Em 2013 a Reader's Digest fez uma pesquisa para descobrir as 100 pessoas mais confiáveis dos Estados Unidos. Tom Hanks ficou em primeiro lugar. À frente de médicos, cientistas, presidentes e líderes religiosos. Um ator.
A resposta para como isso é possível está nos filmes.
Tom Hanks não é o ator mais bonito de Hollywood. Não é o mais carismático no sentido convencional. Não tem a intensidade de De Niro nem a presença física de Brando. O que tem é algo mais difícil de fabricar e mais difícil de imitar: você acredita nele. Não no personagem, em Hanks. Quando ele chora na tela, o espectador sente que aquelas lágrimas são reais. Quando ele tem medo, o espectador tem medo junto. Quando ele persiste quando deveria desistir, o espectador torce de uma forma que vai além da narrativa.
A explicação mais precisa para o fenômeno Tom Hanks é a que ele próprio nunca tentou criar. Outros atores constroem imagens, administram reputações, escolhem papéis para expandir ou proteger uma persona. Hanks escolheu papéis para contar histórias, e as histórias que escolheu são sempre a mesma história com variações: um homem comum colocado numa situação que nenhum homem comum deveria ter que enfrentar, e que encontra dentro de si o que precisa para atravessar.
Forrest Gump na história americana. Chuck Noland sozinho num deserto de água. Andrew Beckett num tribunal que não queria ouvi-lo. Viktor Navorski num aeroporto que não era o seu país. Capitão Phillips num navio tomado. Captain Miller em Omaha Beach. Josh Baskin num corpo que não era o seu. Em todos eles, o mesmo homem. Em todos, a mesma pergunta: o que você faria?
É o ator cujas performances nos fazem reconsiderar nossas próprias escolhas morais. Assistindo a ele na tela, pensamos sobre o que faríamos, e o que já fizemos.
Dois Oscars consecutivos por Philadelphia e Forrest Gump, feito que só Spencer Tracy havia conseguido antes. Sete Emmys. Uma Medalha Presidencial da Liberdade. Uma carreira que abrange sitcoms, blockbusters, televisão de prestígio e franquias animadas que sobreviveram a gerações inteiras de espectadores. E o número que resume tudo: mais de 4,9 bilhões de dólares em bilheteria apenas nos Estados Unidos.
Mas nenhum desses números explica por que o mundo confia nele mais do que em qualquer outra pessoa pública do país. O que explica é o que você vai ver nos sete filmes desta seleção.
A curadoria escolheu sete filmes por um critério único: cada um coloca Tom Hanks numa situação impossível e mostra o que um homem comum faz quando não há outra opção além de continuar. São filmes de gêneros completamente diferentes, de épocas diferentes, com diretores diferentes. O que têm em comum é ele.
A análise completa de cada filme está no Crítica Livre de Cinema.
Josh tinha 12 anos quando acordou no corpo de um adulto. O problema é que continuou sendo Josh.
Big foi o filme que revelou Tom Hanks como fenômeno. Primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator, numa época em que comédias raramente eram reconhecidas pela Academia. O roteiro de Gary Ross e Anne Spielberg foi rejeitado por todos os estúdios antes de chegar à Penny Marshall, que viu nele algo que os outros não viram. Com orçamento de 18 milhões de dólares arrecadou 151 milhões mundialmente.
O que Hanks fez com Josh é tecnicamente extraordinário: construiu um adulto que pensa, move e reage como uma criança de 12 anos sem nunca virar caricatura. Cada vez que Josh entra numa sala de adultos, Hanks mostra o desconforto de alguém que está no lugar errado sem saber exatamente por quê. É a primeira vez que o espectador entende o que Hanks pode fazer: habitar uma lógica interna completamente diferente da sua sem deixar transparecer o trabalho.
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Filadéfia (1993) — Jonathan Demme
Andrew Beckett foi demitido porque estava morrendo de AIDS. Decidiu processar o escritório. Nenhum advogado de Filadélfia quis defendê-lo.
Philadelphia foi o primeiro filme de grande estúdio americano a tratar diretamente da epidemia de AIDS. Jonathan Demme dirigiu. Denzel Washington co-estrela como o advogado que aceita o caso por dinheiro e vai mudando de posição ao longo do processo. Hanks ganhou o Oscar de Melhor Ator, o primeiro de dois consecutivos.
O que o papel exigiu de Hanks foi o que nenhum ator de primeira linha havia aceitado fazer antes: encarnar um homem gay morrendo de AIDS numa época em que o estigma em torno da doença ainda definia carreiras. Hanks aceitou porque acreditava no filme, e o que entregou é uma performance que constrói Andrew Beckett de dentro para fora: a inteligência jurídica, o amor pela ópera, o medo que esconde, a dignidade que recusa abandonar. O Oscar reconheceu a coragem antes de reconhecer a qualidade. Com o tempo ficou claro que as duas eram igualmente extraordinárias.
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Forrest Gump (1994) — Robert Zemeckis
Forrest não era inteligente. Mas sabia o que era amor. E foi suficiente para atravessar cinco décadas de história americana.
Seis Oscars incluindo Melhor Filme e Melhor Ator. 678 milhões de dólares mundialmente. Frases que entraram no vocabulário cotidiano de pessoas que nunca assistiram ao filme. Forrest Gump é o maior fenômeno cultural da carreira de Hanks e um dos mais estudados do cinema americano dos anos 1990.
O que Hanks fez com Forrest é a escolha mais delicada da lista: não caricaturou, não sentimentalizou, não condescendeu. Forrest é uma pessoa específica com uma forma específica de entender o mundo, e Hanks a respeita completamente do início ao fim. A corrida, o sotaque do Alabama, a postura física que comunica quem Forrest é antes de qualquer palavra: cada detalhe foi construído com a precisão de alguém que sabe que o personagem só funciona se o espectador acreditar completamente nele. O espectador acreditou.
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Náufrago (2000) — Robert Zemeckis
O avião caiu. Chuck sobreviveu. Passou quatro anos sozinho numa ilha. A bola de vôlei tem nome.
Náufrago é o experimento mais radical da carreira de Hanks: um filme em que ele está sozinho em tela por aproximadamente duas horas, sem diálogo significativo, sem co-estrelas, sem enredo convencional. O único apoio dramático é Wilson, uma bola de vôlei com uma impressão de mão ensanguentada. Hanks foi indicado ao Oscar de Melhor Ator.
Para preparar o papel, Hanks perdeu 25 quilos entre a primeira e a segunda fase das filmagens, período em que Zemeckis rodou outro filme enquanto esperava a transformação física. O resultado é um filme que só existe porque Hanks sustenta cada cena com uma fisicalidade e uma presença que não podem ser simuladas. A cena em que Chuck perde Wilson no oceano é o momento mais emocionalmente impactante da carreira de Hanks, e é com uma bola de vôlei.
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O Resgate do Soldado Ryan (1998) — Steven Spielberg
Os primeiros 27 minutos em Omaha Beach mudaram o que o cinema de guerra pode mostrar. O resto do filme mudou o que um homem pode suportar.
Cinco Oscars incluindo Melhor Direção para Spielberg. A cena de abertura em Omaha Beach é estudada em escolas de cinema como o exemplo mais preciso de como filmar caos sem perder a clareza narrativa. Hanks como Capitão Miller foi indicado ao Oscar de Melhor Ator.
O que Miller representa na filmografia de Hanks é o homem comum transformado em líder pela necessidade, não pela vocação. Miller não quer ser herói. Quer voltar para casa e ensinar inglês para adolescentes. O que o filme examina é o custo de fazer o que precisa ser feito quando você preferiria não fazer, e Hanks carrega esse custo no corpo ao longo das duas horas e quarenta minutos com uma contenção que torna o final do filme devastador precisamente porque não é performático.
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O Terminal (2004) — Steven Spielberg
Viktor Navorski chegou ao aeroporto de Nova York. O país de origem havia deixado de existir enquanto ele voava. Ficou no terminal por dois anos.
O Terminal é o filme menos óbvio da lista e o que melhor ilustra algo que os outros seis apenas sugerem: a gentileza como forma de resistência. Viktor Navorski não tem poder, não tem dinheiro, não tem documentos válidos. Tem paciência e tem a capacidade de tratar cada pessoa ao redor como se ela importasse. E isso, o filme argumenta, é suficiente para mudar o mundo imediato ao redor de uma pessoa.
Hanks construiu Viktor com um sotaque específico, uma fisicalidade específica e uma lógica interna que é completamente diferente de qualquer outro personagem da carreira. É o único da lista que usa o humor como argumento: Viktor é engraçado porque a situação é absurda e ele recusa tratar o absurdo como tragédia. Essa escolha, que poderia parecer ingênua, é na verdade o argumento mais sofisticado do filme sobre o que a dignidade humana significa.
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Capitão Phillips (2013) — Paul Greengrass
O navio foi tomado por piratas somalis. O capitão negociou durante dias. A cena final é estudada em escolas de cinema.
Paul Greengrass dirigiu Capitão Phillips com a câmera na mão e o ritmo do documentário que define seu estilo desde Domingo Sangrento e Voo United 93. Hanks foi indicado ao BAFTA de Melhor Ator. A cena final, em que Phillips entra em colapso emocional depois de ser resgatado pela Marinha americana, foi filmada sem ensaio com uma médica real da Marinha que não sabia que estava sendo filmada.
É a cena mais estudada da carreira de Hanks e a que melhor explica o fenômeno. Não há diálogo. Não há música que sinalize o que sentir. Há um homem que ficou forte por tempo suficiente e que agora não precisa mais ficar, e o corpo fazendo o que o corpo faz quando a adrenalina finalmente vai embora. O espectador reconhece aquilo porque já sentiu alguma versão daquilo. É assim que Tom Hanks funciona: não mostrando o extraordinário, mas mostrando o ordinário de uma forma que o espectador reconhece como verdadeira.
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