A sensualidade não foi um dom. Foi uma ferramenta usada sobre ela.
Marilyn Monroe é, até hoje, a imagem mais reproduzida da história do cinema americano. Está em camisetas, posters, capas de revista, memes, e também em museus, nas serigrafias de Andy Warhol que transformaram o rosto dela em ícone pop antes mesmo de a palavra "ícone" significar o que significa hoje. Norma Jeane Mortenson nasceu em 1926 e morreu em 1962, aos trinta e seis anos, depois de pouco mais de uma década como a estrela mais valiosa de Hollywood. O nome "Marilyn Monroe" foi criação do estúdio, uma fabricação que separou desde o início a pessoa do produto, e essa separação nunca foi desfeita.
A vulnerabilidade que tornou essa fabricação possível tem origem na infância. Norma Jeane cresceu entre lares adotivos e um orfanato, com a mãe internada por doença mental. Biógrafos apontam esse histórico de instabilidade como o terreno onde a oferta de um estúdio disposto a transformar uma adolescente insegura em propriedade valiosa pôde parecer, na época, segurança.
A construção começou antes da fama. Em 1949, ainda modelo, ela posou nua para um calendário por necessidade financeira. Quando a foto veio à tona em 1952, no auge da ascensão, o estúdio temia escândalo. Monroe assumiu o fato com naturalidade numa entrevista, e o episódio virou publicidade favorável. Foi a primeira demonstração de como o corpo dela funcionava como mercadoria, inclusive quando deveria, em tese, ser motivo de vergonha.O corpo como espetáculo público teve preço pessoal direto. A filmagem da cena do vestido sobre a grade do metrô, em O Pecado Mora ao Lado, reuniu milhares de homens numa rua de Nova York de madrugada, e precisou ser refeita em estúdio por causa do tumulto. Joe DiMaggio, então marido de Monroe, assistiu à cena ao vivo e ficou furioso. O casamento terminou poucas semanas depois.
O que ficou escondido por trás dessa imagem foi revelado décadas depois, em leilões e biografias: uma coleção de centenas de livros, anotações, poemas próprios. A distância entre essa mulher e a loira que ela precisou interpretar com perfeição em alguns dos papéis mais lucrativos da carreira é, talvez, a medida exata do que esta mostra quer discutir.
E o instrumento sobreviveu à pessoa. Décadas depois da morte, os direitos de imagem de Marilyn Monroe continuam gerando receita por meio de licenciamento, campanhas e merchandising. O mito que Hollywood criou e destruiu nunca parou de ser monetizado.
Esta mostra acompanha essa trajetória através de sete filmes, escolhidos não pela sensualidade que exibem, mas pelo que revelam sobre como essa sensualidade foi construída, vendida e cobrada. Em 1954, no auge da fama, Monroe fundou a própria produtora, a Marilyn Monroe Productions, um gesto sem precedentes para uma atriz na época e uma tentativa concreta de retomar controle sobre a própria imagem.- Torrentes de Paixão (1953) abre a mostra porque é onde o instrumento começa a ser calibrado. Monroe interpreta uma mulher cuja sensualidade os outros personagens leem como perigo, e a câmera de Henry Hathaway já usa nela os recursos que definiriam sua imagem pelos anos seguintes.
- Os Homens Preferem as Loiras (1953) é onde a persona se cristaliza em sucesso comercial absoluto. A partir daqui, o mito passa a preceder a atriz em qualquer projeto que ela aceite.
- O Pecado Mora ao Lado (1955) é o pico da mercantilização da imagem. A cena do vestido sobre a grade do metrô é hoje mais conhecida do que o filme inteiro, e essa desproporção é exatamente o argumento.
- Nunca Fui Santa (1956) marca a primeira fissura. Depois de estudar com Lee Strasberg no Actors Studio, Monroe luta por um papel dramático e entrega, segundo ela mesma, o trabalho de que mais se orgulhava.
- O Príncipe Encantado (1957) transforma o atrito entre atriz e símbolo sexual em documento de bastidor. O conflito com Laurence Olivier durante as filmagens ficou tão registrado que geraria, décadas depois, um filme próprio.
- Quanto Mais Quente Melhor (1959) é o paradoxo no auge: a performance cômica mais celebrada da carreira, produzida sob a direção mais exaustiva que Monroe já enfrentou.
- Os Desajustados (1961) encerra a mostra como deve encerrar. Último filme que ela completou, escrito por Arthur Miller durante o fim do casamento dos dois, é o ponto em que a distância entre a mulher e o mito desaparece, porque não resta mais nada para proteger.
Vamos à mostra:
TORRENTES DE PAIXÃO (1953) - Henry Hathaway
George levou Rose para Niagara Falls numa lua de mel atrasada. Ela tinha outros planos. As cataratas não vão poupar nem ela nem ele.
Antes de se tornar o rosto mais reconhecível de Hollywood, Marilyn Monroe interpretou Rose Loomis, mulher casada com um homem perturbado e envolvida com outro, num thriller filmado nas cataratas do Niágara. Henry Hathaway constrói Rose como ameaça, e a câmera trata o corpo de Monroe exatamente como o roteiro trata Rose: como instrumento de perigo, algo a ser observado com desconfiança e desejo ao mesmo tempo.
É o primeiro filme onde se pode ver, com clareza retrospectiva, a engrenagem sendo montada. A sensualidade que faria de Monroe a maior estrela do mundo já está toda ali, e já está sendo usada pela narrativa contra a própria personagem que a exibe.
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OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953) - Howard Hawks
Lorelei Lee só ama homens ricos. Ou é isso que ela quer que todo mundo pense.
Com Jane Russell ao lado, Monroe interpreta Lorelei Lee, showgirl que persegue diamantes com uma determinação que o filme trata como comédia, mas que esconde uma lógica de sobrevivência num mundo onde a beleza é o único capital disponível. "Diamonds Are a Girl's Best Friend" se tornou o número que definiria Monroe para o resto da carreira, e o sucesso do filme foi tão grande que a partir daqui o mito passou a preceder a atriz em qualquer projeto.
O que poucos sabiam na época: apesar de ser a atração principal do filme, Monroe recebeu salário muito menor que Russell. A desproporção entre o que ela gerava e o que recebia se tornaria um padrão.
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O PECADO MORA AO LADO (1955) - Billy Wilder
Um vizinho solitário, uma vizinha de cima, e uma noite de calor em Nova York. O resto, você já viu numa imagem que ficou maior que o filme.
A cena do vestido branco sobre a grade do metrô é, hoje, mais conhecida do que o filme inteiro, e essa desproporção é o ponto. Billy Wilder dirige uma comédia sobre fantasia e tédio conjugal, mas o que ficou da obra foi uma única imagem, repetida ao infinito, separada de qualquer contexto, qualquer personagem, qualquer roteiro.
A filmagem real dessa cena reuniu milhares de pessoas numa rua de Nova York de madrugada, e precisou ser refeita em estúdio por causa do tumulto. Joe DiMaggio, então marido de Monroe, assistiu ao vivo e ficou furioso. O casamento terminou poucas semanas depois.
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NUNCA FUI SANTA (1956) - Joshua Logan
Cherie canta numa boate de Phoenix e sonha com Hollywood. Um cowboy decide que ela vai ser dele. Ela tem outros planos para a própria vida.
Depois de um ano estudando interpretação com Lee Strasberg no Actors Studio, Monroe voltou às telas decidida a provar que era mais do que a imagem que o estúdio vendia. Cherie é uma cantora de talento modesto que sonha alto e que carrega, sob o sotaque caipira e a vulnerabilidade visível, uma dignidade que nenhum dos papéis anteriores havia permitido.
Monroe disse, mais tarde, que esse foi o trabalho de que mais se orgulhava. É a primeira fissura visível entre a mulher e o mito que a indústria insistia em vender.
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O PRÍNCIPE ENCANTADO (1957) - Laurence Olivier
Uma corista americana e um regente europeu se encontram em Londres durante uma coroação. Nos bastidores, dois atores travavam uma guerra silenciosa que o filme não mostra.
Laurence Olivier dirige e estrela ao lado de Monroe nessa comédia romântica ambientada na Londres de 1911, e o resultado nas telas é elegante e leve. O que aconteceu fora das telas ficou tão documentado que, décadas depois, geraria um filme próprio sobre os bastidores: Olivier tratava Monroe com uma condescendência que a deixava ainda mais ansiosa, e a tensão entre os dois é hoje mais lembrada do que a própria comédia.
É o filme em que o choque entre atriz séria e símbolo sexual deixa de ser subtexto e se torna a própria história de produção.
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QUANTO MAIS QUENTE MELHOR (1959) - Billy Wilder
Dois músicos fogem disfarçados de mulher depois de testemunharem um assassinato. Na banda em que se escondem, encontram Sugar Kane, e nada mais importa.
Considerada uma das melhores comédias da história do cinema, Quanto Mais Quente Melhor traz Monroe no papel de Sugar Kane, cantora ingênua que confia nos homens errados pela enésima vez. A performance é um dos picos cômicos da carreira dela, com timing e vulnerabilidade que parecem efortless na tela.
Não foram. Billy Wilder ficou famoso por descrever as filmagens como as mais exaustivas da carreira dele, com atrasos e repetições constantes. O brilho que o público vê e o custo que a produção pagou por ele coexistem na mesma obra, sem que um anule o outro.
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OS DESAJUSTADOS (1961) - John Huston
Roslyn se divorcia em Reno e encontra três homens que vivem fora do tempo, capturando cavalos selvagens. Nenhum deles sabe o que fazer com ela, nem ela com eles.
Último filme que Marilyn Monroe completou, Os Desajustados foi escrito por Arthur Miller, então marido dela, durante o colapso do próprio casamento dos dois. Roslyn é, em muitos sentidos, um retrato de Monroe escrito por quem a conhecia intimamente, e a performance carrega um peso que nenhuma outra no currículo dela tem.
Monroe morreria pouco mais de um ano depois da estreia. É o filme em que a distância entre a mulher e o mito desaparece, porque não resta mais nada para proteger.
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