Cadernos de Debate

Filme: Túmulo dos Vagalumes (1988) - Dir: Isao Takahata

Data: 23 de agosto de 2026

Debate realizado pelo Clube de Cinema Seu Manolo


Poucos filmes discutidos pelo Clube provocaram uma reação emocional tão imediata quanto Túmulo dos Vagalumes. Desde os primeiros comentários, apareceram palavras como angústia, tristeza, choque e impotência. Houve quem o definisse como um filme lindíssimo para assistir apenas uma vez. Mas o debate logo mostrou que a força da obra de Isao Takahata não está somente em fazer sofrer. Por trás da experiência emocional, o grupo encontrou uma reflexão sobre guerra, infância, responsabilidade, abandono, orgulho, solidariedade e, sobretudo, sobre aquilo que acontece quando uma sociedade deixa de proteger os mais vulneráveis.

Uma das primeiras questões discutidas foi a maneira como o filme representa a Segunda Guerra Mundial. Há bombardeios, destruição, fome e morte, mas praticamente não existem batalhas ou soldados em combate. A guerra é observada a partir daqueles que permanecem longe das decisões militares e, ainda assim, sofrem suas consequências.

Essa escolha levou o grupo a enxergar Túmulo dos Vagalumes menos como um filme sobre a guerra propriamente dita e mais como uma obra sobre seus efeitos. Seita e Setsuko não compreendem as dimensões políticas do conflito. Precisam apenas continuar fazendo aquilo que qualquer pessoa precisa fazer: encontrar comida, abrigo, segurança e alguma possibilidade de vida.

Surgiu então uma discussão importante sobre o fato de o Japão ter integrado o Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. Alguns participantes observaram que o filme praticamente não aborda a responsabilidade histórica japonesa. Outros argumentaram que essa ausência é coerente com a perspectiva adotada: estamos acompanhando duas crianças que não possuem dimensão política do conflito.

A conversa chegou a uma formulação capaz de conciliar essas duas leituras: reconhecer que o Japão foi responsável por atrocidades durante a guerra não impede reconhecer que civis japoneses também foram vítimas dela. Um fato não elimina o outro.

A decisão de Seita de abandonar a casa da tia produziu uma das discussões mais ricas da noite. Para alguns participantes, permanecer naquela casa havia se tornado praticamente insustentável. Seita era humilhado, Setsuko era tratada como um peso e os irmãos não se sentiam desejados. Aos 14 anos, depois de perder a mãe e sem notícias do pai, ele tomou a decisão que julgava capaz de proteger a irmã.

Outros participantes foram mais críticos. Sair poderia ser compreensível, mas não necessariamente correto. Quando Setsuko começou a apresentar sinais graves de desnutrição, voltar para a casa da tia ou procurar ajuda poderia ter sido uma alternativa. O orgulho de Seita, portanto, também pode ter contribuído para a tragédia.

O debate não chegou a uma condenação do personagem. Pelo contrário, surgiu uma distinção importante: uma decisão pode ser ao mesmo tempo compreensível e equivocada.

Julgar Seita como se fosse um adulto significaria ignorar justamente uma das maiores crueldades de sua situação. Aos 14 anos, ele precisou assumir responsabilidades que nenhum adolescente deveria receber. Se até adultos tomam decisões ruins em situações extremas, exigir lucidez absoluta de uma criança no meio de uma guerra seria desconsiderar o próprio drama que o filme apresenta.

Se Seita dividiu opiniões, a tia inicialmente provocou uma reação muito mais uniforme. A indignação apareceu repetidamente. Sua maneira de distribuir os alimentos, suas cobranças, a venda dos quimonos da mãe e a forma como trata as crianças fizeram dela uma das figuras mais rejeitadas pelo grupo.

Mas a discussão foi se tornando menos simples. A tia também vive em uma sociedade submetida à escassez. Sua família precisa sobreviver. Alguns participantes observaram que exigir alguma contribuição de Seita talvez não fosse absurdo naquele contexto. Outros fizeram uma distinção fundamental: cobrar colaboração não exigia humilhá-lo.

Assim, a personagem passou a ser vista simultaneamente como agente de crueldade e produto daquele mundo. A guerra não destrói apenas casas e corpos. Ela altera relações, reduz a solidariedade e transforma comida, abrigo e proteção em recursos que precisam ser disputados.

A discussão sobre a tia acabou conduzindo a uma questão ainda maior: o que acontece com uma sociedade quando sobreviver passa a ser mais importante do que cuidar?

Seita concentra grande parte dos dilemas morais do filme, mas Setsuko foi reconhecida pelo grupo como seu centro emocional. Mesmo cercada pela destruição, ela brinca, sorri, costura, deseja doces e procura pequenas formas de felicidade. Um dos comentários mais significativos do debate definiu esses momentos de alegria como uma forma de resistência.

Mas Setsuko compreende mais do que parece. A cena em que enterra os vagalumes e menciona a morte da mãe foi lembrada como um momento decisivo. Seita acreditava estar protegendo a irmã da verdade, mas ela já sabia. Sua infância não significa ignorância absoluta. Ela percebe a ausência, a fome, a perda e a morte, mesmo sem conseguir compreender o mundo que produziu tudo aquilo.

O grupo percebeu também uma inversão particularmente dolorosa: Setsuko depende de Seita porque é criança, mas Seita também é uma criança que precisaria ser protegido por alguém, que não existe

A imagem que dá título ao filme produziu algumas das interpretações mais poéticas da conversa. Os vagalumes iluminam o abrigo durante uma única noite. Por algumas horas, transformam um espaço miserável em um lugar mágico. Na manhã seguinte, estão mortos.

Para o grupo, eles passaram a representar a fragilidade e a brevidade da vida, especialmente das vidas de Seita e Setsuko. São pequenas luzes cercadas pela escuridão e destinadas a desaparecer cedo demais. Uma frase surgida durante o debate condensou essa leitura:

“A luz foi enterrada. Resta a escuridão do túmulo.”

Outra interpretação aproximou diretamente crianças e vagalumes: seres de luz, encantadores e frágeis que vivem por pouco tempo. A beleza da sequência, portanto, não oferece apenas alívio. Ela torna a tragédia ainda maior. Quanto mais intensamente aquela pequena luz brilha, mais doloroso será vê-la desaparecer.

Outro objeto ganhou importância durante a conversa: a pequena lata de balas de Setsuko. As balas não alimentam. Elas pertencem ao universo da infância, do prazer e da vida anterior à guerra. Ao longo do filme, tornam-se uma das poucas coisas capazes de oferecer a Setsuko algum conforto.

Um participante percebeu ainda uma possível correspondência entre o desaparecimento das balas e a deterioração física da menina. À medida que uma coisa se esgota, a outra também desaparece. Depois da morte de Setsuko, porém, a lata recebe seus restos mortais. Aquilo que antes guardava doces passa a guardar cinzas. O objeto da infância transforma-se em urna funerária.

E quando a lata é descartada na estação, no início do filme, completa-se uma das imagens mais cruéis discutidas pelo grupo: uma vida inteira reduzida a algo que alguém pode simplesmente jogar fora.

Takahata elimina praticamente qualquer suspense sobre o destino de Seita logo na abertura. Essa escolha foi considerada fundamental. Se o filme escondesse o destino dos irmãos, acompanharíamos a história perguntando se conseguiriam sobreviver. Ao revelar a morte antecipadamente, Takahata muda a pergunta. Não queremos mais saber o que acontecerá. Queremos compreender como foi possível que aquilo acontecesse.

Isso altera também nossa relação com os momentos felizes. Cada brincadeira, cada sorriso e cada instante de proximidade entre os irmãos já carrega a consciência de sua futura ausência. Como observou um participante, o filme deixa de ser uma jornada em direção a um desfecho e passa a funcionar como uma espécie de luto.

Também houve forte concordância de que a animação não suaviza a história. Em alguns momentos acontece exatamente o contrário. A delicadeza visual associada à infância entra em choque com queimaduras, cadáveres, fome e decomposição. O desenho permite que poesia e horror ocupem o mesmo espaço sem que um anule o outro.

Alguns participantes consideraram certas imagens bastante explícitas. Outros observaram que, em live-action, cenas semelhantes talvez produzissem principalmente repulsa física. Na animação, a violência permanece terrível, mas o espectador consegue também perceber sua dimensão simbólica. A forma, portanto, não serve para tornar a guerra mais aceitável. Ela permite aproximar o espectador da infância e, justamente por isso, torna sua destruição ainda mais dolorosa.

Apesar da enorme carga emocional, predominou no debate a percepção de que Túmulo dos Vagalumes evita o sentimentalismo fácil. O filme não precisa fabricar uma grande cena destinada exclusivamente a provocar lágrimas. A emoção nasce progressivamente daquilo que vemos acontecer.

Takahata permite inclusive momentos de beleza e felicidade. Setsuko brinca. Os irmãos riem. Os vagalumes iluminam o abrigo. Existem pequenos intervalos nos quais parece possível imaginar outra vida. É justamente porque conhecemos essas pequenas felicidades que compreendemos aquilo que está sendo perdido.

A pergunta final reuniu praticamente todas as discussões anteriores. Quem matou os dois irmãos?

A resposta mais imediata foi: a guerra. Mas o debate havia demonstrado que a tragédia possui várias camadas. Existem os bombardeios e a escassez. Existe a perda dos pais. Existe a atitude da tia. Existe a indiferença de outros adultos. Existe um médico que diagnostica a fome sem conseguir oferecer solução. Existe o orgulho de Seita. Existe uma sociedade inteira que, submetida à lógica da sobrevivência, deixa duas crianças desaparecerem. Por isso, talvez não exista um único culpado.

A guerra mata diretamente, mas também cria as condições nas quais outras formas de destruição se tornam possíveis. Ela destrói casas, alimentos e corpos, mas também solidariedade, vínculos e a capacidade coletiva de proteger. No debate, alguém formulou essa ideia de maneira especialmente contundente: um mundo em que as crianças não são protegidas pela família, pela sociedade e pelo Estado é um mundo no qual não podemos depositar nossa esperança. Talvez esteja aí uma das chaves de Túmulo dos Vagalumes.

Seita e Setsuko não morrem apenas porque bombas caíram sobre Kobe. Morrem porque, depois que as bombas caíram, restou ao redor deles um mundo incapaz de impedir que duas crianças ficassem sozinhas.

Ao final da conversa, Túmulo dos Vagalumes revelou-se para o grupo muito mais do que uma animação triste sobre duas crianças durante a Segunda Guerra Mundial.

Quando os participantes foram convidados a condensar a experiência em poucas palavras, surgiram definições que percorrem todo o debate:

“A guerra vista pelo olhar dos inocentes.”

“A tentativa do amor nos tempos de guerra.”

“A efemeridade da vida.”

Talvez as três possam permanecer juntas, pois o filme trata de duas crianças tentando preservar amor, infância e alguma pequena luz enquanto o mundo construído pelos adultos se desfaz ao redor delas.

 

Esta síntese foi elaborada a partir das reflexões desenvolvidas pelos participantes do Clube de Cinema da Filmoteca durante o debate sobre a animação Túmulo dos Vagalumes, realizado em 23 de agosto de 2026. As contribuições foram organizadas editorialmente para preservar os principais temas, argumentos e diferentes perspectivas apresentados na discussão.