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Cadernos de Debate

Filme: Dias Perfeitos (2023)

Data: 28 de junho de 2026


Na quarta edição do debate sobre o filme da semana do Clube de Cinema da Filmoteca, Dias Perfeitos, de Wim Wenders, deu origem ao debate mais participativo realizado até agora. Embora o filme acompanhe apenas alguns dias na vida de Hirayama, um homem que trabalha na limpeza de banheiros públicos em Tóquio, a conversa mostrou como uma narrativa aparentemente simples pode abrir espaço para reflexões muito diferentes sobre felicidade, rotina, memória, solidão e sentido da vida.

A rotina nunca é exatamente igual

Um dos primeiros pontos discutidos foi a ausência de grandes acontecimentos dramáticos. Em vez de um conflito central ou de um clímax tradicional, o filme acompanha gestos cotidianos que se repetem diariamente.

A percepção predominante foi que essa repetição, aos poucos, deixa de parecer repetição. Cada dia apresenta pequenas diferenças: uma fotografia, um encontro inesperado, uma música, uma mudança de luz entre as árvores. O extraordinário deixa de estar nos acontecimentos e passa a surgir na forma como Hirayama observa o mundo.


A felicidade depende de quê?

Talvez nenhuma pergunta tenha atravessado tantas respostas quanto esta.

O debate caminhou para a ideia de que Dias Perfeitos desafia uma crença muito presente na cultura contemporânea: a de que felicidade depende de novidades constantes.

Diversos participantes observaram que Hirayama encontra satisfação justamente na atenção dedicada às pequenas experiências do cotidiano. O filme parece sugerir que felicidade não significa ausência de sofrimento, mas capacidade de permanecer presente mesmo quando a vida continua trazendo perdas, lembranças e dores. A cena final foi frequentemente lembrada como exemplo dessa convivência entre alegria e melancolia.

O passado permanece em silêncio

Outro eixo importante da conversa foi o passado do protagonista.

O filme nunca explica por que Hirayama rompeu com a família, mas oferece pistas suficientes para que o espectador formule suas próprias hipóteses. Sua relação com a irmã, a sobrinha, os livros que lê, as músicas que escuta e o cuidado quase ritual com sua rotina sugerem um homem que não chegou àquela vida por acaso.

As interpretações foram variadas. Alguns enxergaram uma escolha consciente por uma existência mais simples. Outros perceberam uma tentativa de sobreviver emocionalmente a um passado doloroso. A ausência de respostas definitivas foi vista como uma das maiores qualidades do roteiro.

Aprender a olhar

A discussão também destacou a maneira como Wim Wenders transforma elementos aparentemente banais em parte essencial da narrativa.

As fotografias das árvores, a luz atravessando as folhas (komorebi), o uso do silêncio, os enquadramentos pacientes, a trilha sonora e a atenção aos pequenos gestos revelam um diretor interessado menos em explicar quem é Hirayama do que em permitir que o espectador aprenda a olhar o mundo através dele.

Mais do que conhecer o personagem por aquilo que diz, passamos a conhecê-lo pela forma como observa as coisas ao seu redor.


Uma vida suportada ou escolhida?

A pergunta que encerrou o debate sintetizou boa parte das reflexões da noite: Hirayama encontrou um modo de viver ou apenas um modo de suportar a vida?

Não houve consenso, e talvez essa seja a melhor resposta.

Para alguns participantes, ele fez uma escolha consciente por uma vida simples, coerente com seus valores. Para outros, sua rotina também revela marcas profundas de perdas, rupturas e tentativas de reorganizar a própria existência.

Independentemente da interpretação, surgiu uma ideia compartilhada por grande parte do grupo: Hirayama não parece buscar uma vida perfeita. Busca apenas viver em paz consigo mesmo.

Conclusão

Ao final da discussão, ficou evidente que Dias Perfeitos não é um filme sobre banheiros públicos, nem apenas sobre rotina. É um filme sobre atenção. Sobre a possibilidade de encontrar significado onde normalmente enxergamos apenas repetição.

Talvez sua maior provocação seja justamente esta: se a felicidade depende sempre de grandes acontecimentos, ela será inevitavelmente rara. Mas, se depende da maneira como olhamos o cotidiano, cada dia pode conter algo que ainda não havíamos percebido.



Esta síntese foi elaborada a partir das reflexões desenvolvidas pelos participantes do Clube de Cinema da Filmoteca durante o debate sobre Dias Perfeitos, realizado em 28 de junho de 2026. As contribuições foram organizadas editorialmente para preservar os principais temas, argumentos e diferentes perspectivas apresentados na discussão.