O Telecine tem uma característica que o separa de todas as outras plataformas disponíveis no Brasil: é a única dedicada exclusivamente a filmes. Sem séries, sem reality, sem conteúdo de variedade. Só cinema. Isso tem um custo — literalmente. Para manter o catálogo no nível em que está, a plataforma precisa investir em obras que as outras plataformas não conseguem ou não querem pagar. O resultado aparece na tela.

Esta edição do Vale o Play é a prova disso. Sete filmes lançados entre 2023 e 2025, todos com passagem por festivais importantes. Palma de Ouro em Cannes. Grand Prix em Cannes. Indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Prêmio de melhor direção em Sundance. São filmes que chegaram ao Telecine porque custam caro e porque valem o preço.

Não estão escondidos. Estão em destaque. O que esta edição faz é reunir os melhores deles num só lugar e dizer por que cada um merece o tempo que vai levar da sua vida.

Têm em comum a qualidade que o streaming raramente garante: a de filmes que ficam depois que acabam. A análise completa de cada um está no Crítica Livre de Cinema. Escolha o filme e leia a análise antes de assistir. Vai assistir melhor.


Sirât (2025) - 1 h 55 min
Dir: Oliver Laxe

O deserto não perdoa. Mas às vezes revela.

A busca e o que ela se torna

Um pai e seu filho chegam a uma rave nas montanhas do sul de Marrocos procurando Marina, filha de um e irmã do outro, desaparecida meses antes numa festa como aquela. Quando um grupo de ravers parte para uma última festa no deserto profundo, eles seguem. Oliver Laxe não filma essa busca como odisseia espiritual: poucos diálogos, muita luz, um ritmo que não é lento, é outro. Prêmio do Júri em Cannes 2025 e candidato da Espanha ao Oscar de Melhor Filme Internacional.

O que fica

O título vem da tradição islâmica: a ponte que separa o inferno do paraíso, onde a alma se confronta com sua própria verdade. Laxe usa essa metáfora para construir um filme que vai ficando mais alucinante e mais belo à medida que avança para o deserto. Você sai sem saber exatamente o que viu, mas com a certeza de que não vai esquecer. É cinema que usa o deserto como lugar onde tudo o que é supérfluo queima e o que sobra é o essencial.

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Nouvelle Vague (2025) - 1 h 45 min
Dir: Richard Linklater

Um americano foi a Paris contar a história de como o cinema foi reinventado. E reinventou o próprio filme no processo.

O que Linklater fez

Nouvelle Vague conta a história de Godard fazendo Acossado, filmada no estilo e no espírito com que Godard fez Acossado. Linklater recria o verão de 1959 nas ruas de Paris, com Guillaume Marbeck como Godard, Zoey Deutch como Jean Seberg e Aubry Dullin como Belmondo. É o primeiro filme de Linklater rodado inteiramente em francês. Estreou em competição em Cannes 2025, ganhou seis minutos e meio de ovação de pé, e Linklater venceu o César de Melhor Diretor, tornando-se apenas o segundo americano a ganhar o prêmio.

Por que fica depois que acaba

Nouvelle Vague é um filme sobre a alegria de fazer cinema quando tudo ainda parece possível, e sobre o que acontece quando uma geração de pessoas apaixonadas decide que as regras existem para ser quebradas. Para cinéfilos é uma celebração que aprofunda. Para quem não conhece Godard é uma porta de entrada. Para os dois é um filme que termina e deixa vontade de assistir a tudo que inspirou.

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Sorry, Baby (2025) - 1 h 43 min
Dir: Eva Victor

O trauma não avisa quando chega. Também não avisa quando vai embora.

O que Eva Victor fez

Agnes é professora universitária de literatura. Quatro anos atrás, algo aconteceu dentro da casa do professor orientador dela. Sorry, Baby começa depois disso, e é um filme sobre o que o tempo faz, ou deixa de fazer, com quem sobrevive. Eva Victor escreve, dirige e protagoniza num debut que venceu o prêmio de roteiro em Sundance 2025, foi distribuído pela A24 e foi eleito o filme mais bem avaliado do festival pelo survey de críticos da Indiewire. Produzido por Barry Jenkins.

Por que fica depois que acaba

Sorry, Baby é uma comédia dramática sobre trauma e reconstrução que recusa todos os clichês do gênero. Sem momento de revelação catártica, sem arco de superação limpo, sem resolução que falsifique o que o filme examina com tanta honestidade. O que Victor entrega é raro: um filme simultaneamente engraçado e dilacerante, que usa a estrutura não-linear para capturar como a memória realmente funciona, fora de ordem, sem clareza, sem respeitar o momento em que você quer que ela funcione.

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Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025) If I Had Legs I'd Kick You - 1 h 53 min
Dir: Mary Bronstein

Linda está segurando tudo. O filme examina o que acontece quando não dá mais para segurar.

O que Mary Bronstein fez

Linda é psicoterapeuta. Sua filha pequena tem um distúrbio alimentar grave que exige alimentação por sonda todas as noites. O marido está ausente. Uma paciente desaparece. E o próprio terapeuta dela está tentando encerrar o tratamento. Mary Bronstein escreve e dirige um filme sobre o colapso de uma mulher treinada profissionalmente para ajudar os outros a não colapsarem. Rose Byrne protagoniza numa performance que lhe rendeu o Urso de Prata em Berlim, o Globo de Ouro, o Independent Spirit Award e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Produzido pela A24 e pelos irmãos Safdie.

Por que fica depois que acaba

Se Eu Tivesse Pernas é um filme sobre o peso invisível de ser o adulto responsável quando não há mais espaço para ser humano. Bronstein filma com câmera na mão e uma proximidade que não permite distância. O espectador fica dentro da espiral de Linda sem saída. É simultaneamente perturbador, engraçado e honesto de um jeito que machuca. Um dos filmes mais fisicamente intensos do ano.

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A Semente do Fruto Sagrado (2024) Dane-ye anjir-e ma'abed - 2 h 47 min
Dir: Mohammad Rasoulof

O diretor fugiu do Irã a pé para chegar a Cannes. O filme que ele carregava justifica cada passo.

O que Mohammad Rasoulof fez

Iman acaba de ser promovido a juiz investigador do Tribunal Revolucionário de Teerã, o cargo que assina sentenças de morte. A família celebra. As duas filhas adolescentes assistem às ruas tomadas pelos protestos desencadeados pela morte de Mahsa Amini em 2022. Quando a arma do pai desaparece, a paranoia transforma o apartamento num espaço de terror doméstico. Rasoulof filmou clandestinamente no Irã, soube durante as filmagens que havia sido condenado a oito anos de prisão e açoitamento, fugiu a pé pelas montanhas durante 28 dias e chegou a Cannes para mostrar o filme. Prêmio Especial do Júri e Prêmio FIPRESCI em Cannes 2024. Indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional representando a Alemanha.

Por que fica depois que acaba

A Semente do Fruto Sagrado usa a estrutura do thriller doméstico para examinar como o autoritarismo contamina quem o serve, não apenas o Estado mas o homem, o pai, a família. Começa como drama familiar e termina como algo mais perturbador e mais honesto sobre o que o poder faz com as pessoas de dentro para fora. Com 2h 47min que não pesam.

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Tudo que Imaginamos como Luz (2024) All We Imagine as Light - 1 h 58 min
Dir: Payal Kapadia

Mumbai não pertence a quem vive nela. Pertence a quem pode pagar por ela.

O que Payal Kapadia fez

Prabha é enfermeira em Mumbai. Recebe um presente inesperado do marido que não vê há anos. Sua colega de quarto Anu tenta encontrar um lugar na cidade onde possa ter privacidade com o namorado. E Parvaty está sendo despejada após a morte do companheiro. Kapadia acompanha as três ao longo de uma Mumbai que as acolheu sem nunca pertencer a elas. O filme venceu o Grand Prix em Cannes 2024, o segundo prêmio mais importante do festival, com júri presidido por Greta Gerwig. Foi o primeiro filme indiano na competição principal de Cannes em 30 anos e o primeiro de uma diretora indiana. Eleito filme do ano pela revista Sight & Sound.

Por que fica depois que acaba

Kapadia filma Mumbai com uma luz que é ela mesma um argumento: a cidade que nunca para, que nunca pertence a quem a habita, que oferece tudo exceto espaço para existir. O filme começa como retrato urbano e termina como algo próximo da fábula, e essa transição é aqui a decisão mais precisa da diretora. Um dos filmes mais bonitos e mais necessários dos últimos anos.

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Monstro (2023) Kaibutsu - 2 h 7 min
Dir: Hirokazu Koreeda

Quem é o monstro? Depende de onde você está olhando.

O que Kore-eda fez

Saori percebe que algo está errado com o filho Minato. Descobre que o professor é o responsável e vai à escola exigir explicações. O professor tem uma versão diferente. E Minato tem uma terceira. Kore-eda constrói Monstro em três perspectivas que examinam os mesmos eventos e chegam a conclusões radicalmente diferentes, e o roteiro de Yuji Sakamoto, que venceu o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes 2023, usa essa estrutura para examinar o que acontece quando a verdade depende inteiramente do ponto de vista de quem a conta. A trilha sonora é uma das últimas composições de Ryuichi Sakamoto, morto durante as filmagens. Kore-eda é o diretor de Assunto de Família, vencedor da Palma de Ouro.

Por que fica depois que acaba

Monstro começa como drama escolar sobre bullying e termina em outro lugar inteiramente, num lugar que o filme prepara com tanta precisão que a chegada parece inevitável mas nunca previsível. É o tipo de filme que muda o que você estava vendo quando revela o que estava sendo visto. Um dos filmes mais completos e mais generosos do cinema japonês recente.

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