VALE O PLAY GRÁTIS | Quando as Aparências Desmoronam
Alguns filmes nos entretêm. Outros nos oferecem respostas. Há também aqueles que fazem algo mais raro: retiram as camadas de proteção que construímos para viver e nos obrigam a olhar para aquilo que preferíamos manter oculto.
Os sete filmes desta mostra pertencem a essa categoria.
Em comum, eles apresentam personagens que acreditam compreender suas próprias vidas até que um acontecimento aparentemente simples rompe a estabilidade que sustentava suas certezas. Uma acusação, uma paixão, uma decisão impulsiva, um ato de covardia, uma descoberta inesperada ou uma perda irreparável tornam impossível continuar fingindo que nada mudou.
Em A Morte e a Donzela, a memória de uma violência passada transforma a busca por justiça em um território moralmente ambíguo. Em A Lei do Desejo, Pedro Almodóvar investiga os limites entre amor, obsessão e identidade. Em Trilhas, uma jornada física pelo deserto australiano torna-se uma travessia interior marcada pela solidão e pelo autoconhecimento.
Blue Jasmine acompanha a queda de uma mulher incapaz de reconciliar suas fantasias com a realidade. Força Maior observa como um único instante pode destruir a imagem que construímos de nós mesmos. O Lobo Atrás da Porta revela as consequências devastadoras dos desejos, mentiras e ressentimentos que escondemos atrás da vida cotidiana. Já Um Homem Chamado Ove demonstra que, mesmo após as maiores perdas, a existência continua oferecendo possibilidades de reencontro com o mundo.
Cada um desses filmes apresenta personagens diante de uma ruptura. O que está em jogo não é apenas o que aconteceu, mas aquilo que se revela quando as máscaras deixam de funcionar.
Vindos do Chile, Espanha, Austrália, Estados Unidos, Suécia e Brasil, esses filmes mostram que certas experiências humanas atravessam culturas, idiomas e fronteiras. Todos nós, em algum momento, somos confrontados por situações que nos obrigam a rever quem somos.
Talvez seja por isso que essas histórias permanecem tão vivas. Elas não falam apenas de seus personagens. Falam de nós.
Boa sessão.
A MORTE E A DONZELA (1994) - Roman Polanski
Paulina ouve a voz de um homem na sala de casa e tem certeza: é ele. O homem que a torturou e estuprou anos antes, sob a ditadura. O marido dela, advogado, acha que está enlouquecendo.
Roman Polanski adapta a peça de Ariel Dorfman, dramaturgo chileno, e constrói praticamente todo o filme dentro de uma única casa, numa noite de tempestade. Sigourney Weaver entrega uma das performances mais intensas da carreira como Paulina, que amarra o suposto torturador a uma cadeira e o submete ao próprio julgamento que o país, recém-saído de uma ditadura fictícia que evoca diretamente o Chile de Pinochet, ainda não conseguiu fazer. Ben Kingsley, como o médico que pode ou não ser culpado e Stuart Wilson, como o marido que hesita entre acreditar nela e proteger a legalidade, completam um trio que sustenta o filme inteiro com pura tensão de interpretação.
Um thriller psicológico sobre culpa, vingança e o que significa justiça quando as instituições falharam. Polanski, cineasta cuja própria biografia carrega acusações graves de crime sexual, dirige um filme que pede ao espectador exatamente o que pede aos personagens: julgar sem certeza absoluta.
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Disponível em versão dublada na Pluto TV
A LEI DO DESEJO (1987) - Pedro Almodóvar
Pablo é diretor de cinema e está apaixonado por Juan, que retribui com tibieza. Antonio se torna obcecado por Pablo depois de uma única noite. A irmã de Pablo, Tina, carrega um segredo que envolve o próprio pai.
Primeiro filme produzido pela própria El Deseo, a produtora que Almodóvar fundaria com o irmão Agustín, A Lei do Desejo é o ponto em que o cineasta espanhol assume controle total da própria obra e entrega um triângulo amoroso entre homens que se torna mortal, paralelo à história de Tina, personagem trans interpretada por Carmen Maura com uma dignidade rara para o cinema da época. Antonio Banderas, em sua terceira colaboração com Almodóvar, constrói um jovem perturbado e possessivo numa das performances que o tornariam o ator fetiche do diretor.
Primeiro filme a ganhar o prêmio Teddy de melhor filme LGBT em Berlim. Quarenta anos depois, continua sendo um dos retratos mais corajosos sobre desejo, ciúme e família que o cinema espanhol já produziu.
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TRILHAS (2013) - John Curran
Robyn Davidson decide atravessar 2.700 quilômetros do deserto australiano a pé, sozinha, acompanhada apenas do cachorro e de quatro camelos. A única condição do patrocínio que financia a viagem: um fotógrafo da National Geographic vai aparecer de tempos em tempos para documentá-la.
Baseado nas memórias reais de Robyn Davidson sobre a travessia que fez em 1977, Trilhas tem Mia Wasikowska entregando uma performance de introspecção física, mais corpo e silêncio do que diálogo, enquanto atravessa um dos territórios mais hostis do planeta. Adam Driver interpreta o fotógrafo Rick Smolan, presença que Robyn tolera mas nunca pediu, e que se torna o único contato humano regular ao longo dos nove meses de jornada.
Estreou em competição oficial em Veneza. Um filme sobre solidão escolhida, e sobre o preço de precisar de dinheiro até para fugir da própria civilização.
Disponível em versão dublada na Pluto TV.
BLUE JASMINE (2013) - Woody Allen
Jasmine perdeu tudo depois que o marido bilionário foi preso por fraude financeira. Sem dinheiro, sem amigos e à beira do colapso nervoso, ela se muda para São Francisco para morar com a irmã, que vive a vida simples que Jasmine sempre desprezou.
Woody Allen constrói uma variação contemporânea de Um Bonde Chamado Desejo, com Cate Blanchett entregando uma das performances mais aclamadas da carreira como uma mulher se desintegrando diante da câmera, presa entre memórias de luxo e a realidade humilde que agora precisa habitar. Sally Hawkins, como a irmã Ginger, ancora o filme num contraste que nunca deixa o espectador esquecer o quanto Jasmine sempre olhou para baixo para quem a recebe agora.
Blanchett ganhou o Oscar de Melhor Atriz pela performance. Um estudo cruel e fascinante sobre riqueza, delírio e o que sobra quando as duas coisas desmoronam juntas.
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FORÇA MAIOR (2014) — Ruben Östlund
Uma família sueca está em férias de esqui nos Alpes franceses. Durante o almoço, uma avalanche controlada parece sair de controle. Em segundos, o pai foge sozinho para salvar a própria vida, abandonando a esposa e os dois filhos.
Ruben Östlund constrói uma comédia de humor glacial sobre o instante em que um casamento inteiro desmorona, não por causa da avalanche em si, que nunca chega a atingir ninguém, mas pela impossibilidade de desfazer o que o instinto revelou sobre o caráter de cada um. Os dias seguintes da viagem se transformam num exercício de negação, justificativa e humilhação silenciosa, filmado com uma precisão quase clínica que transforma desconforto em comédia sem nunca perder a crueldade do que está em jogo.
Vencedor do Prêmio do Júri na mostra Un Certain Regard em Cannes. Um dos retratos mais afiados já feitos sobre masculinidade, covardia e o que a crise revela que a rotina sempre escondeu.
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O LOBO ATRÁS DA PORTA (2013) — Fernando Coimbra
Uma criança desaparece num subúrbio do Rio de Janeiro. Os pais correm à delegacia. O delegado logo descobre que o pai tinha uma amante e que ela esconde muito mais do que parece nos primeiros depoimentos.
Estreia na direção de longas de Fernando Coimbra, inspirada no caso real conhecido como A Fera da Penha, dos anos 1960. O filme muda de gênero sem aviso, suspense policial, drama conjugal, comédia de interrogatório, até um terceiro ato que reorganiza tudo o que veio antes. Leandra Leal entrega a performance mais intensa da carreira como Rosa, a amante cuja transformação de apaixonada a desnorteada o filme constrói com precisão cirúrgica.
Selecionado para o Festival de Toronto e premiado em San Sebastián, Havana e Guadalajara. Um dos thrillers mais bem construídos do cinema brasileiro recente, com um final que ainda choca quem assiste pela primeira vez.
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UM HOMEM CHAMADO OVE (2015) — Hannes Holm
Ove tem 59 anos, é viúvo, foi demitido depois de décadas no mesmo emprego e decide que chegou a hora de se matar. Cada tentativa é interrompida por algum vizinho precisando de ajuda, principalmente a família iraniana grávida que acabou de se mudar para a casa em frente.
Hannes Holm adapta o romance best-seller de Fredrik Backman e equilibra comédia e drama com uma delicadeza rara: Ove é rabugento, rígido, obcecado por regras de condomínio e cada flashback da vida dele, o pai ferroviário, o encontro com Sonja, as decisões que o endureceram, vai revelando por que ele se tornou esse homem. Rolf Lassgård carrega o filme com uma contenção que torna cada gesto de bondade involuntária mais comovente do que qualquer discurso poderia ser.
Duas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme Estrangeiro. Um filme sobre luto, comunidade e a descoberta tardia de que ainda há razão para continuar.
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