À primeira vista, parecia o começo de uma carreira cuidadosamente desenhada por Hollywood. Mas o maior desafio de Leonardo DiCaprio começaria justamente depois de alcançar esse sucesso.
Ao longo da história do cinema, muitos atores se tornaram inseparáveis do personagem que os consagrou. Alguns passaram anos tentando escapar dessa associação. Outros descobriram que o público desejava revê-los, filme após filme, desempenhando pequenas variações do mesmo papel. DiCaprio seguiu outro caminho.
Este ensaio não procura explicar por que Titanic se tornou um clássico nem discutir se Jack Dawson continua sendo seu personagem mais popular. A questão é outra. O que faz um ator quando, aos vinte e três anos, já interpretou o personagem que pode definir toda a sua carreira?
A resposta não está em entrevistas nem em declarações públicas. Ela está nos filmes que Leonardo DiCaprio escolheu fazer depois de Titanic.
Antes de Jack Dawson
É fácil esquecer que James Cameron não escolheu um desconhecido para protagonizar Titanic. Quando as filmagens começaram, Leonardo DiCaprio já havia chamado a atenção de Hollywood por uma sequência incomum de trabalhos. Em poucos anos, interpretou um adolescente com deficiência intelectual em Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador, um jovem consumido pela dependência química em Diário de um Adolescente, dividiu a cena com Meryl Streep, Diane Keaton e Robert De Niro em As Filhas de Marvin e protagonizou a versão contemporânea de Romeu + Julieta, dirigida por Baz Luhrmann.
Mais importante do que a diversidade desses personagens era
o que ela revelava. Ainda muito jovem, DiCaprio parecia pouco interessado em
repetir um mesmo tipo de papel. Em vez de construir uma identidade reconhecível
diante das câmeras, buscava experiências muito diferentes entre si.
Foi essa combinação de talento e versatilidade que levou James Cameron a escolhê-lo para viver Jack Dawson. Ninguém poderia imaginar que aquele personagem se tornaria maior do que todos os anteriores. Nem que, durante muitos anos, seria a principal referência utilizada para medir tudo o que Leonardo DiCaprio faria depois.
Quando tudo podia se repetir
Os dois filmes lançados logo em seguida, O Homem da
Máscara de Ferro e Don's Plum, pertenciam a compromissos assumidos
antes da estreia de Titanic. A verdadeira resposta só chegaria em 2000,
com A Praia.
Richard não é um protagonista construído para despertar admiração. Fascinado pela ideia de encontrar um paraíso escondido do restante do mundo, inicia uma jornada que, aos poucos, revela seu egoísmo, sua incapacidade de compreender as consequências dos próprios atos e uma crescente desintegração emocional. Danny Boyle não procura transformá-lo em herói nem oferecer justificativas para suas escolhas. O espectador é convidado a observá-lo, não necessariamente a gostar dele. Essa opção diz muito sobre o momento vivido por DiCaprio.
Seu primeiro personagem escolhido depois de Titanic
não prolongava a imagem que o público acabara de consagrar. Também não parecia
concebido para protegê-la. Richard representava um desafio interpretativo muito
diferente daquele que milhões de espectadores ainda associavam ao ator.
Na época, A Praia foi visto apenas como o retorno de Leonardo DiCaprio às telas depois do enorme sucesso de Titanic. Hoje, ocupa um lugar mais interessante em sua filmografia. Foi ali que começou a resposta.
O encontro que fez diferença
Em 2002, aceitou protagonizar Gangues de Nova York, projeto que Martin Scorsese tentava realizar havia décadas. Era o primeiro encontro entre um diretor consagrado e um ator que ainda buscava definir sua identidade artística. Hoje, essa parceria parece inevitável. Naquele momento, não era.
Scorsese já era reconhecido como um dos grandes cineastas
americanos, autor de uma filmografia marcada por personagens contraditórios e
moralmente ambíguos. Trabalhar com ele significava ingressar em um universo
muito diferente daquele normalmente reservado aos maiores astros de Hollywood.
Curiosamente, Amsterdam Vallon talvez nem seja o personagem
mais memorável de Gangues de Nova York. Daniel Day-Lewis domina o filme
como Bill, o Açougueiro, em uma interpretação que se tornou uma das mais
celebradas de sua carreira. Longe de diminuir DiCaprio, esse detalhe ajuda a
compreender a escolha que fazia naquele momento. Em vez de procurar um projeto
construído para reafirmar sua posição de estrela, aceitou integrar uma obra em
que o protagonismo dramático seria compartilhado.
O verdadeiro legado de Gangues de Nova York, porém, não está apenas no filme. Está no encontro entre dois artistas que pareciam procurar a mesma coisa. Scorsese encontrou um ator disposto a assumir personagens cada vez mais complexos. DiCaprio encontrou um diretor capaz de oferecer exatamente esse tipo de desafio. Dessa parceria nasceriam O Aviador, Os Infiltrados, Ilha do Medo, O Lobo de Wall Street e Assassinos da Lua das Flores.
Em 2002, nada disso podia ser previsto. Existia apenas um encontro que, com o tempo, faria toda a diferença.
Jack Dawson inspirava confiança porque era exatamente quem
dizia ser. Frank Abagnale constrói sua vida fazendo o oposto. Piloto, médico,
advogado, agente do governo. Cada identidade é uma encenação cuidadosamente
planejada para convencer os outros de que estão diante da pessoa certa.
Steven Spielberg transforma essa habilidade em um jogo divertido. Leonardo DiCaprio, por sua vez, compreende que o personagem só funciona se o espectador também acreditar nele. Seu carisma continua presente, mas agora cumpre outra função dramática. Já não aproxima o público de um herói. Sustenta um impostor. Foi um uso diferente de uma qualidade que o ator já possuía. E preparava, silenciosamente, um desafio muito maior.
Quando Leonardo aumentou o desafio
O homem que Martin Scorsese levou às telas era, ao mesmo
tempo, empresário, aviador, produtor de cinema e uma das figuras mais
fascinantes do século XX. Mais do que acompanhar sua ascensão, O Aviador
observa a lenta transformação de um homem consumido pelas próprias obsessões. À
medida que o filme avança, o brilho do empreendedor cede espaço ao isolamento,
ao medo e ao transtorno obsessivo-compulsivo que passa a dominar sua vida.
Interpretar Howard Hughes exigia muito mais do que
reproduzir uma figura histórica. O personagem atravessa diferentes fases da
vida, muda física e emocionalmente diante do espectador e termina distante
daquele homem confiante apresentado no início da narrativa. Era, até então, o
papel mais complexo da carreira de DiCaprio.
O reconhecimento veio rapidamente. A atuação lhe rendeu o
Globo de Ouro de Melhor Ator e uma nova indicação ao Oscar, agora como
protagonista. Mais importante do que os prêmios, porém, era a consistência que
começava a surgir em sua filmografia. As escolhas feitas desde A Praia
já não pareciam episódios independentes.
Depois de Howard Hughes, já era possível olhar para trás e
perceber que havia um percurso em construção.
O percurso se revela
Em Os Infiltrados, Billy Costigan é um policial
infiltrado na máfia de Boston. Vive permanentemente sob pressão, dividido entre
duas identidades e incapaz de confiar em qualquer pessoa. A tensão do
personagem não nasce apenas dos acontecimentos, mas da sensação de que, a
qualquer momento, sua vida pode desmoronar.
No mesmo ano, DiCaprio interpretou Danny Archer em Diamante de Sangue. Mercenário experiente, Archer conhece as regras de um mundo em
que sobrevivência e ética raramente caminham juntas. É um personagem endurecido
pela guerra, acostumado a tomar decisões moralmente desconfortáveis e distante
de qualquer idealização.
Pouco aproxima Billy Costigan de Danny Archer. Ainda assim, ambos pertencem ao mesmo percurso. Nenhum deles existe para conquistar imediatamente a simpatia do espectador. São personagens marcados pela contradição, pela fragilidade e pela ambiguidade moral. Exigem do ator registros muito diferentes, mas igualmente complexos.
Vistos isoladamente, esses dois filmes representam desafios interpretativos distintos. Observados em sequência, revelam algo mais interessante. Depois de 2006, aquele percurso já podia ser reconhecido com nitidez.
A consistência de um caminho
Lançado em 2008, Rede de Mentiras, de Ridley Scott,
dificilmente aparece entre os títulos mais lembrados da filmografia de Leonardo
DiCaprio. Não provocou o impacto de O Aviador nem conquistou o
reconhecimento de Os Infiltrados. Ainda assim, sua presença nessa
trajetória merece atenção.
Roger Ferris é um agente da CIA que passa boa parte do tempo
reagindo aos acontecimentos, pressionado por decisões tomadas acima dele e
obrigado a operar em um universo onde confiança é um bem escasso. Está longe do
herói infalível frequentemente associado aos thrillers de espionagem. É um
personagem cansado, vulnerável e constantemente colocado à prova.
O interesse de Rede de Mentiras dentro deste ensaio não está em representar uma nova etapa da carreira de DiCaprio. Está justamente no contrário. Em 2008, uma escolha como essa já não surpreendia. O caminho percorrido desde A Praia havia tornado natural que Leonardo DiCaprio buscasse personagens dessa natureza. O filme não inaugura um novo movimento. Apenas confirma a consistência de um caminho construído ao longo da década. É justamente por isso que sua presença aqui importa.
O reencontro que não era Titanic
Em 2008, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet voltaram a dividir a tela pela primeira vez desde Titanic.
Poucos reencontros despertariam uma expectativa semelhante.
Onze anos antes, os dois haviam dado vida a um dos casais mais populares da
história do cinema. Era natural que o público voltasse a procurar, ainda que
inconscientemente, algum vestígio de Jack e Rose.
Foi Apenas um Sonho, dirigido por Sam Mendes e baseado no romance de Richard Yates, segue exatamente na direção oposta. Frank e April Wheeler vivem um casamento marcado por frustrações, silêncios e expectativas que nunca se realizam. Em vez de um amor interrompido pelas circunstâncias, o filme acompanha o desgaste lento de uma relação que já não consegue sustentar os sonhos que um dia a definiam.
O contraste com Titanic é inevitável. Não porque os
filmes procurem dialogar entre si, mas porque o reencontro de DiCaprio e
Winslet torna essa comparação impossível de evitar. A memória de Jack e Rose
acompanha o espectador durante toda a projeção.
O significado desse reencontro se amplia quando observamos a trajetória dos dois atores. Assim como DiCaprio, Kate Winslet também recusou permanecer identificada apenas com o filme que a transformou em uma estrela mundial. Ao longo da década seguinte, construiu uma carreira marcada por personagens exigentes, diretores muito diferentes entre si e escolhas frequentemente distantes do caminho mais previsível. Quando voltaram a atuar juntos, já não eram apenas os protagonistas de Titanic. Eram dois atores que haviam construído trajetórias surpreendentemente semelhantes.
Talvez seja esse o verdadeiro lugar de Foi Apenas um Sonho na carreira de Leonardo DiCaprio. O filme não representa uma ruptura. As decisões mais importantes já haviam sido tomadas antes. Seu valor está em permitir que o espectador perceba, quase sem esforço, a distância percorrida desde Jack Dawson.
Mais do que um reencontro, o filme oferece uma perspectiva
privilegiada sobre toda a trajetória construída entre 1997 e 2008.
Depois de Jack Dawson
O que a sequência desses filmes revela, porém, é uma
coerência difícil de ignorar. Em vez de explorar indefinidamente o personagem
que o transformou em um fenômeno mundial, DiCaprio passou a construir uma
filmografia marcada por desafios cada vez maiores. Vieram novas parcerias com
Martin Scorsese, trabalhos com alguns dos diretores mais importantes do cinema
contemporâneo, sucessivas indicações ao Oscar e, finalmente, a estatueta por O Regresso. Mais importante do que os prêmios, porém, foi o conjunto da obra.
Hoje, Leonardo DiCaprio pode ser lembrado por Howard Hughes,
Billy Costigan, Danny Archer, Calvin Candie, Jordan Belfort, Hugh Glass, Rick
Dalton, Ernest Burkhart e tantos outros personagens. Jack Dawson continua entre
eles. Mas já não está sozinho.
Talvez esse seja o verdadeiro legado das escolhas iniciadas
depois de Titanic. Elas não diminuíram a importância de Jack Dawson.
Fizeram algo mais difícil: impediram que um único personagem fosse suficiente
para definir uma carreira.
Ao olhar retrospectivamente essa trajetória, talvez a pergunta mais interessante já não seja por que Leonardo DiCaprio recusou repetir Jack Dawson. A pergunta é outra. Quantos atores, depois de interpretar um personagem capaz de definir toda uma carreira, conseguem construir uma filmografia que torna impossível resumi-los a ele?
Essa talvez seja a maior conquista de Leonardo DiCaprio: ter
construído uma carreira grande o bastante para que Jack Dawson deixasse de ser
seu único retrato.