial sofrerá uma transformação importante e a relação do homem com aquilo que existe na ilha deixará de ser a mesma. Esse será nosso segundo ponto de parada.
Quando chegar a essa passagem, interrompa o filme e responda ao bloco DEPOIS DA PARTE 2 do Caderno. Só depois continue a leitura.
No começo da experiência, havia uma pergunta relativamente simples: ele conseguirá sair? Agora você já viu mais da metade do percurso. Volte mentalmente por alguns segundos ao homem dos primeiros minutos. Não é necessário interpretá-lo. Pergunte apenas se você continua acompanhando o filme pelas mesmas razões que o acompanhava antes.
Seu Caderno preservou a resposta anterior, portanto não precisamos respondê-la aqui. Mas podemos acrescentar uma curiosidade para a última parte. Quando começamos, a ilha era um lugar do qual aquele homem queria escapar. Tudo aquilo que fazia parecia organizado, direta ou indiretamente, por esse desejo.
A ilha ainda é apenas o lugar de onde ele quer sair?
Leve somente essa pergunta para o trecho final.
PARTE 3 | O que estamos esperando agora?
Assista ao restante do filme sem novas interrupções. Não tente confirmar uma hipótese e não procure uma explicação para aquilo que está vendo. A experiência dos dois primeiros episódios já lhe ofereceu perguntas suficientes. Quando o filme terminar, permaneça alguns minutos antes de procurar críticas, vídeos ou interpretações. Abra primeiro seu Caderno e preencha, nesta ordem:
DEPOIS DA PARTE 3
VOLTANDO AO PRIMEIRO OLHAR
MEU NOVO OLHAR
Depois retorne a esta página.
O que nos trouxe até o final?
No começo desta experiência, retiramos um apoio que estava presente em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. José Renato falava conosco. O homem de A Tartaruga Vermelha praticamente não pôde fazer isso. Ainda assim, você chegou ao final.
Ou talvez não tenha chegado. Se em algum momento decidiu
abandonar a experiência, esse resultado também precisa ser registrado
honestamente. O objetivo de UM NOVO OLHAR nunca foi transformar a
permanência até os créditos em uma obrigação.
Se chegou ao final, porém, seu Caderno agora permite
observar uma questão que dificilmente conseguiríamos reconstruir apenas pela
memória: o que sustentava sua curiosidade em diferentes momentos do filme?
Compare aquilo que escreveu depois da primeira e da segunda partes. Talvez inicialmente você quisesse apenas descobrir se o homem conseguiria escapar. Talvez outra pergunta tenha ocupado esse lugar. Talvez tenha chegado um momento em que você já não estivesse esperando uma resposta específica, mas ainda assim desejasse permanecer naquele mundo. Também é possível que sua curiosidade tenha diminuído e que você tenha continuado principalmente porque decidiu completar a experiência. Nenhuma dessas possibilidades é a resposta esperada. O que nos interessa é perceber que a vontade de continuar assistindo também pode mudar ao longo de um filme.
Isso acrescenta uma pequena descoberta àquela do primeiro episódio. Em Viajo Porque Preciso, experimentamos a possibilidade de que poucos acontecimentos não significassem necessariamente poucas mudanças. Agora podemos acrescentar outra pergunta: quando os acontecimentos e as palavras diminuem, será que nossa curiosidade também precisa desaparecer? Sua experiência é que responderá.
A lentidão foi a mesma durante os 80 minutos?
Há ainda uma comparação importante. No Caderno, você registrou sua percepção do ritmo em momentos diferentes. Coloque essas respostas lado a lado.
Talvez A Tartaruga Vermelha tenha parecido lento durante toda a sessão. Talvez a sensação tenha aumentado. Talvez tenha diminuído. Talvez você tenha deixado de pensar nela em determinado momento. Qualquer uma dessas trajetórias é possível.
Isso nos ajuda a evitar uma conclusão automática. Quando dizemos “o filme é lento”, podemos estar descrevendo uma característica da obra, mas também estamos falando de uma experiência que ocorre no tempo. Nossa relação com aquele ritmo aos dez minutos não precisa ser necessariamente a mesma aos quarenta ou aos setenta. O Caderno existe para tornar essa trajetória visível.
Não queremos concluir que você “se acostumou” ao filme.
Talvez não tenha acontecido. Queremos apenas descobrir se sua própria percepção
permaneceu igual.
Dois episódios, um pequeno percurso
Agora já podemos colocar as duas experiências lado a lado.
No primeiro episódio, havia poucos acontecimentos, mas José
Renato nos oferecia constantemente sua voz. Aprendemos a experimentar uma
pergunta diferente daquela que costuma orientar nossa atenção:
O QUE ACONTECE × O QUE MUDA
No segundo, retiramos quase completamente a palavra e
acrescentamos outra:
O QUE ME FAZ QUERER SABER O QUE VEM DEPOIS?
Nenhuma das duas perguntas existe para explicar os filmes. Elas servem apenas para oferecer lugares diferentes para nossa atenção quando o mecanismo habitual deixa de funcionar. Talvez você tenha gostado muito de A Tartaruga Vermelha. Talvez tenha preferido Viajo Porque Preciso. Talvez nenhum dos dois esteja entre os tipos de cinema que gostaria de procurar espontaneamente. Isso não determina o resultado da experiência.
A pergunta importante é outra: diante do próximo filme em que poucas coisas acontecem, você dispõe agora de alguma possibilidade que não possuía antes? Se a resposta for sim, mesmo que a resistência continue existindo, alguma coisa começou a mudar.
Agora converse com o percurso que você registrou
Como no episódio anterior, o Caderno preenchido pode ser utilizado para uma última etapa. Salve o documento sem modificar as respostas anteriores. Abra uma nova conversa com uma inteligência artificial, anexe o arquivo e envie o Prompt Filmoteca abaixo.
A IA não deverá explicar A Tartaruga Vermelha,
interpretar seus símbolos ou dizer por que o filme é importante. Ela utilizará
aquilo que você escreveu para ajudá-lo a comparar sua própria experiência em
momentos diferentes.
PROMPT FILMOTECA | UM NOVO OLHAR #2
Estou participando da experiência UM NOVO OLHAR, da
Filmoteca Seu Manolo.
Assisti a A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de
Wit, como segundo episódio do capítulo QUANDO PARECE QUE NADA ACONTECE e
preenchi progressivamente o Caderno de Experiência que estou anexando.
Leia integralmente o documento antes de iniciar nossa
conversa.
Este episódio deu continuidade a uma experiência anterior.
No Episódio 1, com Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, a chave
proposta foi distinguir “O QUE ACONTECE?” de “O QUE MUDA?”. Em A Tartaruga
Vermelha, essa possibilidade permaneceu disponível, mas um apoio importante
foi retirado: os personagens praticamente não utilizam palavras para nos contar
aquilo que pensam ou sentem.
A nova chave foi:
O QUE ME FAZ QUERER SABER O QUE VEM DEPOIS?
O Caderno foi preenchido em diferentes momentos da sessão.
Portanto, trate a ordem das respostas como parte fundamental da experiência.
Minhas respostas iniciais foram escritas antes de eu conhecer o restante do
filme e não foram corrigidas posteriormente.
Sua função é me ajudar a perceber como minha curiosidade,
minha atenção e minha percepção do ritmo se comportaram durante a experiência.
Compare especialmente aquilo que eu esperava antes de
começar, o que me fazia querer continuar depois da Parte 1, se essa razão mudou
depois da Parte 2, como percebi o ritmo em diferentes momentos e aquilo que
registrei em MEU NOVO OLHAR.
Procure mudanças, permanências, dúvidas e contradições entre
minhas próprias respostas. Quando encontrar uma relação significativa, mostre-a
utilizando aquilo que eu mesmo escrevi e me ajude a pensar sobre ela.
Não avalie minhas respostas como certas ou erradas. Não faça
uma análise crítica de A Tartaruga Vermelha, não explique seus símbolos,
não interprete a tartaruga ou a ilha, não explique recursos de linguagem
cinematográfica e não me diga aquilo que eu deveria ter percebido.
Não tente me convencer de que o filme é bom, de que eu
deveria ter gostado dele ou de que preciso aprender a apreciar filmes lentos.
Se minha curiosidade diminuiu, se perdi a atenção, se
continuei considerando o filme excessivamente lento ou se a experiência não
produziu mudança significativa, trate essas possibilidades como resultados
legítimos.
Conduza nossa conversa progressivamente, fazendo apenas uma
pergunta de cada vez e esperando minha resposta antes de continuar. Utilize
cada nova resposta para decidir a pergunta seguinte e, sempre que for
pertinente, confronte aquilo que eu disser agora com aquilo que registrei
anteriormente no Caderno.
O objetivo final não é descobrir se compreendi A
Tartaruga Vermelha. É perceber se houve alguma mudança na maneira como
consigo permanecer diante de um filme quando os acontecimentos diminuem e as
palavras praticamente desaparecem.
Comece identificando a mudança ou permanência mais
significativa entre aquilo que inicialmente parecia sustentar minha atenção e
aquilo que registrei ao final. Explique brevemente o que encontrou a partir das
minhas próprias palavras e faça apenas sua primeira pergunta.
O próximo desafio
Já atravessamos dois filmes relativamente curtos. No primeiro, havia uma voz que nos acompanhava. No segundo, retiramos quase completamente esse apoio. Em ambos, porém, a duração manteve a experiência dentro de um território relativamente controlado. O próximo passo poderá aumentar novamente a exigência.
Não abandonaremos aquilo que descobrimos. As perguntas dos
episódios anteriores continuarão disponíveis, mas uma nova dificuldade será
acrescentada. Assim, pouco a pouco, aquilo que inicialmente parecia constituir
uma única barreira, “filmes em que nada acontece”, começa a revelar diferentes
maneiras pelas quais nossa atenção pode encontrar dificuldade.
É justamente por isso que este capítulo não foi pensado como uma lista de cinco filmes lentos. É um percurso. Episódio após episódio, retiramos um apoio, acrescentamos uma possibilidade e observamos o que acontece com nosso olhar