O Tela Brasil é uma plataforma gratuita de streaming dedicada exclusivamente ao cinema brasileiro. Acabou de chegar e já tem no catálogo alguns dos filmes mais importantes que esse país já produziu.

Fizemos a curadoria dos 7 melhores longas de ficção disponíveis agora na plataforma. São filmes que definem o que o cinema brasileiro é capaz de fazer quando opera no nível mais alto: Glauber Rocha, Suzana Amaral, Hector Babenco, entre outros.

Gratuito, sem assinatura. Para esses filmes Vale o Play.




A HORA DA ESTRELA (1985) - Suzana Amaral

Macabéa não sabia que era infeliz. Essa ignorância era a única coisa que a protegia.

Suzana Amaral adaptou Clarice Lispector num filme que deveria ser impossível: como transformar num objeto visual uma prosa que existe no espaço entre o pensamento e a linguagem? A resposta foi Marcélia Cartaxo, numa performance que ganhou o Urso de Prata em Berlim e que permanece como uma das maiores da história do cinema brasileiro. Macabéa é nordestina, pobre, invisível, e o filme a filma com uma dignidade que recusa tanto a condescendência quanto o melodrama.

A Hora da Estrela é um dos raros filmes brasileiros que entendem que mostrar uma vida pequena com atenção total é um ato político. Quarenta anos depois, Macabéa ainda incomoda porque o Brasil que ela habita não foi embora.

A análise completa e onde assistir está no CRÍTICA LIVRE DE CINEMA


DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964) - Glauber Rocha

Manuel seguiu um santo, depois seguiu um cangaceiro. O sertão não perdoou nenhuma das duas escolhas.

Glauber Rocha tinha 25 anos quando filmou Deus e o Diabo na Terra do Sol e já sabia que queria fazer um cinema que não existia ainda. O resultado é o filme mais importante do Cinema Novo brasileiro e um dos mais radicais da história do cinema latino-americano: seco, violento, poético e furioso, filmado no sertão da Bahia com uma câmera que parece estar descobrindo o Brasil ao mesmo tempo que o condena.

Sessenta anos depois da estreia, o filme continua sendo a pergunta mais honesta que o cinema brasileiro fez sobre o que esse país é e por que é assim.

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A NOITE DO ESPANTALHO (1974) - Sérgio Ricardo

O sertão como território político. A memória coletiva como forma de resistência. Sergio Ricardo filmou os dois ao mesmo tempo.

Compositor ligado às transformações culturais brasileiras dos anos 1960 e 1970, Sergio Ricardo usou o cordel, a música popular nordestina e a tradição oral como linguagem para falar de poder, terra e exploração num momento em que a censura ainda determinava o que o cinema podia dizer de forma direta. A Noite do Espantalho mistura teatro, poesia, música e mito com uma fluidez que recusa qualquer definição convencional de gênero, e a trilha com Alceu Valença e Geraldo Azevedo é tão inseparável do filme que os dois chegaram ao público quase simultaneamente.

Uma das experiências mais singulares do cinema brasileiro dos anos 1970, e uma das menos conhecidas por quem deveria conhecê-la.

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ORFEU DO CARNAVAL (1959) - Marcel Camus

Orfeu era motorista de bonde no Rio de Janeiro. Eurídice chegou de ônibus do interior. O carnaval fez o resto.

Marcel Camus transpôs o mito grego para o morro carioca e ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O Rio de Janeiro de 1959 que o filme registra já não existe, e essa camada documental involuntária tornou Orfeu do Carnaval num arquivo visual de uma cidade e de uma forma de viver o carnaval que o tempo apagou. A trilha de Luiz Bonfá e Tom Jobim chegou ao mundo ocidental por esse filme antes da bossa nova ser bossa nova.

Um diretor francês olhou para o Brasil e viu algo que o cinema brasileiro da época ainda não havia filmado dessa forma. O resultado incômoda e encanta pelo mesmo motivo.

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SÃO PAULO, SOCIEDADE ANÔNIMA (1965) - Luís Sérgio Person

Carlos tinha emprego, tinha apartamento, tinha namorada. Não tinha nada que quisesse ter.

Luís Sérgio Person filmou São Paulo no momento exato em que a cidade se tornava o motor industrial do Brasil, e colocou no centro dessa transformação um homem que não consegue decidir se quer fazer parte dela. São Paulo, Sociedade Anônima é o filme mais preciso sobre a alienação urbana brasileira dos anos 1960, e antecipa questões sobre trabalho, identidade e vazio existencial que o cinema brasileiro levaria décadas para retomar com a mesma seriedade.

Person morreu num acidente de carro em 1976 com 38 anos. Esse filme é o argumento mais forte de que o cinema brasileiro perdeu um dos seus maiores diretores antes que a carreira tivesse chegado na metade.

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CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005) - Marcelo Gomes

Johann vendia aspirinas pelo sertão nordestino num caminhão. Ranvisson precisava de carona. Os dois não tinham mais nada em comum do que isso.

Marcelo Gomes filmou o sertão nordestino do ponto de vista de um alemão que veio para o Brasil depois da guerra e que vende remédios de cidade em cidade sem nunca parar tempo suficiente para se perguntar de quê está fugindo. A estrada como estrutura narrativa é um recurso gasto, mas Gomes o usa com uma secura que transforma o road movie numa meditação sobre deslocamento, pertencimento e o que significa estar em algum lugar sem ser daquele lugar.

Um dos filmes brasileiros mais subestimados dos anos 2000, e o que melhor entende que o sertão não é cenário. É personagem.

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CARANDIRU (2003) - Hector Babenco

O médico foi ao Carandiru para um projeto de saúde. O que encontrou foram histórias que o sistema havia decidido que não precisavam ser contadas.

Hector Babenco adaptou o livro de Drauzio Varella e construiu um arquivo de histórias dentro do maior presídio da América Latina antes do massacre de 1992 que matou cento e onze detentos. O filme recusa a narrativa única e aposta na multiplicidade porque entendeu que reduzir o Carandiru a uma história central seria uma mentira sobre o que aquele lugar era. Rodrigo Santoro como Lady Di entrega uma das performances mais corajosas do cinema brasileiro daquele período.

Mais de vinte anos depois do filme e mais de trinta depois do massacre, nenhuma autoridade foi condenada pelas mortes. O arquivo de Babenco continua sendo um dos poucos registros que deu rosto ao que o Estado preferiu manter sem nome.

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