Netflix é a plataforma mais assinada do Brasil, e ainda assim a maioria das pessoas passa mais tempo rolando o catálogo do que assistindo algo. Tem filme bom demais ali, perdido entre lançamentos e séries que o algoritmo empurra primeiro.
Fizemos a curadoria de sete filmes que já estão na sua assinatura agora. São dramas que pedem atenção: relações de família que não se resolvem em uma cena, decisões tomadas sob pressão extrema, vidas inteiras reavaliadas em poucos dias. Olivia Colman, Adam Driver, Natalie Portman, Sacha Baron Cohen, Bill Nighy, todos em algum dos melhores trabalhos da carreira.
Sete filmes que você já pagou para ter acesso. Falta só apertar o play.
A FILHA PERDIDA (2021) - Maggie Gyllenhaal
Leda está de férias sozinha numa praia grega. Uma boneca encontrada na areia abre uma fenda no passado que ela passou a vida tentando manter fechada.
Maggie Gyllenhaal adapta Elena Ferrante e entrega uma estreia na direção que encara de frente algo que o cinema raramente filma com honestidade: a ambivalência materna. Olivia Colman interpreta Leda no presente, Jessie Buckley a interpreta no passado, e as duas constroem juntas uma mulher que amou os filhos e também precisou de uma vida que não fosse só isso.
Indicado a três Oscars, incluindo Melhor Roteiro Adaptado. Leda abandonou as filhas quando elas eram pequenas, voltou, e o filme nunca decide se ela deveria se sentir culpada por isso. Essa indecisão é o que fica.
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FELIZ COMO LÁZARO (2018) - Alice Rohrwacher
Lázaro trabalha numa fazenda isolada na Itália sem nunca questionar nada. O mundo ao redor dele já mudou há muito tempo. Ninguém avisou.
Alice Rohrwacher constrói uma fábula sobre exploração rural que muda de registro na metade do filme de uma forma que recusa qualquer aviso prévio, e o resultado é um dos retratos mais originais sobre bondade, tempo e o que o capitalismo faz com quem não cabe nele. Adriano Tardiolo interpreta Lázaro com uma serenidade que o filme nunca explica e nunca precisa explicar.
Vencedor de Melhor Roteiro em Cannes. Um filme que parece neorrealismo até deixar de ser, e que fica na cabeça exatamente por essa virada.
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AS TRÊS FILHAS (2023) - Azazel Jacobs
Três irmãs se reúnem no apartamento do pai para acompanhar os últimos dias dele. O que elas têm em comum é o pai. O resto é tudo diferente.
Azazel Jacobs filma quase inteiramente dentro de um apartamento em Manhattan, e usa esse espaço fechado para deixar que Natasha Lyonne, Elizabeth Olsen e Carrie Coon construam três formas distintas de lidar com luto, ressentimento antigo e a obrigação de conviver justamente no momento em que conviver é mais difícil. O roteiro evita o conforto de transformar qualquer uma das três em vilã.
Um filme de atuação pura, onde a tensão vem do que cada irmã não diz às outras há anos.
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O filho de Cornelia atropelou e matou um menino numa estrada. Cornelia tem dinheiro, contatos e nenhuma intenção de deixar a justiça seguir seu curso.
Călin Peter Netzer constrói um retrato da classe média romena através de uma mãe que confunde proteção com controle, e que está dispostas a comprar, pressionar e manipular qualquer pessoa necessária para livrar o filho adulto das consequências do que fez. Luminița Gheorghiu entrega uma performance de uma frieza calculada que se revela, pouco a pouco, como a coisa mais assustadora do filme.
Urso de Ouro em Berlim. Um filme sobre privilégio que nunca precisa dizer a palavra privilégio.
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SETEMBRO 5 (2024) - Tim Fehlbaum
Uma equipe de televisão americana estava em Munique para cobrir os Jogos Olímpicos de 1972. Em poucas horas, virou a primeira a transmitir um sequestro terrorista em tempo real para o mundo.
Tim Fehlbaum filma quase todo o filme dentro da sala de controle da ABC Sports durante o ataque terrorista aos Jogos de Munique, e transforma decisões editoriais sobre o que mostrar, quando mostrar e como nomear o que está acontecendo num thriller sobre os primeiros passos da cobertura jornalística ao vivo de uma crise. Peter Sarsgaard lidera um elenco que trabalha sob pressão crescente sem nunca sair daquele espaço.
Um filme sobre o nascimento de algo que hoje é normal e que, em 1972, ninguém sabia como fazer.
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OS 7 DE CHICAGO (2020) - Aaron Sorkin
Sete homens foram julgados por conspiração depois dos protestos na Convenção Democrata de 1968. O julgamento virou tão circense quanto os próprios protestos.
Aaron Sorkin dirige seu próprio roteiro e entrega um tribunal como palco de embate ideológico, com Sacha Baron Cohen como Abbie Hoffman, Eddie Redmayne como Tom Hayden e Mark Rylance como o advogado de defesa, todos navegando um processo que o juiz Julius Hoffman, interpretado por Frank Langella, conduz com uma parcialidade que o filme não precisa exagerar porque os fatos já bastam.
Indicado a seis Oscars, incluindo Melhor Filme. Diálogo rápido, indignação real, e um caso que continua reverberando.
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VIVER (2022) - Oliver Hermanus
Williams trabalha no mesmo escritório há décadas, seguindo a mesma rotina, sem nunca ter vivido de fato. Um diagnóstico terminal muda o que resta do tempo, mas não da forma que ele esperava.
Oliver Hermanus adapta Ikiru, de Kurosawa, para a Londres dos anos 1950, e Bill Nighy interpreta um burocrata que descobre, tarde demais e ainda a tempo, que existir não é o mesmo que viver. O roteiro de Kazuo Ishiguro trata essa descoberta sem sentimentalismo, com a contenção britânica que o próprio personagem precisa atravessar para finalmente sentir algo.
Indicado ao Oscar de Melhor Ator. Um filme pequeno sobre a pergunta mais grande que existe.
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