Em junho de 2025, o New York Times convidou mais de 500 dos diretores, atores e críticos mais influentes do mundo para identificar os filmes definitivos do século 21. Cada votante foi convidado a nomear os 10 melhores filmes lançados desde 1º de janeiro de 2000, e os votos foram compilados numa lista ranqueada de 100 filmes que, segundo o jornal, resistiram ao teste do tempo.
O critério de seleção dos votantes não foi tornado público em detalhe, mas entre os participantes estão nomes como Guillermo del Toro, Sofia Coppola, Pedro Almodóvar, Julianne Moore e Mikey Madison, ao lado de celebridades como Pamela Anderson e Rachel Zegler. É um grupo que mistura cineastas de prestígio internacional, atores vencedores de Oscar e personalidades de alcance mais comercial, sem hierarquia declarada entre os votos.
O método: dez escolhas pessoais, sem critério comum
A instrução era simples: cada pessoa lista seus 10 filmes favoritos do século. Não havia categorias, não havia pesos por gênero ou país, não havia exigência de justificar as escolhas. O resultado é uma agregação pura de preferência individual.
Essa simplicidade tem uma consequência que poucas pessoas notaram na repercussão da lista. Dos sete votantes cujas listas mais se aproximaram do resultado final, nenhum filme apareceu em todas as sete listas. O mais próximo disso foi Parasita, que apareceu em quatro das sete. Ou seja: mesmo entre quem mais "acertou" o consenso, não existe um filme que todos consideram o melhor do século. O número 1 da lista não é o filme mais amado. É o filme que apareceu na maior quantidade de listas diferentes, escritas por pessoas com gostos amplamente distintos entre si.
O que o resultado significa
Uma lista construída assim não mede qualidade no sentido em que a crítica especializada normalmente usa essa palavra. Mede frequência de menção dentro de um universo de votantes heterogêneo. Um filme pode chegar ao topo não porque é consenso de excelência, mas porque é o tipo de filme que aparece nas listas de pessoas com critérios de outra forma incompatíveis. Parasita funciona nesse papel: é ao mesmo tempo prestigiado pela crítica, premiado pela Academia e popular o suficiente para aparecer na lista de quem normalmente vota em filmes de gênero ou blockbusters.A lista do NYT, portanto, não responde "qual é o melhor filme do século". Responde "qual filme menos pessoas da indústria deixariam de fora se tivessem que escolher dez".
A diferença em relação ao Sight & Sound / BFI
A pesquisa do Sight & Sound, conduzida pela BFI a cada dez anos desde 1952, opera com uma lógica diferente em pelo menos três aspectos. Primeiro, o eleitorado: são críticos, programadores e acadêmicos de cinema, não profissionais da indústria audiovisual. Segundo, o recorte temporal: o Sight & Sound pergunta pelos melhores filmes da história do cinema, não de um século específico, o que naturalmente privilegia obras com décadas de avaliação crítica acumulada. Na edição de 2022 do Sight & Sound, apenas 10 dos 100 filmes da lista eram do século 21, contra os 100 do NYT que são todos do século 21 por definição.
Terceiro, e mais importante: o Sight & Sound tende a recompensar filmes que já passaram por décadas de revisão crítica e consolidaram status de obra canônica. A lista do NYT, ao perguntar especificamente sobre o século em curso, captura também filmes recentes que ainda não tiveram tempo de passar por esse processo, e cuja presença na lista pode refletir tanto qualidade quanto impacto imediato ou afinidade geracional dos votantes.
A relevância da lista
A lista do NYT vale menos como veredito de qualidade e mais como retrato de um momento: o que a indústria do cinema, em 2025, considera que define o século até aqui. É uma fotografia do gosto coletivo de Hollywood e adjacências, com todas as inconsistências que isso implica. Filmes de gênero convivem com cinema de arte, blockbusters convivem com produções de festival, e a presença de cada um diz tanto sobre o filme quanto sobre quem foi convidado a votar.
1. PARASITA (2019) - Bong Joon Ho
A família Kim se infiltra na casa da família Park. A casa guarda outro segredo, e é maior do que qualquer um dos dois lados imagina.
Bong Joon Ho constrói uma sátira sobre desigualdade que muda de gênero a cada ato sem perder o controle, e termina num lugar que nenhuma sinopse antecipa. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, o primeiro filme não falado em inglês a conquistar a categoria, e número 1 na lista do New York Times dos melhores filmes do século 21.
A casa em forma de espelho, o porão como metáfora literal, a chuva que separa duas formas de viver a mesma cidade. Tudo em Parasita comunica antes de explicar.
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2. CIDADE DOS SONHOS (2001) - David Lynch
Uma aspirante a atriz encontra uma mulher amnésica num apartamento de Hollywood. A partir daí, nada no filme pode ser tomado como certo.
David Lynch constrói um quebra-cabeça que se recusa a ser resolvido, e essa recusa é o ponto. Naomi Watts entrega uma das performances mais marcantes do cinema americano dos anos 2000, dividida entre dois registros que o filme nunca declara qual é qual.
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor, e na segunda posição da lista do New York Times. Um filme que muda a cada vez que se assiste, porque a chave nunca é a mesma.
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3. SANGUE NEGRO (2007) - Paul Thomas Anderson
Daniel Plainview encontrou petróleo. O que fez com esse achado consumiu tudo o que existia ao redor, inclusive ele mesmo.
Paul Thomas Anderson adapta livremente Upton Sinclair e entrega um retrato da ambição americana através de um homem que não tem limite para o que está dispostos a destruir. Daniel Day-Lewis ganhou o Oscar de Melhor Ator por uma performance que define o filme inteiro.
Terceiro lugar na lista do New York Times, e um dos poucos filmes do século que conseguiu transformar petróleo, religião e família numa única tragédia americana.
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4. AMOR À FLOR DA PELE (2000) - Wong Kar-Wai
Dois vizinhos descobrem que seus respectivos cônjuges os traem. O que fazem com essa descoberta é a história inteira.
Wong Kar-Wai filma Hong Kong dos anos 1960 com uma elegância visual que se tornou referência, e constrói uma história de amor que se sustenta inteiramente sobre o que não é dito. Tony Leung e Maggie Cheung carregam o filme com olhares, corredores estreitos e a mesma trilha sonora que retorna como lembrança.
Quarto lugar na lista do New York Times. Um filme sobre desejo contido que nunca precisa de uma cena de consumação para ser sobre desejo.
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5. MOONLIGHT (2016) - Barry Jenkins
Chiron cresce em três momentos da vida, em Miami, sempre tentando entender quem é num mundo que já decidiu isso por ele.
Barry Jenkins divide o filme em três atos, com três atores diferentes para o mesmo personagem, e constrói um retrato sobre masculinidade negra, identidade e o custo do silêncio. Vencedor do Oscar de Melhor Filme, numa das noites mais lembradas da história da premiação.
Quinto lugar na lista do New York Times. Um filme pequeno em escala e enorme em alcance emocional.
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6. ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2007) - Ethan e Joel Coen
Um caçador encontra dinheiro de um negócio de drogas que deu errado no deserto do Texas. A partir daí, é perseguido por algo que a violência não consegue explicar.
Os irmãos Coen adaptam Cormac McCarthy e entregam um dos vilões mais aterrorizantes do cinema americano: Anton Chigurh, interpretado por Javier Bardem, que venceu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O filme também ganhou Melhor Filme e Melhor Diretor.
Sexto lugar na lista do New York Times. Um thriller que abandona as convenções do gênero exatamente quando o espectador espera que ele as cumpra.
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7. BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (2004) - Michel Gondry
Joel descobre que Clementine apagou todas as memórias dele. Decide fazer o mesmo. No meio do processo, percebe que não quer.
Michel Gondry e o roteirista Charlie Kaufman, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, constroem um filme sobre memória, amor e a tentação de apagar a dor em vez de viver com ela. Jim Carrey e Kate Winslet entregam as performances mais contidas das respectivas carreiras.
Sétimo lugar na lista do New York Times. Um filme sobre romance que entende que esquecer não é a mesma coisa que curar.
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8. CORRA! (2017) - Jordan Peele
Chris vai conhecer os pais da namorada num fim de semana no interior. O que encontra ali é mais antigo e mais sistemático do que parece.
Jordan Peele faz sua estreia na direção com um terror que é também uma das análises mais afiadas sobre racismo no cinema americano recente. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, e indicado a Melhor Filme e Melhor Diretor.
Oitavo lugar na lista do New York Times. Um filme que funciona como horror, como comédia e como denúncia ao mesmo tempo, sem que nenhum desses registros enfraqueça o outro.
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9. A VIAGEM DE CHIHIRO (2001) - Hayao Miyazaki
Chihiro entra num mundo de espíritos enquanto os pais são transformados em porcos. Para voltar para casa, precisa aprender a sobreviver ali sozinha.
Hayao Miyazaki constrói um dos universos mais ricos da animação, e Chihiro é uma protagonista que cresce diante do espectador sem que o filme precise declarar essa transformação. Vencedor do Oscar de Melhor Filme de Animação, o primeiro filme não produzido nos Estados Unidos a receber o prêmio.
Nono lugar na lista do New York Times. Um filme que trata a infância como um território onde perder-se é parte de crescer.
Onde assistir: JustWatch
10. A REDE SOCIAL (2010) - David Fincher
Mark Zuckerberg criou algo que conectou o mundo. No processo, perdeu praticamente todas as pessoas que tinha por perto.
David Fincher e o roteirista Aaron Sorkin contam a origem do Facebook como uma tragédia sobre ambição, traição e a solidão de quem constrói conexão sem conseguir vivê-la. Jesse Eisenberg interpreta Zuckerberg com uma frieza que o filme nunca pede para o espectador perdoar.
Décimo lugar na lista do New York Times. Um filme sobre os anos 2000 que, quinze anos depois, parece ter previsto o que viria.
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